Texto
. ‘E disse: Jacó não se dirá mais o teu nome, mas Israel’; que signifique o Divino celeste espiritual agora, e que Israel seja o homem celeste espiritual, que está no natural, portanto, o natural, [e que] o homem celeste [espiritual] mesmo, que é o racional, é José, é o que se pode ver pelas coisas que seguem a respeito de Jacó e de Israel, e também sobre José, pois antes é necessário dizer o que é este celeste espiritual. Hoje, na realidade, se sabe na igreja que há o homem espiritual e que há o homem natural, ou que há um homem interno e um homem externo; mas o que é o homem espiritual (ou interno) ainda não se sabe, e se sabe menos ainda o que é o homem celeste, e que este homem é distinto do homem espiritual; e porque não se sabe isso, não é possível saber o que é o homem celeste espiritual, que é aqui Israel. É necessário, pois, dize-lo em poucas palavras.
[2] Sabe-se que há três céus, a saber, o céu íntimo, o médio e o último, ou o que é o mesmo, o terceiro, o segundo e o primeiro. O céu íntimo (ou terceiro) é o celeste, com efeito, os anjos ali são chamados celestes, pois estão no amor ao Senhor e, por conseguinte, muito conjuntos ao Senhor; e porque é assim, eles estão, mais do que todos os restantes, na sabedoria, eles são inocentes e, por isso, são chamados inocências e sabedorias. Esses anjos se distinguem em internos e externos, os internos são mais celestes do que os externos. O céu médio (ou segundo) é o espiritual, porque os anjos ali são chamados espirituais, porque estão na caridade para com o próximo, isto é, no amor mútuo, que é tal que um ama o outro mais do que a si próprio, e porque são tais, eles estão na inteligência e, por isso, são denominadas inteligências. Esses anjos também se distinguem em internos e externos, os internos são mais espirituais do que os externos. Mas o último céu (ou primeiro) é também celeste e espiritual, mas não no mesmo grau que os precedentes, porquanto o natural adere aos anjos desse céu, por isso eles são chamados celestes naturais e espirituais naturais. Eles também estão no amor mútuo, contudo, eles não amam os outros mais do que a si próprios, mas como a si próprios, eles estão na afeição do bem e na cognição do vero; [esses anjos] também se distinguem em internos e externos.
[3] Mas se vai dizer, também em poucas palavras, o que é o celeste espiritual. Chamam-se celestes espirituais esses que logo acima foram denominados espirituais, e que estão no céu médio ou segundo céu; eles são proclamados celestes em razão do amor mútuo, e espirituais por causa da inteligência procedente desse amor. Os internos ali são os que são representados por José e também são denominados José, na Palavra; os externos, por sua vez, são ali os que são representados por Israel e chamados também Israel, na Palavra. Aqueles, a saber, os internos, que são chamados José, participam do racional; mas os externos, que são chamados Israel, participam do natural, porque eles ficam no meio entre o racional e o natural. Daí vem que se disse que Israel é o homem celeste espiritual que está no natural, por conseguinte, é o natural, e que José é o homem celeste espiritual mesmo, que é o racional. De fato, no sentido universal, todo bem pertencente ao amor e à caridade é chamado celeste, e todo vero que, por conseguinte, pertence à fé e à inteligência é chamado espiritual.
[4] Tais explicações são dadas para que se saiba o que é Israel; mas Israel, no sentido supremo, significa o Senhor quanto ao Divino celeste espiritual; mas, no sentido interno, significa o Reino espiritual do Senhor no céu e na terra. O Reino espiritual do Senhor na terra é a igreja, que é denominada igreja espiritual, e porque Israel é o Reino espiritual do Senhor, Israel é também o homem espiritual, pois em cada homem espiritual há o Reino do Senhor, visto que o homem é o céu em forma mínima, e também é a igreja (n. 4279). Quanto ao que diz respeito a Jacó, por ele é representado, no sentido supremo, o Senhor quanto ao Natural tanto celeste como espiritual; e, no sentido interno, o Reino do Senhor, tal qual é esse Reino no último ou no primeiro céu, por conseguinte, também esse Reino da igreja; o bem no natural é o que se chama aqui celeste, e o vero aí o que se chama [aqui] espiritual. Por essas explicações se pode ver o que é significado na Palavra por Israel e por Jacó, e também porque Jacó foi denominado Israel.
