Texto
. ‘Se o DEUS de meu pai, o DEUS de Abrahão e o pavor de Isaque, não estivesse comigo’; que signifique: ‘a não ser que o Divino e o Divino Humano’, é o que se vê pela significação de ‘Deus de meu pai’ quando isso se diz do Senhor, que é o Divino quanto ao bem. Que o ‘Pai’ seja o Divino Bem, e o Filho, o Divino Vero, foi visto (n. 2803, 3704), aqui é o Divino Bem de uma e outra Essência; pela significação do ‘Deus de Abrahão’, que é o Divino mesmo, que é chamado Divina Essência. Que Abrahão represente o Senhor quanto ao Divino mesmo, n. 2011, 3439. E pela significação do ‘pavor de Isaque’, que é o Divino Humano. Diz-se o pavor, porque é o Divino Vero que é entendido, pois o Divino Vero tem consigo o temor, o pavor e o terror entre aqueles que não estão no bem, mas não sucede o mesmo com o Divino Bem, que a ninguém amedronta; é a mesma coisa na continuação deste capítulo: “E Jacó jurou pelo pavor de seu pai Isaque” (vers. 53). Com efeito, porque então Labão estava separado de Jacó, isto é, o bem intermediário estava separado do Bem Divino, estava em tal estado, que ele queria fazer mal como se vê pelas coisas que são ditas a respeito de Labão; por isso, porque então ele era tal, se diz o ‘pavor de Isaque’. Que o pavor de Isaque signifique o Deus de Isaque, qualquer um pode ver, e também que estava nesse estado. Que Isaque represente o Divino Humano do Senhor, e mesmo esse Divino quanto ao Divino Racional, foi visto (n. 1893, 2066, 2072, 2083, 2630, 3012, 3194, 3210, 3974 no começo).
[2] Quanto a isto, que o Divino Vero que procede do Senhor tenha consigo o pavor naqueles que não estão no bem, mas [que] não [ocorre o mesmo com] o Divino Bem, eis o que acontece: O Santo, que procede do Senhor, tem em si o Divino Bem e o Divino Vero, estes procedem continuamente do Senhor; daí vem a luz que há nos céus e daí vem a luz que há nas mentes humanas, consequentemente, daí a sabedoria e a inteligência, pois elas estão nessa luz. Mas essa luz, ou a sabedoria e a inteligência, afeta a todos [os homens] segundo a recepção. Aqueles que estão no mal não recebem o Divino Bem, pois estão no amor e caridade nulos; com efeito, todo bem pertence ao amor e à caridade. Mas o Divino Vero pode ser recebido até pelos maus, mas por seu homem externo, não por seu homem interno.
[3] Acontece com isso como com o calor e a luz que procedem do sol. O calor espiritual é o amor, assim, o bem; mas a luz espiritual é a fé, assim, o vero. Quando o calor procedente do sol é recebido, então as árvores e as flores estão em vegetação, produzem folhas, flores, frutos ou sementes, como se vê nas estações da primavera e do verão; mas quando o calor vindo do sol não é recebido, e que há apenas luz, então nada está em vegetação, mas todo vegetativo se entorpece, como acontece nas estações do outono e do inverno. O mesmo se dá com o calor espiritual e com a luz espiritual que procedem do Senhor. Se o homem for como a primavera e o verão, então ele recebe o bem que pertence ao amor e à caridade, e produz frutos; mas se o homem for como o outono e o inverno, então ele não recebe o bem do amor e da caridade e, por conseguinte, não produz frutos; contudo, ele pode ainda receber a luz, isto é, saber as coisas que pertencem à fé ou ao vero. A luz do inverno age de um modo semelhante, pois apresenta igualmente as cores e as belezas, e as faz visíveis, mas com esta diferença, que ela não penetra para os interiores, porque não há ali calor, por isso a vegetação é nula.
[4] Quando, portanto, o bem não é recebido, mas somente a luz, então é como o calor não recebido nos objetos, há apenas as formas pela imagem e a formosura pela luz, por isso por dentro há o frio; e em toda parte onde houver o frio por dentro, aí há o torpor de todas as partes ali, e, por assim dizer, há um enrugamento e arrepio quando a luz ali se introduz [indit]; essas são as coisas que nos [entes] vivos fazem o temor, o pavor e o terror. Por essa comparação se pode de alguma forma compreender como se dá com o temor, o pavor e o terror, que estão nos maus, isto é, que, a saber, eles não procedem do Divino Bem, mas do Divino Vero, e que então eles existem quando não se recebe o Divino Bem e, todavia, se recebe o Divino Vero; e então que o Divino Vero sem o Divino Bem não pode penetrar para os interiores, mas fica fixado somente nos extremos, isto é, no homem externo, e ordinariamente em seu sensual; e que por isso o homem na forma externa parece algumas vezes belo, quando de fato ele é medonho na forma interna; daí também se pode ver qual é a fé entre muitos, da qual se diz salvar sem as boas obras, isto é, sem o bem-querer e o bem-fazer.
