Texto
. ‘Porque vi DEUS face a face, e minha alma foi livrada’; que signifique que ele sustentava gravíssimas tentações como se elas procedessem do Divino, vê-se pela significação de ‘ver a Deus’, que é a aproximação para Ele por meio dos interiores, a saber, pelos bens e veros, e, daí, a presença (n. 4198); e pela significação das ‘faces’, que são os interiores (n. 1999, 2434, 3527, 3573, 4066), por conseguinte, os pensamentos e as afeições, pois estas e aqueles são coisas interiores, porque pertencem ao ânimo e à mente, e se manifestam sobre a face; e pela significação de ‘minha alma foi livrada’, que é sustentar, a saber, a presença Divina. Que todas essas coisas significam que ele sustentava as tentações mais graves como se elas viessem do Divino, é o que não é possível ver senão pelas causas próximas e afastadas das tentações; as causas próximas são os males e os falsos no homem, que o induzem a tentações, por conseguinte, os maus espíritos e gênios que infundem (n. 4249); mas ainda assim, ninguém pode ser tentado, isto é, sofrer alguma tentação espiritual, salvo se tiver a consciência, pois a tentação espiritual não é outra coisa senão um tormento da consciência, consequentemente, não podem ser tentados outros senão aqueles que estão no bem celeste e espiritual, pois estes têm a consciência, os outros não têm, e nem sequer sabem o que é a consciência.
[2] A consciência é a nova vontade e o novo entendimento procedentes do Senhor, assim, é a presença do Senhor no homem, e essa presença é tanto mais próxima quanto mais o homem está na afeição do bem ou do vero. Se a presença do Senhor está mais próxima do que o quanto o homem está na afeição do bem ou do vero, o homem vem na tentação; a causa é porque os males e os falsos que estão no homem temperados com os bens e veros nele não podem sustentar uma presença mais próxima; é o que se pode ver pelas coisas que existem na outra vida, a saber, que os maus espíritos nunca podem se aproximar de alguma sociedade celeste, pois logo começam a estar na angústia e na tortura; também que os maus espíritos não suportam que os anjos os inspecionem, pois logo se atormentam e caem em desfalecimento. Pode-se ver também por isto, que o inferno esteja afastado do céu por esta causa, porque ele não suporta o céu, isto é, a presença do Senhor que está no céu; vem daí que a respeito deles se diga, na Palavra:
“Então começarão a dizer às montanhas: Cai sobre nós. E às colinas: Esconde-nos” (Lc. 23:30);
e em outro lugar:
“Dirão às montanhas e aos rochedos: Cai sobre nós, e esconde-nos da face do Que Se assenta sobre o trono” (Ap. 6:16);
e até a esfera nebulosa e obscura que exala dos males e dos falsos daqueles que estão no inferno se apresenta equivalente a uma montanha ou um rochedo, sob os quais eles estão escondidos (ver n. 1265, 1267, 1270).
[3] Por essas explicações, pode-se saber que ‘vi Deus face a face, e minha alma foi livrada’ significa as gravíssimas tentações como se procedessem do Divino. As tentações e as torturas parecem que procedem do Divino porque elas existem pela presença Divina do Senhor, como foi dito, mas elas não procedem do Divino ou do Senhor, mas dos males e dos falsos que estão naquele que é tentado ou atormentado. Com efeito, do Senhor não procede senão o que é o santo, o bem e o vero e o misericordioso; é esse santo, a saber, o bem, o vero e o misericordioso, que aqueles que estão nos males e nos falsos não podem suportar, porque são opostos ou contrários. Os maus, os falsos e os não misericordiosos tencionam continuamente violar essas coisas santas, e tanto quanto eles atacam, outro tanto eles são atormentados; e quando atacam e por isso são atormentados, então eles acreditam que é o Divino que atormenta. É isso que se entende por “como se procedessem do Divino”.
[4] Que ninguém possa ver JEHOVAH face a face e viver, era o que os antigos conheciam, e daí foi derivada a cognição deste fato para os descendentes de Jacó, razão por que tanto se regozijaram quando viram um anjo e ainda assim continuaram a viver, como no livro de Juízes:
“Viu Gideão que [era] o Anjo de JEHOVAH, por isso disse Gideão: Senhor JEHOVIH, pois que vi o Anjo de JEHOVAH face a face. E disse-lhe JEHOVAH: Paz a ti, não temas, porque não morrerás” (6:22, 23).
No mesmo livro:
“Disse Manoah a sua esposa: Morrendo morreremos, porque vimos a Deus” (Jz. 13:22);
e em Moisés:
“JEHOVAH disse a Moisés: Não poderás ver as Minhas faces, porque não Me verá, o homem, e viverá” (Êx. 33:20).
[5] Que se diga de Moisés
“que ele falou com JEHOVAHface a face” (Êx. 33:11);
e que
“JEHOVAH o conheceu face a face” (Dt. 34:10);
é que Ele lhe apareceu em uma forma humana adequada à recepção dele, que era a externa, a saber, como um velho barbado assentado perto dele (como fui instruído pelos anjos). Daí também os judeus não tiveram outra ideia a respeito de JEHOVAH senão como de um homem antiquíssimo, tendo uma barba longa e branca como a neve, que, mais do que todos os outros deuses, podia fazer milagres; não que ele fosse um santíssimo, porquanto ignoravam o que era o santo; poderiam ver menos ainda, do modo que fosse, que oestado santo procedia d’Ele, pois eles estavam em um amor corporal e terrestre, sem o [estado] santo interno (n. 4289, 4293).