[5] Mas essas coisas que foram ditas não podem deixar de parecer obscuras, principalmente porque há poucos que saibam o que é o homem espiritual, e dificilmente alguém que saiba o que é o homem celeste e que há, por conseguinte, alguma distinção entre o homem espiritual e o homem celeste. A causa dessa ignorância vem de que não se percebe distintamente o bem que pertence ao amor e à caridade, nem o vero que pertence à fé. Que esse bem e esse vero não sejam percebidos, é porque não há mais caridade genuína. Onde uma coisa não está, aí também não há percepção dessa coisa. É também porque o homem está pouco solícito a respeito das coisas que dizem respeito à vida depois da morte, assim, a respeito das coisas que pertencem ao céu, mas se ocupa muito das coisas que pertencem à vida no corpo, por conseguinte, do que pertence ao mundo. Se o homem estivesse solícito a respeito das coisas que pertencem à vida após a morte e, portanto, a respeito das coisas que pertencem ao céu, então ele compreenderia facilmente as coisas que foram ditas acima, pois o que o homem ama, isto ele facilmente haure e compreende, mas penosamente aquilo que não ama.
[6] Que ‘Jacó’ signifique uma coisa, e ‘Israel’, uma outra, vê-se manifestamente pela Palavra, pois nos Históricos, como também nos Proféticos, ora se diz Jacó, ora Israel, e às vezes um e outro em um só versículo; daí se pode ver que existe um sentido interno da Palavra, e que sem esse sentido, esse arcano não pode de modo algum ser conhecido. Que Jacó ora é chamado Jacó, ora Israel, vê-se pelas passagens seguintes:
“Habitou Jacó na terra das peregrinações de seu pai: estas [são] as natividades de Jacó; José, filho de dezessete anos, e Israel amava a José mais do que todos os seus filhos” (Gn. 37:1, 2, 3);
onde Jacó é primeiro chamado Jacó, e depois Israel, e então ele é chamado Israel quando se trata de José. Em outra passagem:
“Jacó viu que havia cereal no Egito; [e] Jacó disse aos seus filhos; [...] E vieram os filhos de Israel comprar no meio dos que vinham” (Gn. 42:1, 5).
E depois:
“Subiram do Egito, e vieram à terra de Canaã, a Jacó, pai deles: quando lhe disseram todas as palavras de José, que tinha falado a eles; reviveu o espírito de Jacó, pai deles; e disse Israel: Muito [é]; José, meu filho, ainda [está] vivo” (Gn. 45:25, 27, 28).
E mais:
“E Israel caminhou, e tudo que [era] dele; ... disse Deus a Israel em visões da noite, e disse: Jacó, Jacó! Que disse: Eis-me [aqui]. [...] Levantou-se Jacó de Beershebah, e os filhos de Israel levaram Jacó, seu pai” (Gn. 46:1, 2, 5);
e no mesmo capítulo:
“Este [são] os nomes dos filhos de Israel que vieram ao Egito, de Jacó e dos filhos dele. [...]” (Gn. 46:8).
E mais:
“José fez entrar Jacó, seu pai, e pô-lo diante de faraó. [E] disse faraó a Jacó:... E Jacó disse ao faraó: [...]” (Gn. 47: 7, 8, 9, 10);
e no mesmo capítulo:
“E Israel habitou na terra de Goshen; e viveu Jacó na terra do Egito dezessete anos: e aproximavam-se os dias de Israel para morrer, e chamou o seu filho José” (vers. 27, 28, 29).
E ainda:
“E anunciou-se a Jacó, e disse: Eis que o teu filho José vem a ti. E firmou-se Israel e sentou sobre o leito. E disse Jacó a José: O Deus Shaddai apareceu-me em Luz [...]” (Gn. 48:2, 3);
e Israel é mencionado no mesmo capítulo (vers. 8, 10, 11 13, 14, 20, 21). E finalmente:
“Jacó chamou seus filhos, e disse: Reuni[-vos] e escutai, filhos de Jacó, e escutai Israel, vosso pai. [...] E quando acabou Jacó de ordenar aos seus filhos” (Gn. 49:1, 2, 33);
por essas passagens pode-se claramente ver que Jacó é chamado ora Jacó ora Israel, e que assim uma coisa é Jacó e outra coisa é Israel, ou que uma coisa é significada quando se diz Jacó, e outra coisa quando se diz Israel, então que esse arcano não pode ser conhecido senão pelo sentido interno.
