. ‘E ergueu os seus filhos e as suas mulheres sobre camelos’; que signifique a elevação das verdades e de suas afeições, e a ordenação nas coisas gerais, é o que se vê pela significação dos ‘filhos’, que são os veros (n. 489, 491, 533, 1147, 2623); pela significação das ‘mulheres’ [fæminarum], aqui Raquel e Leah, e depois as servas, que são as afeições do vero, das cognições e dos conhecimentos, de que antes se tratou; e pela significação dos ‘camelos’, que são as coisas gerais do conhecimento no natural (n. 3048, 3071, 3143, 3145). [2] Quem não conhece como a coisa acontece em relação às representações e às correspondências, não pode crer que estas palavras, a saber, “ergueu os seus filhos e as suas mulheres sobre os camelos”, significam tais coisas. De fato elas lhe parecem muito afastadas para que envolvam e contenham em si esse espiritual, pois ele pensa a respeito dos filhos, das mulheres e dos camelos. Os anjos, porém, que veem e percebem espiritualmente todas essas coisas, pensam não a respeito de filhos, mas dos veros quando os filhos são mencionados, e não de mulheres, mas das afeições do vero, das cognições e dos conhecimentos, quando as mulheres são mencionadas, e não de camelos, mas então das coisas gerais no natural, pois assim correspondem [a essas coisas]. Tal é o pensamento angélico e, o que é admirável, tal é o pensamento do homem interno espiritual quando ele vive no corpo, embora o homem externo ignore isso absolutamente. É também por isso que o homem que foi regenerado vem, quando ele morre, a um semelhante pensamento, e pode pensar e falar com os anjos, e isso sem instrução, o que nunca sucederia se o seu pensamento interior não tivesse sido tal. Que ele seja tal, vem isso da correspondência das coisas naturais e das coisas espirituais. Daí é evidente que, embora o sentido literal da Palavra seja natural, ainda assim, em si e em cada uma das suas partes, ela contém coisas espirituais, isto é, coisas tais que pertencem ao pensamento e, daí, à linguagem interior, ou espiritual, ou como é [a linguagem] dos anjos. [3] Quanto à elevação das verdades e de suas afeições, e quanto à sua ordenação nas coisas gerais, eis o que sucede: As verdades e as afeições são elevadas quando as coisas que pertencem à vida eterna e ao Reino do Senhor são preferidas às que pertencem à vida no corpo e ao reino do mundo; quando o homem reconhece aquelas como o principal e o primário, e estas como o instrumental e o secundário, então nele as verdades e as suas afeições são elevadas, pois, quanto mais ele for transportado para a luz do céu, na qual há a inteligência e a sabedoria, então tanto mais as coisas que pertencem à luz do mundo são para ele imagem e, por assim dizer, espelhos, nos quais [ele] vê as coisas do céu. Sucede o contrário quando o indivíduo prefere as coisas que pertencem à vida do corpo e ao reino do mundo mais do que aquelas que pertencem à vida eterna e ao Reino do Senhor, como quando ele crê que estas não existem porque não as vê e porque ninguém veio dali e as anunciou; e depois se ele crê que, caso elas existissem, que não lhe sucederia pior do que aos outros, e se confirma nessas crenças, e vive a vida do mundo, e despreza inteiramente a caridade e a fé. Em um tal indivíduo as verdades e as suas afeições não são elevadas, mas são ou abafadas, ou rejeitadas, ou pervertidas, porquanto está na luz natural, na qual não influi coisa alguma da luz celeste. Daí se vê claramente o que se entende pela ‘elevação das verdades e das suas afeições’. [4] Quanto ao que diz respeito à sua ordenação nas coisas gerais, ela é a sua consequência, pois quanto mais o homem prefere as coisas celestes às mundanas, tanto mais as coisas que estão em seu natural são ordenadas em relação ao estado do céu, de sorte que elas se mostram no natural (como foi dito), como as imagens e os espelhos das coisas celestes, pois elas são coisas representativas correspondentes. São os fins que põem em ordem, isto é, é o Senhor que, pelos fins, [põe em ordem] no homem. Há de fato três coisas que se seguem em ordem, a saber, os fins, as causas e os efeitos; os fins produzem as causas e, pelas causas, os efeitos; tais quais são, portanto, os fins, tais se mostram as causas, e tais são daí os efeitos. Os fins são os íntimos no homem, as causas são os meios, e são denominadas fins médios, e os efeitos são os últimos, e são denominados fins últimos; os efeitos são também as coisas que se chamam gerais. Daí se vê o que vem a ser a ordenação nos gerais, a saber, que quando as coisas que pertencem à vida eterna e ao Reino do Senhor são tidas como fins, todos os fins médios, ou as causas, e todos os fins últimos, ou os efeitos, são dispostos em ordem segundo o fim mesmo, e isso no natural, porque aí estão os efeitos, ou, o que é a mesma coisa, porque aí estão os gerais. [5] Qualquer homem que, na idade adulta, possui algum discernimento326, pode saber, por pouco que pondere, que ele está em dois reinos, a saber, no reino espiritual e no reino natural, depois, que o reino espiritual seja interior, e o reino natural, exterior, e que, consequentemente, ele pode preferir um ao outro, ou ter a um por fim de preferência ao outro, e que, por isso, nele domina o que ele tem por fim, ou que ele prefere. Se, portanto, ele tiver por fim e preferir o reino espiritual, isto é, as coisas pertencentes a esse reino, então ele reconhece como principal e em primeiro lugar o amor ao Senhor e a caridade para com o próximo, por conseguinte, todas as coisas que os confirmam, as quais são denominadas coisas da fé, pois elas pertencem a esse reino, e então todas as que estão em seu natural são dispostas e ordenadas segundo essas coisas, a fim de que estejam a seu serviço e sob a sua obediência. Quando o indivíduo tem, ao contrário, por fim e prefere o reino natural, isto é, as coisas que nele estão, então ele extingue as coisas que pertencem ao amor ao Senhor e à caridade para com o próximo, e as que pertencem à fé, de tal forma que considere como absolutamente nada essas coisas, mas ele considera como tudo o que pertence ao amor do mundo e ao amor de si, e as coisas que pertencem a tais amores. Quando essas coisas se efetuam, todas as coisas são ordenadas em seu natural de acordo com esses fins; assim, inteiramente contra as coisas que pertencem ao céu; daí ele faz em si próprio o inferno. Ter por fim é amar, pois, todo fim pertence ao amor; com efeito, tem-se por fim o que se ama.