. Conversei com alguns homens poucos dias depois de seus falecimentos, e como então estivessem recentemente no mundo dos espíritos, lá se acharam em uma luz que, para eles, diferia pouco da luz do mundo; e porque a luz lhes parecesse tal, eles duvidavam de que a luz lhes viesse de outra parte; por isso eles foram arrebatados para o primeiro céu, onde a luz era ainda mais clara; e de lá, falando comigo, diziam que nunca tinham visto uma tal luz. E isso aconteceu quando o sol já se tinha deitado. Eles ficaram então admirados de os espíritos terem olhos pelos quais eles viam, quando, entretanto, eles tinham crido, na vida do corpo, que a vida dos espíritos era unicamente o pensamento, e realmente de um modo abstrato sem o sujeito, pela razão que eles não tinham podido pensar a respeito de algum sujeito do pensamento, por não o terem visto, e porque isso era assim, eles não tinham então percebido outra coisa senão que o pensamento, por estar só, se dissiparia com o corpo em que ele estava, absolutamente como uma aura ou um fogo, se este não fosse contido e não subsistisse de um modo miraculoso pelo Senhor. E então viram quanto os eruditos caem facilmente em erro a respeito da vida após a morte, e que esses, mais do que os outros, não creem senão no que veem. Estavam, pois, em grande admiração, de que tinham não só o pensamento, mas também a visão e também todos os outros sentidos, e sobretudo pelo fato de eles aparecerem a si próprios absolutamente como homens, de se verem mutuamente, de se ouvirem, de conversarem juntos, de sentirem os seus membros pelo tato, e isso de um modo mais apurado do que na vida do corpo. Por isso eles ficaram admiradíssimos de que o homem, quando vive no mundo, ignore isso absolutamente; e experimentaram um sentimento de comiseração em relação ao gênero humano, que este nada saiba a respeito, porque os homens não creem em coisa alguma, principalmente aqueles que estão mais do que os outros na luz, a saber, os que estão dentro da igreja e têm a Palavra. [2] Alguns dentre eles não tinham outra crença senão que os homens depois da morte eram como larvas, opinião em que eles se tinham confirmado em razão dos espectros de que tinham ouvido falar; mas daí não tinham tirado outra conclusão, senão que era uma sorte de vital grosseiro que, à princípio, se exala da vida do corpo, mas que recai outra vez sobre o cadáver e assim se extingue. Outros tinham crido que eles só ressuscitariam no tempo do juízo final, quando o mundo tivesse de perecer, e então quando o corpo, que se tornara pó, seria recomposto nessa ocasião, e que assim ressuscitariam em osso e em carne; e porque esse juízo final, ou essa destruição do mundo, tinha sido em vão esperado durante muitos séculos, eles tinham caído neste erro, que eles nunca deviam ressuscitar, não pensando então em coisa alguma do que tinham aprendido pela Palavra, nem nas conversações que eles às vezes tinham tido, que, quando o homem morre, a sua alma está na mão de Deus, entre os felizes e os infelizes segundo a vida que fez para si, nem nas expressões de que o Senhor se serviu ao falar do rico e Lázaro. Todos eles foram, porém, instruídos que o juízo final existe para cada um quando ele morre, e que então ele se vê dotado de um corpo como no mundo, e fruindo, como no mundo, de todos os seus sentidos, porém, mais puros e mais refinados, porque as coisas corporais não causam mais obstáculo, e que as coisas pertencentes à luz do mundo não obscurecem às que pertencem à luz do céu; que, assim, eles estão em um corpo que está como purificado, e que nunca eles poderiam ficar cercados por um corpo de osso e de carne como no mundo, porque seria ficar outra vez envolto em pó terrestre. [3] Conversei com alguns a respeito dessas coisas no mesmo dia em que seus corpos eram postos no túmulo. Por intermédio de meus olhos eles viam o seu cadáver, o leito mortuário e o sepultamento; e diziam que rejeitam esse cadáver, e que isso lhes servira para os usos no mundo em que eles estiveram, e que vivem agora em um corpo que lhes serve para os usos do mundo em que agora estão. Eles até queriam que eu anunciasse isso aos seus parentes que estavam de luto; mas concedeu-se responder a eles que se eu lhes anunciasse tal fato, eles zombariam, porque eles creem que o que não podem ver pessoalmente por seus olhos nada é, e que assim eles poriam isso no número das visões que são ilusões. Com efeito, eles não podem ser levados a crer que os espíritos se veem mutuamente com seus olhos do mesmo modo que os homens se veem mutuamente com os seus, que o homem não pode ver os espíritos a não ser com os olhos do seu espírito, e que ele então os vê quando o Senhor lhe abre a vista interna, como Ele o fez para os profetas, que viram espíritos e anjos, e também muitas coisas do céu. Será que os que vivem hoje teriam crido em tais coisas, caso tivessem vivido neste tempo? Pode-se duvidar.