[7] Mas quanto ao que significa Jacó e ao que significa Israel, foi dito acima; no geral, por Jacó, na Palavra, é significado o externo da igreja, e por Israel é significado o interno, pois cada igreja tem um externo e um interno, ou é externa e interna; e como o que pertence à igreja é significado por Jacó e por Israel, e porque tudo o que pertence à igreja procede do Senhor, por isso, no sentido supremo, tanto Jacó como Israel é o Senhor: Jacó quanto ao Divino Natural, Israel quanto ao Divino Espiritual. Daí o externo que pertence ao Reino do Senhor e à Sua igreja é Jacó, e o interno é Israel, como se pode ver, além disso, por essas passagens em que um e outro são também nomeados em seu sentido: Na profecia de Jacó, então Israel:
“...pelas mãos do forte de Jacó, daí [é] o pastor, a pedra de Israel” (Gn. 49:24).
Em Isaías:
‘Escutai, Jacó, Meu servo, e Israel, a quem escolhi. ... Não temei, Jacó, Meu servo, e Jeshurum, a quem escolhi; ... Derramarei o Meu espírito sobre a tua semente, e a Minha bênção sobre os teus nascidos; [...] Este dirá: De JEHOVAH, eu [sou], e este se chamará pelo nome de Jacó, e aquele escreverá com a sua mão a JEHOVAH, e do nome de Israelse intitulará” (44:1, 2, 3, 5);
aí manifestamente Jacó e Israel estão em lugar do Senhor, e aí a semente e os nascidos de Jacó e de Israel estão pelos que estão na fé n’Ele. Na profecia de Balaão em Moisés:
“Quem numerará o pó de Jacó, e o número quanto à quarta parte de Israel?” (Nm. 23:10);
e outra vez:
“Não [há] adivinhação contra Jacó, nem prestígios contra Israel; nesse tempo se dirá a Jacó e a Israel: Que tem feito Deus?” (Ibid. vers. 23);
e ainda:
“Quão bons são os teus tabernáculos, ó Jacó! Os teus habitáculos, ó Israel!” (Nm. 24:5);
e de novo:
“Surgirá uma estrela de Jacó, e um cetro de Israel” (Ibid. vers. 17).
Em Isaías:
“A minha glória não a darei a outrem. Atenta para Mim, ó Jacó! e [tu], ó Israel, chama-Me! Eu [sou] o mesmo, Eu, o primeiro, também Eu, o novíssimo” (48:11, 12).
No mesmo:
“Nos [dias] vindouros lançará raízes a Jacó, florescerá e estará em florIsrael, e encher-se-ão as faces do orbe de provento” (27:6).
Em Jeremias:
“Não temas, meu servo Jacó, e não te aterrorizes, ó Israel; porque eis que Eu te salvarei [das terras] de longe [...]” (30:9, 10).
Em Miquéias:
“Coligando te coligarei todo, ó Jacó: reunindo reunirei os remanescentes de Israel; pô-los-ei juntos, como ovelhas de Bozra” (2:12).
[8] De onde vem que Jacó foi denominado Israel, é o que se vê pelas palavras mesmas que foram pronunciadas quando se lhe deu esse nome, a saber, por estas:
“Jacó não se dirá mais o teu nome, mas Israel, porque como príncipe contendeste com Deus, e com os homens, e prevaleceste” [Gn. 32:28];
Com efeito, Israel, na língua original, significa ‘o que contende, como príncipe, com Deus’; essas palavras, no sentido interno, significam que ele venceu nos combates das tentações, pois por meio das tentações e dos combates nas tentações foi que o Senhor fez Divino o Seu Humano (n. 1737, 1813, e em outros lugares); e são as tentações e as vitórias nas tentações que fazem o homem espiritual, por isso é que então pela primeira vez Jacó foi chamado Israel, depois que ele lutou. Que lutar seja ser tentado, foi visto (n. 4274). Sabe-se que a Igreja, ou o homem da Igreja Cristã, se diga Israel; no entanto, ninguém na Igreja é Israel senão aquele que se tornou homem espiritual por meio das tentações; o nome mesmo também envolve a mesma coisa. Que depois seja confirmado que Jacó seria chamado Israel, é o que se vê no que segue, onde estão estas [palavras]:
“E apareceu Deus ainda a Jacó, ao vir ele de Paddan-Aram, e o abençoou. E disse-lhe Deus: O teu nome é Jacó; não se chamará mais o teu nome Jacó, mas Israel será o teu nome. E chamou o seu nome Israel” (Gn. 35:9, 10).
o motivo dessa confirmação se dirá mais abaixo.