. Muitos há de um e outro sexo que na vida do corpo foram tais que, em toda parte em que puderam, procuraram por arte ou dolo subjugar a si a mente [animos] dos outros, com o fim de mandar, principalmente entre os poderosos e ricos, para serem os únicos a governar sob o nome deles; e que procederam clandestinamente e afastaram os outros, principalmente os homens probos, e isso por diversos meios, não de fato os censurando, pois a probidade se defende por si mesma, mas, por outros meios, pervertendo os seus conselhos, chamando-os simplórios e também maus, atribuindo-lhes os infortúnios, se essas coisas aconteciam, além de outros artifícios semelhantes. Os que foram tais na vida do corpo ainda são tais na outra vida, pois a vida de cada um o segue. [2] Tive a certeza disso por uma viva experiência quando espíritos dessa sorte estavam comigo, porque então eles procediam do mesmo modo, mas com mais habilidade e gênio ainda, pois os espíritos agem mais sutilmente do que os homens, pelo fato de terem sido desprendidos dos vínculos com o corpo e de relações com os modos grosseiros das sensações. Eram tão sutis, que às vezes eu não percebia que a sua intenção ou o seu fim fosse de mandar; e quando falaram entre si, eles tomavam toda a cautela para que eu não ouvisse e não percebesse essa intenção, mas outros me disseram, os quais os tinham ouvido, que os seus desígnios eram abomináveis, e que eles se esforçavam para chegar a seu fim por meio de artes mágicas, assim, por meio da ajuda da turba diabólica. Eles estimavam como nada as matanças de pessoas honradas; desprezavam o Senhor debaixo de quem eles diziam que queriam mandar, considerando-O apenas como um homem qualquer, para o qual, assim como com outras nações que deificaram e adoraram homens, permanecendo desde o tempo antigo, e ao qual eles não tinham ousado contradizer, porque tinham nascido nesse culto e teriam prejudicado a sua reputação. Posso dizer deles isto, que eles obsedam os pensamentos e a vontade dos homens que lhes são semelhantes, e que eles se insinuaram neles na sua afeição e intenção, assim a tal ponto que estes, sem a Misericórdia do Senhor, não podem de modo algum saber que tais espíritos se acham presentes, e que estão em tal sociedade com eles. [3] Esses espíritos correspondem, no homem, às coisas viciosas do sangue mais puro, sangue que é denominado espírito animal; essas coisas viciosas entram sem ordem nesse sangue, e em toda parte onde se espalham são como venenos que introduzem nos nervos e nas fibras um frio e um torpor, origens de enfermidades gravíssimas e fatais. Quando tais espíritos agem em consociação, eles são discernidos por isto: que eles agem de uma maneira quadrúpede352, se assim é permitido falar, e nisso, que eles se põem na parte posterior da cabeça debaixo do cerebelo, à esquerda, pois os que agem sob a nuca operam mais clandestinamente do que os outros; e os que agem para a parte de trás cobiçam mandar. [4] Eles argumentaram comigo a respeito do Senhor, e diziam-me que causava admiração o fato de Ele não escutar as suas preces quando eles oram, e que assim Ele não dá auxílio aos que O suplicam; mas permitiu-se-me responder que não podiam ser ouvidos, porque têm por fim coisas que são contrárias à salvação do gênero humano, e porque eles oram para si mesmos contra todos, e que, quando se ora assim, o céu se fecha, pois os que estão no céu só prestam atenção aos fins dos que oram. Na realidade, eles não queriam reconhecer isso, contudo eles não puderam responder coisa alguma. [5] Os dessa sorte eram varões, e eles estavam em consociação com mulheres; diziam-me eles que pelas mulheres eles podiam compreender um grande número de desígnios, porque elas eram mais prontas e mais hábeis em distinguir claramente tais coisas; eles se deleitam sobretudo na consociação das que foram prostitutas [scorta]. Tais se aplicam mais habitualmente, na outra vida, às artes secretas e mágicas, pois na outra vida há um grande número de artes mágicas, que são absolutamente desconhecidas no mundo. Logo que os dessa sorte chegam na outra vida, eles se aplicam a elas e aprendem a fascinar os que com eles estão, principalmente com aqueles sob os quais desejam reinar. Eles não se horrorizam dos atos mais horrendos. Em outro lugar se tratará do inferno deles, e se dirá qual ele é e onde eles residem quando não estão no mundo dos espíritos. A partir dessas explicações, pode-se ver que a vida de cada um o segue depois da morte.