Texto
. ‘Se, peço[-te], achei graça aos teus olhos, então aceitas o meu presente de minha mão’; que signifique o recíproco da afeição, a fim de que ele fosse insinuado, é o que se vê pelas coisas que precedem e pelas que seguem. Com efeito, trata-se da conjunção do bem com os veros no natural, por conseguinte, da insinuação, feitapelo bem, da afeição no vero. Que seja por isso que o presente enviado por Jacó foi recusado, a saber, para que a afeição fosse insinuada no vero, foi demonstrado acima (n. 4366); por isso, por estas palavras que precedem imediatamente — “não, peço[-te]” — é significada a origem da afeição (n. 4367); daí por estas palavras: “Se, peço, achei graça aos teus olhos, então aceitas o meu presente de minha mão”, é significado o recíproco da afeição, a fim de que ele fosse insinuado, pois Jacó diz isto pelo bem-querer, isto é, a partir da afeição; daí vem que se diga na sequência que ele “instou com ele”.
[2] Pelo recíproco da afeição, que é insinuado pelo bem (que é Esaú) no vero (que é Jacó), entende-se a afeição do vero. Com efeito, há duas afeições que são celestes, a saber: a afeição do bem e a afeição do vero, das quais anteriormente algumas vezes se tratou. A afeição do vero não tira a sua origem de outra parte senão do bem, a afeição mesma vem daí, pois o vero por si mesmo não tem vida, mas é do bem que ele recebe a vida; é por isso que, quando o homem é afetado do vero, não é pelo vero, mas é pelo bem que influi no vero e faz a afeição mesma, é isso que aqui se entende pelo recíproco de afeição a fim de que ele fosse insinuado. Sabe-se que há muitos, dentro da igreja, que são afetados pela Palavra do Senhor e despendem muito cuidado com a sua leitura, mas ainda assim são poucos os que tenham por fim isso, que sejam instruídos a respeito do vero, porquanto a maioria permanece no dogma deles, que aplicam somente para confirmar a partir da Palavra. Estes se mostram como se estivessem na afeição do vero, mas não estão. Na afeição do vero estão somente aqueles que amam se instruir a respeito dos veros, isto é, saber o que é o vero, e por causa desse fim escrutar as Escrituras. Ninguém está nessa afeição senão aquele que está no bem, isto é, na caridade para com o próximo, e mais ainda aquele que está no amor ao Senhor; nestes o bem mesmo influi no vero e faz a afeição, pois o Senhor está presente nesse bem. Pode-se ilustrar isso por estes exemplos:
[3] Aqueles que estão no bem da caridade genuína e que leem estas palavras que o Senhor disse a Pedro:
“Eu te digo, que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e os portões do inferno não prevalecerão contra ela; e darei a ti as chaves do reino dos céus, e tudo que ligares sobre a terra, será ligado nos céus, e tudo que desatares sobre a terra será desatado nos céus” (Mt. 16:15, 16, 17, 18, 19).
Aqueles, a saber, os que estão na afeição do vero proveniente do bem da caridade genuína, amam ser instruídos a respeito do que foi entendido por essas palavras; e quando eles ouvem que ali pela pedra sobre a qual será edificada a igreja é significada a fé da caridade, e, consequentemente, por Pedro, e que assim é a essa fé que foram dadas as chaves para abrir e fechar o céu (veja-se o prefácio do capítulo 22 deGênesis), então eles se regozijam e são afetados desse vero, porque assim esse poder pertence somente ao Senhor, de Quem procede a fé. Mas os que estão não na afeição do vero proveniente do bem da caridade genuína, mas na afeição do vero proveniente de um outro bem, e mais ainda, se for oriunda do amor de si e do mundo, estes não são afetados desse vero, mas se entristecem, assim como se iram, pois eles querem reivindicar esse poder para o sacerdócio. Eles se iram porque assim eles são privados da dominação, e se entristecem porque são privados da condescendência [que eles exigem].
[4] Seja também este exemplo: Aqueles que estão na afeição do vero proveniente do bem da caridade genuína, se ouvem que a caridade faz a igreja, mas não a fé separada da caridade, eles recebem esse vero com regozijo, mas os que estão na afeição do vero procedente do amor de si e do mundo não recebem. Igualmente, quando os que estão na afeição do vero proveniente do bem da caridade genuína ouvem que o amor para com o próximo começa não de si, mas do Senhor, eles se regozijam; e os que estão na afeição do vero proveniente do amor de si e do mundo não recebem esse vero, mas defendem com persistência que esse amor começa de si; por isso eles não sabem também o que é amar ao próximo como a si mesmo. Quando os que estão na afeição do vero oriundo do bem da caridade genuína aprendem que a bem-aventurança celeste consiste em fazer o bem aos outros a partir do bem-querer, sem nenhum fim para si próprio, eles se regozijam; mas os que estão na afeição do vero procedente do amor de si e do mundo não querem isso, e nem mesmo o compreendem.
[5] Quando os que estão na afeição do vero proveniente do bem da caridade genuína são instruídos que as obras do homem externo nada são, exceto se procederem do homem interno, assim, do bem-querer, eles recebem esse vero com regozijo; mas os que estão na afeição proveniente do amor de si e do mundo louvam as obras do homem externo, mas não se importam com o bem-querer do homem interno; eles nem se quer sabem que o bem-querer do homem interno permanece após a morte, e que as obras do homem externo, separadas dele, são mortas e perecem, o mesmo sucede com todas as coisas restantes. Pelo que acaba de ser dito, é evidente que os veros da fé nunca podem ser conjungidos a alguém, a não ser no bem da caridade genuína, que assim eles não podem ser conjungidos senão ao bem, então que toda afeição genuína do vero proceda desse bem. Qualquer um pode ver isso confirmado pela experiência que se apresenta todos os dias, a saber, que os que estão no mal não creem, mas que os que estão no bem creem; daí, é bastante evidente que o vero da fé é conjungido ao bem, e nunca ao mal.