ac 4151

Emanuel Swedenborg
Obra: Arcanos Celestes – Gênesis Explicado

Texto

. ‘E Jacó não soube que Raquel os furtou’; que signifique que eles pertenciam à afeição do vero interior, é o que se vê pela representação de ‘Raquel’, que é a afeição do vero interior (n. 3758, 3782, 3793, 3819); e pela significação de ‘furtar’, que é tirar o que é caro e santo (n. 4112, 4113, 4133). Acima, por Raquel ter furtado os terafins ou os deuses de Labão foi significada a mudança do estado representado por Labão quanto ao vero (n. 4111); essa mudança de estado é aqui descrita e então ulteriormente nas coisas que vão seguir, e consiste em que o bem representado por Labão, depois de ter sido separado do bem que Jacó representa, chegou a um outro estado pela separação, visto que os veros que lhe apareciam como sendo dele, quando os bens estavam conjuntos, foram sentidos como lhe tendo sido arrebatados; é por essa razão que Labão se queixou, e que ele fez uma procura minuciosa nas tendas e nada achou. Com efeito, os veros que são significados pelos terafins, no sentido bom (n. 4111), pertenciam não a ele, mas à afeição do vero que é Raquel.
[2] Não é possível ver como a coisa ocorre, a não ser pelas coisas que acontecem na outra vida, pois lá as coisas que sucedem perto do homem aparecem ao homem como nele, o mesmo acontece com os espíritos na outra vida; quando as sociedades dos espíritos que estão no bem intermediário estão em sociedade com os anjos, então parece absolutamente a esses espíritos que os veros e os bens que pertencem aos anjos lhes pertencem; e não sabem mesmo outra coisa. Mas quando eles são separados, então eles se dão conta de que isso não é assim; por isso eles se queixam também, crendo que esses veros e esses bens foram arrebatados por aqueles com os quais eles estavam em sociedade. É isso que é aqui significado no sentido interno, e logo depois pelos terafins no que vai seguir.
[3] Em geral, isso se passa de modo que nunca ninguém tem bem nem vero que lhe pertença, mas que todo bem e todo vero influi do Senhor tanto imediata como mediatamente por meio das sociedades angélicas; e entretanto parece que o bem e o vero pertencem àquele com quem eles estão; e isso a fim de que sejam apropriados ao homem, até que ele chegue a esse estado de saber, em seguida, de reconhecer e, finalmente, de crer que eles pertencem não a ele, mas ao Senhor. Sabe-se também, pela Palavra, e por conseguinte no mundo cristão, que todo bem e todo vero procedem do Senhor, e que nada do bem proceda do homem; ainda mais, as coisas doutrinaisda igreja, que são extraídas da Palavra, ensinam que por si mesmo o homem não pode sequer fazer esforços para o bem, assim, que ele não o pode querer, nem portanto fazer, porque fazer o bem provém do querer o bem; elas também ensinam que tudo que pertence à fé vem do Senhor, de sorte que o homem não pode crer a menor coisa, salvo se isso influir do Senhor.
[4] É isso que ensinam os doutrinais da igreja, e o que ensinam as pregações. Mas que haja poucos, e até pouquíssimos, que creiam que a coisa acontece assim, pode-se ver pelo fato de que os homens creem que o todo da vida está neles, e que dificilmente há alguém que creia que a vida influi. O todo da vida do homem consiste na faculdade que ele tem de poder pensar e de poder querer, porque se a faculdade de pensar e de querer fosse arrebatada, nada fica da vida; a essência mesma da vida consiste em pensar o bem e querer o bem, e também em pensar o vero e em querer o que se pensa ser o vero. Ora, se segundo os doutrinais que são extraídos da Palavra, essas coisas pertencem não ao homem, mas ao Senhor, e porque elas influem do Senhor por meio do céu, os que possuem algum juízo e que podem refletir, teriam podido concluir daí que o todo da vida influi.
[5] Dá-se o mesmo com o mal e o falso. De acordo com os doutrinais que são extraídos da Palavra há que o diabo continuamente se esforça para seduzir o homem, e que lhe insufla constantemente o mal; daí também se diz, quando alguém cometeu um grande crime, que se deixou seduzir pelo diabo. Isso é também um vero, mas há, entretanto, poucos que o acreditem, se os há. Com efeito, do mesmo modo que todo bem e todo vero procedem do Senhor, assim também todo mal e todo falso procedem do inferno, isto é, do diabo, porque o inferno é o diabo. De onde se pode ver ainda, que, como todo bem e todo vero influem, assim também influem todo mal e todo falso, por conseguinte também pensar o mal e querer o mal. Ora, como essas coisas influem também os que fruem de algum juízo e sabem refletir podem concluir daí que o todo da vida influi, embora pareça que esse todo esteja no homem.
[6] Que assim seja, é o que se mostrou muitas vezes aos espíritos que tinham recentemente chegado deste mundo na outra vida; mas alguns dentre eles diziam que se todo mal e todo falso influem também, nada do mal nem do falso lhes pode ser atribuído, e que não são culpados, pois o mal e o falso vêm de outra parte. Mas respondeu-se-lhes que eles se tinham apropriado desse mal e desse falso, no fato de terem eles crido que pensavam por si mesmos e querer por si mesmos, enquanto se tivessem crido o que é realmente, então eles não se teriam apropriado dos males e dos falsos, pois então eles teriam crido também que todo bem e todo vero procedem do Senhor, e que, se tivessem crido isso, eles teriam deixado que o Senhor os conduzisse, e assim se achariam em um outro estado, e então o mal que tivesse entrado em seu pensamento e em sua vontade os não teria afetado, pois o mal não teria saído, mas o bem teria saído, pois, o que afeta não é o que entra, mas o que sai, segundo as palavras do Senhor em Marcos (7:15).
[7] Há, contudo, muitos que podem saber isso, mas há poucos que possam crer. Os que são maus podem até sabê-lo, mas não o creem, pois querem estar no proprium, e o amam de tal modo que, quando se lhes dá saber que tudo influi, eles vêm na ansiedade, e pedem com que se lhes permita viver em seu proprium, asseverando que se ele lhes fosse tirado não poderiam mais viver; é assim que creem também aqueles mesmos quesabem. Isso se disse para que se saiba como a coisa se passa em relação às sociedades de espíritos, que estão no bem intermediário, quando elas foram conjuntas a outras sociedades, e quando foram delas separados, isto é, quando elas estavam conjuntas, não sabem outra coisa senão que os bens e os veros lhes pertencem, quando a verdade é que eles não lhes pertencem.

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