Texto
. Espíritos vieram a uma certa altura; pelo som foram ouvidos como se fossem muitos e fui informado que pelas ideias de seu pensamento e de sua linguagem eles estavam desviados de mim, como se não estivessem em nenhuma ideia distinta, mas na ideia geral de muitos. Por isso tive a opinião de que eles não podiam perceber nada de distinto, mas unicamente algum geral não distinto, assim, obscuro, porquanto estava na opinião que o geral não fosse outra coisa. Que o pensamento deles fosse comum, isto é, pertencesse ao mesmo tempo a muitos, é o que pude aperceber manifestamente pelas coisas que de lá influíam em meu pensamento.
[2] Havia, porém, entre eles um espírito intermediário por meio do qual eles falavam comigo, pois tal geral não podia cair na linguagem a não ser por meio de outros; e quando eu falava com eles por esse intermediário, eu dizia, em conformidade com a opinião, que [acreditava] que os gerais não podem apresentar uma ideia distinta sobre uma coisa real, mas uma ideia de tal modo obscura, que ela é por assim dizer nula. Ora, depois de um quarto de hora, eles me mostraram que tinham uma ideia distinta dos gerais e de muitas coisas nos gerais, mormente por isso, que eles observavam acurada e distintamente todas as variações e todas as mudanças de meus pensamentos e de minhas afeições com os singulares ali; de sorte que outros espíritos não teriam podido fazer melhor. Pude daí concluir que uma coisa é a ideia geral, que é obscura, na qual estão aqueles que têm pouca cognição e estão, portanto, no obscuro sobre todas as coisas; e outra coisa a ideia geral que é clara, na qual estão os que foram instruídos nos veros e nos bens, que em uma ordem e em sua série foram insinuados no geral e de tal modo ordenados, para que a partir do geral eles possam vê-los distintamente.
[3] Estes são aqueles que, na outra vida, constituem o sentido geral voluntário, e são os que adquiriram, por meio das cognições do bem e do vero, a faculdade intuitiva das coisas provenientes do geral, e que daí contemplam ao mesmo tempo as coisas de um modo amplo, e decidem logo se assim é. Eles veem, na realidade, as coisas por assim dizer na obscuridade, porque eles, pelo geral, veem as coisas que estão no geral; mas como elas foram distintamente ordenadas no geral, é por isso que essas coisas estão sempre na claridade para eles. Esse sentido geral voluntário não cai senão sobre os sábios. Que esses espíritos eram sábios, também foi descoberto, pois eles intuíam em mim todas e cada uma das coisas que pertenciam à conclusão, a partir das quais eles concluíam tão habilmente a respeito dos interiores de meus pensamentos e de minhas afeições, que eu começava a temer de pensar alguma coisa mais, pois descobriam coisas que eu não sabia que estavam em mim, e, entretanto, a partir das conclusões que eles efetuavam, não pude não reconhecer [que vinham de mim]. Em razão disso, percebi em mim um torpor por falar com eles, e quando notei esse torpor, apareceu-me como alguma coisa cabeluda, e ali pronunciando alguma coisa surdamente; foi dito que por esse modo era significado o sensitivo geral corporal que lhes corresponde. No dia seguinte, falei outra vez com eles e tive a certeza ainda por minha experiência que eles tinham uma percepção geral não obscura, mas clara, e que conforme variaram os gerais e os estados dos gerais, assim também variaram os particulares e os estados dos particulares, pois estes se referem em ordem e em série àqueles.
[4] Disseram-me que existem sentidos gerais voluntários ainda mais perfeitos na esfera interior do céu, e que os anjos quando estão em uma ideia geral ou universal, estão ao mesmo tempo nas ideias singulares que são distintamente postas em ordem pelo Senhor na ideia universal, então que o geral e o universal não são alguma coisa se não houver neles coisas particulares e singulares, pelas quais eles existem e, portanto, são ditos gerais e universais, e que eles existem tanto mais quanto mais houver estes particulares e singulares neles; e que, sendo assim, é evidente que a Providência universal do Senhor sem os singularíssimos, que estão nela e dos quais ela se compõe, não é absolutamente nada, e que é uma estupidez estabelecer que existe um universal no Divino, e daí suprimir os singulares.