. ‘Contudo, nisto consentiremos a vós, se sois como nós’; que signifique a aproximação para a religiosidade deles, é o que se vê pela significação de ‘consentir’, que é a aproximação; e pela significação de ‘ser como eles’, que é que estivessem somente nos externos, mas não nos internos, pois então seriam como eles (ver logo acima o n. 4459). Mostrou-se ali, a saber, no n. 4459, o que é estar somente nos externos, e o que é estar nos internos; aqui, é necessário dizer a razão por que o homem deve estar nos internos: Qualquer um que reflete pode saber que o homem tem, por meio dos internos, comunicação com o céu, porquanto todo o céu está nos internos; a não ser que o homem esteja, quanto aos pensamentos e às afeições, isto é, quanto às coisas que pertencem ao entendimento e às que pertencem à vontade, no céu, ele não pode vir a ele depois da morte, pois não há nenhuma comunicação. O homem, na vida do corpo, ocupa-se dessa comunicação por meio dos veros que pertencem ao entendimento e dos bens que pertencem à vontade, e a não ser que então ele se ocupe dessa comunicação, ela não se faz depois, pois, depois da morte a sua mente não pode ser aberta para os interiores se não foi aberta na vida do corpo. [2] O homem não sabe que, segundo a vida de suas afeições, ele é circundado por uma esfera espiritual, esfera que é mais perceptível para os anjos do que, no mundo, uma esfera de odor para o sentido mais apurado. Se a sua vida estivera somente nos externos, a saber, nas volúpias provenientes dos ódios contra o próximo, das vinganças e da crueldade que daí resultam, dos adultérios, da preeminência de si próprio e, daí, do desprezo aos outros, das rapinas clandestinas, da avareza, dos dolos [ou velhacarias], da luxúria, e de coisas semelhantes, a esfera espiritual que o cerca é tão infecta, como o é no mundo a do cheiro proveniente dos cadáveres, dos excrementos, dos lixos em putrefação e outros materiais semelhantes. O homem que levou uma tal vida leva consigo essa esfera depois da morte, e porque ele se acha todo inteiro nessa esfera, ele não pode estar em outro lugar senão no inferno, onde existem tais esferas. (Sobre as esferas na outra vida e sobre a sua origem, ver os n. 1048, 1053, 1316, 1504 a 1519, 1695, 2401, 2489.) [3] Aqueles, porém, que estão nos internos, isto é, que tiveram prazer na benevolência e na caridade para com o próximo, e mormente os que tiveram prazer no amor ao Senhor, esses são cercados por uma esfera agradável e amena, que é a esfera celeste mesma, por isso é que eles estão no céu. As esferas que são percebidas na outra vida têm todas, por origem, os amores e, por isso, as afeições em que se esteve, consequentemente, a vida que se levou, pois os amores e, portanto, as afeições fazem a vida mesma; e como só tiveram por origem os amores e as afeições que daí provêm, elas têm por origem as intenções e os fins por causa dos quais o homem quer assim e age assim, pois cada um tem por fim aquilo que ama; é por isso que os fins determinam a vida do homem e constituem a sua qualidade, vem principalmente daí a sua esfera; esta é de um modo apuradíssimo percebida no céu pela razão que todo o céu está na esfera dos fins. Por essas explicações se vê qual é o homem que está nos internos, e qual o que está nos externos, e por que razão o homem deve estar, não somente nos externos, mas também nos internos. [4] Mas estas coisas o homem que está somente nos externos, seja qual for a agudeza de gênio de que sobressaia a respeito das coisas na vida civil, e seja qual for a reputação de erudito que tenha adquirido por causa dos conhecimentos, ele não se preocupa [com essas verdades], porque ele é tal, que crê que nada existe a não ser o que ele vê com os olhos e sente pelo tato, que, por conseguinte, não há céu nem inferno; e caso se lhe dissesse que logo depois da morte ele deverá entrar em uma outra vida, e que lá ele verá, ouvirá, falará e fruirá do sentido do tato com mais perfeição do que no corpo, ele rejeitaria isso como um paradoxo ou uma fantasia, ainda que na realidade as coisas sejam realmente assim. Sucederia o mesmo se alguém lhe dissesse que a alma ou o espírito, que vive depois da morte, é o homem mesmo, mas que o corpo com que ele está envolto no mundo não é o homem. [5] Daí se segue que aqueles que estão somente nos externos não prestam atenção alguma ao que se diz a respeito aos internos, quando, todavia, tais coisas lhes tornam bem-aventurados e felizes no Reino em que devem vir, e no qual eles devem viver pela eternidade. A maior parte dos cristãos se acha em tal incredulidade. Que eles estejam em semelhante incredulidade, é o que se me deu conhecer pelos que tinham vindo do mundo cristão para outra vida e com os quais conversei, porque na outra vida eles não podem ocultar o que eles pensaram, pois lá os pensamentos se mostram a descoberto; eles também não podem ocultar o que tiveram como fim, isto é, o que amaram, porque isso se manifesta pela esfera.