Texto
. ‘E purificai-vos, e mudai os vossos vestidos’; que signifique a santidade que devia ser revestida, é o que se vê pela significação se ‘ser purificado’ ou ‘limpo’, que é ser santificado (a respeito do que se tratará); e pela significação de ‘mudar de vestidos’, que é revestir; aqui, revestir os santos veros, pois, no sentido interno da Palavra, pelas vestimentas são significados os veros. Que mudar de vestimentas tenha sido um representativo recebido na igreja, vê-se de forma muito evidente; mas o que isso representava, ninguém pode saber, exceto se se souber o que significam as vestimentas [ou vestidos] no sentido interno; que sejam os veros, foi visto (n. 2576); aqui, porque no sentido interno se trata da rejeição dos falsos e da disposição dos veros no Natural pelo Bem, por isso lembrou-se que Jacó mandou que mudassem de vestimentas.
[2] Que mudar de vestimentas tenha sido o representativo de que se revestiam dos santos veros, pode-se também ver por outras passagens da Palavra, como em Isaías:
“Desperta, desperta, Jerusalém! Vista[-te] da tua força, ó Sião! veste os vestidos do teu ornato, ó Jerusalém, cidade santa! porque não mais acontecerá que venha a ti o incircunciso e o imundo” (52:1).
Como ‘Sião’ é a igreja celeste, e ‘Jerusalém’, a igreja espiritual, e a igreja celeste é a que está no bem proveniente do amor ao Senhor; e a igreja espiritual, a que está no vero oriundo da fé e caridade, por isso, de Sião é predicada a força, e de Jerusalém, os vestidos; e que assim ficariam limpos.
[3] Em Zacarias:
“Josué estava vestido com vestes sujas, e assim estava diante do Anjo. E respondeu e disse aos que estavam diante dele, dizendo: Retirai as vestes sujas de sobre ele. E a ele disse: Vê, fiz passar de sobre ti a tua iniquidade, vestindo-te com vestes de mudança” (3:3, 4);
Vê-se ainda por esta passagem que ‘retirar as vestes e ser vestido com vestes de mudança’ tenha representado a purificação dos falsos, pois se diz “fiz passar de sobre ti a tua iniquidade”. É também daí que eles tinham ‘vestes de mudança’ e se diziam ‘de muda’, dos quais se faz menção aqui e ali na Palavra, porque por eles se manifestaram as representações.
[4] Visto que pelas mudanças de vestimentas tais coisas eram representadas, por isso, no sentido interno, onde se trata (em Ezequiel) do novo templo, pelo qual é significada a nova igreja, se diz:
“Quando entram os sacerdotes não saíram do Santo para o átrio exterior, mas ali depositaram as suas vestimentas nas quais ministraram, porque santidade elas [são], e vestiram outras vestes, e se aproximaram para o que é [o lugar] para o povo” (Ez. 42:14).
E no mesmo:
“Quando saírem para o átrio exterior para o povo, despirão as suas vestimentas nas quais fazem o ministério, e repô-las-ão nas câmaras de santidade, e vestirão outras vestes, e santificarão o povo com outras vestimentas” (Ez. 44:19).
[5] Que pelo templo novo e pela cidade e a Terra Santa, de que se falou ali nos capítulos que precedem e seguem nesse Profeta, não se entende algum novo templo, nem uma nova cidade ou uma nova terra, qualquer um pode ver, pois ali são lembrados sacrifícios e ritos que de novo devem ser instaurados, e que, entretanto, deverão ser ab-rogados, e também se lembra nomeadamente das tribos de Israel, que devem dividir a terra entre si em herança, e que, contudo, foram dispersas e nunca voltaram. É, pois, evidente que os ritos relembrados ali significam coisas espirituais e celestes que pertencem à igreja; semelhantes coisas são significadas pela mudança de vestimentas, em Moisés, quando Aharão ministrava:
“Quando tiver que fazer o holocausto, vestirá o seu manto e calções de linho, ... porá a cinza perto do altar. Depois despirá as suas vestes, e vestirá outras vestes, e levará a cinza para um lugar limpo fora do acampamento, e assim fará o holocausto” (Lv. 6:2, 3, 4, 5 [Em JFA, 6:9, 10, 11, 12]).
[6] Que ‘ser limpo’ seja ser santificado, pode-se ver pelas limpezas que foram ordenadas, a saber, que lavassem a sua carne e as suas vestimentas, e que devia ser aspergido pelas águas de separação. Que por tais coisas ninguém é santificado, qualquer um que conhece alguma coisa sobre o homem espiritual pode saber; com efeito, o que a iniquidade e o pecado têm de comum com as vestimentas com que o homem se cobre? e, contudo, se diz algumas vezes que, depois que se limpassem, seriam santificados. Daí também se vê que os ritos prescritos aos israelitas não eram santos por outra razão senão porque eles representavam coisas santas, consequentemente, que aqueles que representavam não se tornavam, por esse fato, santos quanto às suas pessoas, mas que a santidade representada, feita a abstração da sua pessoa, afetava os espíritos que estavam com eles, e daí os anjos no céu (n. 4307).
[7] Na realidade, é necessário que haja uma comunicação do céu com o homem para que o gênero humano possa subsistir, e isso por meio da igreja, de outro modo os homens se tornariam como as bestas, sem vínculos internos e externos, e assim cada um se precipitaria sem freio contra seu semelhante para destruí-lo e se extinguiriam mutuamente; e porque então naquele tempo não podia existir comunicação por meio de alguma igreja, por isso foi provido pelo Senhor a que ela se efetuasse milagrosamente por meio das coisas representativas. Que a santificação tenha sido representada por meio do rito da lavação e da limpeza, vê-se por muitas passagens na Palavra, como quando JEHOVAH desceu sobre o monte Sinai; [então] disse a Moisés:
“Santifica-os hoje e amanhã, e lavem as suas vestimentas; e estejam preparados para o dia terceiro” (Êx. 19:10, 11).
Em Ezequiel:
“Espargirei sobre vós águas limpas, e sereis limpos de todas as vossas imundícias, e de todos os vossos ídolos limpar-vos-ei; e dar-vos-ei um coração novo e um espírito novo darei no meio de vós” (36:25, 26).
É bastante evidente que ‘espargir águas limpas’ representou a purificação do coração, assim, que ser limpo é ser santificado.