ac 4311

Emanuel Swedenborg
Obra: Arcanos Celestes – Gênesis Explicado

Texto

. Que, no sentido interno histórico, por ‘Porque vi DEUS face a face, e minha alma foi livrada’ seja significado que Ele estava presente de um modo representativo, é o que se vê pela significação de ‘ver Deus face a face’, quando estas palavras se dizem do estado em que estiveram os descendentes de Jacó, que é que o Senhor estava presente de um modo representativo, pois ver Deus face a face, na forma externa e pela vista corporal, não é vê-l’O presente (n. 4299). Que Ele não tenha estado presente, como Ele está entre aqueles que estão regenerados e que, por isso, estão no amor espiritual e na fé, isso é evidente pelas coisas que foram ditas sobre essa nação (n. 4281, 4288, 4290, 4293), a saber, que eles estavam no culto externo e não ao mesmo tempo no culto interno, ou, o que é o mesmo, que eles estavam no amor corporal e mundano e não no amor espiritual e celeste. Em tais homens o Senhor nunca pôde estar presente senão de um modo representativo.
[2] O que é estar presente de um modo representativo, deve ser dito em poucas palavras: O homem que está no amor corporal e mundano, e não ao mesmo tempo no amor espiritual celeste, não tem consigo outros espíritos senão os maus, mesmo quando ele está em um [estado] santo externo. Com efeito, com um tal indivíduo nunca os bons espíritos podem estar presentes, pois eles percebem logo em que amor o homem está. Há uma esfera que é exalada dos interiores dele, da qual os espíritos percebem tão manifestamente quanto o homem percebe pelo olfato os cheiros infectos e fétidos que esvoaçam ao redor dele no ar. Essa nação, da qual se trata aqui, achou-se em tal estado quanto ao bem e ao vero, ou quanto ao amor e à fé; entretanto, para que eles ainda assim fizessem o representativo da igreja, era milagrosamente provido pelo Senhor que, quando eles estavam no [estado] santo externo e também então cercados de maus espíritos, o [estado] santo em que eles estavam fosse, apesar disso, sempre elevado ao céu, e isso por bons espíritos e anjos não dentro deles, mas por fora deles, afinal, dentro deles não havia senão o vazio ou o sujo; eis por que a comunicação existia não com o homem mesmo, mas sim com o [estado] santo mesmo em que eles estavam quando executavam os estatutos e os preceitos que eram todos coisas representativas das coisas espirituais e celestes do Reino do Senhor; é isso que é significado quando se diz que, nessa nação, o Senhor estava presente de um modo representativo. Mas o Senhor está presente de um outro modo entre aqueles que, dentro da igreja, estão no amor espiritual e, por conseguinte, na fé; junto destes há bons espíritos e anjos não só no culto externo, mas também, ao mesmo tempo, no interno; razão por que entre estes há comunicação do céu com os mesmos, porquanto, por meio do céu, o Senhor influi, através dos internos deles, nos externos. Para estes, o [estado] santo do culto é proveitoso na outra vida, mas não para aqueles.
[3] O mesmo acontece com os sacerdotes e os presbíteros, que pregam as coisas santas e, todavia, vivem mal e creem mal; também com eles não há bons espíritos, porém maus, mesmo quando eles estão em um culto que parece santo na forma externa, pois é o amor de si e do mundo, ou o amor de buscar honras e de adquirir ganhos, e a reputação pela qual se consegue isso, que os abrasa e apresenta a afeição do [estado] santo, algumas vezes até um tal grau, que não se apercebe nisso fingimento algum, e que eles próprios não creem então que haja tal, quando, na realidade, eles estão no meio dos maus espíritos, que se acham então em um semelhante estado, e aspiram e inspiram tais coisas. Que os maus espíritos possam estar em um tal estado e que neles estejam quando estão nos externos, e que estejam inflados pelo amor de si e do mundo, é o que me foi concedido conhecer por numerosas experiências, de que se tratará, pela Divina Misericórdia do Senhor, nos relatos que se seguem ao fim dos capítulos. Tais pregadores também não têm com eles comunicação com o céu, mas os que ouvem e compreendem as palavras pronunciadas por eles têm comunicação com o céu se estiverem em um interno piedoso e santo; porque pouco importa de quem flui a voz do bem e do vero, contanto que aqueles que a pronunciam não vivam uma vida manifestamente criminosa, pois essa vida escandaliza.
[4] Que a nação oriunda de Jacó tenha sido tal, a saber, cercada de maus espíritos, e que, apesar disso, o Senhor tenha estado presente entre eles de um modo representativo, é o que se pode ver por muitas passagens na Palavra. Com efeito, eles não adoravam de modo algum a JEHOVAH de coração, pois muitíssimas vezes, desde que os milagres faltavam, eles logo se voltavam para outros deuses e tornavam-se idólatras, o que era um indício manifesto de que eles adoravam de coração a outros deuses e que só de boca é que eles confessavam JEHOVAH; e de fato somente com o fim de serem os maiores e de terem preeminência sobre todas as nações circunvizinhas. Que esse povo tinha adorado de coração o ídolo do Egito e somentede boca tenha confessadoJEHOVAH por causa dos milagres, e que entre eles o próprio Aharão procedeu do mesmo modo, é fato muito evidente pelo bezerro de ouro que Aharão lhes fez, e isso um mês depois que eles tinham visto tão grandes milagres no monte Sinai, além dos que eles tinham visto no Egito (de que se fala em Êxodo, 32). Que Aharão também tenha sido tal, é o que se diz manifestamente no mesmo capítulo (vers. de 2 a 5, e principalmente vers. 35). Além de muitas outras passagens em Moisés, no livro dos Juízes, nos livros de Samuel, e nos livros dos Reis.
[5] Que eles tenham estado somente em um culto externo, e em nenhum culto interno, é fato ainda evidente nisto, que se lhes proibiu que se aproximassem do monte Sinai quando a Lei era promulgada, e que se lhes disse que se tocassem a montanha, morrendo morreriam (Êxodo, 19:11, 12, 13; 20:16, 19); a causa é porque o interno deles era imundo. Diz-se também em Levítico
“que JEHOVAH habitava com eles no meio das imundícies deles” (Lv. 16:16).
Qual foi essa nação, também se vê pelo Cântico de Moisés (Dt. 32:15 a 43), e por muitas passagens nos Profetas. Por esse modo é possível saber que nessa nação nunca houve igreja alguma, mas apenas um representativo de igreja; e que nela o Senhor só estivera presente de um modo representativo.
[6] Ver também o que já foi referido a respeito, a saber, que entre os descendentes de Jacó houve o representativo da igreja, mas não a igreja, n. 4281, 4288; que o representativo da igreja não foi instituído entre eles senão depois que eles foram inteiramente vastados quanto ao [estado] santo interno, e que se tivesse sucedido de outro modo, eles teriam profanado as coisas santas, n. 3398, 4289; que eles, quando persistiram nos estatutos, podiam representar, mas não quando se desviavam deles, n. 3881 no fim; que é por isso que eles eram estritamente mantidos nos ritos, e que eram a eles impelidos por meios externos, n. 3147, 4281; que, para fazerem o representativo da igreja, que o seu culto se tornou externo sem o interno, n. 4281; que é também por isso que os interiores da igreja não lhes foram descobertos, n. 301, 302, 303, 2520, 3398, 3479, 3769; que eles foram tais que podiam, melhor do que os outros, estar no [estado] santo externo sem o interno, n. 4293; e que é por isso que lhes foram conservados até este dia, n. 3479; que o [estado] santo externo em nada os afeta quanto às almas, n. 3479.

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