[5] Como do Divino Humano procede o Divino Vero, mas não do Divino mesmo, eis por que é o Divino Humano que é significado aqui pelo ‘pavor de Isaque’, pois, como foi dito, é o Divino Vero que inspira o terror, mas não o Divino Bem. Que do Divino Humano do Senhor proceda o Divino Vero e não do Divino mesmo, é esse um arcano que até agora não foi descoberto, eis o que diz respeito a esse arcano: Antes que o Senhor viesse ao mundo, então o Divino mesmo influía em todo o céu, e porque então o céu quanto à maior parte se compunha de celestes, isto é, dos que tinham estado no bem do amor, por esse influxo a Onipotência Divina produzia a luz que está nos céus e, daí, a sabedoria e a inteligência; mas depois que o gênero humano se afastou do bem do amor e da caridade, essa luz não podia ser mais produzida pelo céu, por conseguinte, não podia mais ser produzida a sabedoria e a inteligência que penetrassem até o gênero humano, razão por que, pela necessidade de salvar, o Senhor veio ao mundo e fez Divino n’Ele o Seu Humano, a fim de que Ele mesmo, quanto ao Divino Humano, Se tornasse a Luz Divina e iluminasse assim todo o céu e todo o mundo. Ele tinha sido a Luz mesma de toda eternidade, pois esta Luz procedia do Divino mesmo pelo céu; e foi o Divino mesmo que se revestiu do Humano e o fez Divino, e quando o Humano foi feito Divino, Ele pôde então [pelo Divino Humano] iluminar não apenas o céu celeste mesmo, mas também o céu espiritual, e também o gênero humano, que recebeu e recebe o Divino Vero no bem, isto é, no amor ao Senhor e na caridade para com o próximo, como se vê claramente em João:
“A todos quantos [O] receberam, deu-lhes poder, a fim de que fossem filhos de Deus; aos que creem no Nome d’Ele; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do varão, mas de Deus” (1:12, 13).
[6] Pelo que acaba de ser dito, pode-se ver o que significam estas palavras em João:
“No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus, e Deus era a Palavra. Ela estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por Ela, e sem Ela nada se fez do que foi feito; n’Ela estava a vida, e a vida era a Luz dos homens. [...] era a Luz verdadeira que ilumina a todo homem que vem ao mundo” (1: 1–4, 9; e seguintes);
aí a ‘Palavra’ significa o Divino Vero. Mas que o Senhor, quanto a uma e outra Essência seja o Divino Bem, mas que d’Ele proceda o Divino Vero, foi visto (n. 3704). Com efeito, o Divino Bem não pode ser recebido pelo homem, nem sequer pelo anjo; mas ele é recebido somente pelo Divino Humano do Senhor; é o que se entende por estas palavras em João:
“A Deus ninguém jamais viu, o Filho Unigênito, Que está no seio do Pai, Ele [O] expôs” (1:18);
mas o Divino Vero pode ser recebido, mas na qualidade em que pode ser dado ao homem que recebe; nesse vero pode habitar o Divino Bem, com diferença segundo a recepção.
[7] Tais são os arcanos que se apresentam aos anjos quando estas palavras são lidas pelo homem: “Se o DEUS de meu pai, o DEUS de Abrahão e o pavor de Isaque, não estivesse comigo”; daí se vê quanto há de celeste na Palavra, e em cada expressão da Palavra, ainda que nada de celeste se mostre no sentido da letra; daí também se vê qual é a sabedoria angélica em comparação com a sabedoria humana; e que os anjos estejam nos arcanos mais secretos, quando o homem nem sequer sabe que ali há algum arcano celeste. Mas estes que são lembrados são apenas em número muitíssimo reduzido, pois nesses arcanos os anjos veem e percebem inumeráveis coisas e até relativamente infindas, as quais nunca podem ser expressas, porque a linguagem humana não é adequada a exprimi-las, nem a mente humana capaz de recebê-las.