. Continuação a respeito da correspondência com o Máximo Homem; aqui, da correspondência do odor e das narinas com ele. *4622. As habitações dos bem-aventurados na outra vida são variadas, construídas com tal arte, que estão por assim dizer na arte arquitetônica mesma, ou procedem imediatamente da própria arte. A respeito das habitações dos bem-aventurados, vejam-se as coisas que foram ditas por experiência (n. 1119, 1626, 1627, 1628, 1629, 1630). Essas habitações não só lhes aparecem diante da vista, mas também diante do tato, porquanto todas as coisas que ali estão são adequadas às sensações dos espíritos e dos anjos, por isso elas são tais que não caem sob o sentido corporal qual o que o homem tem, mas sob aquele que têm aqueles que ali estão. Sei que isso é bem inacreditável para muitos, mas a causa é porque não se crê em nada que não se pode ver pelos olhos corporais, nem ser tocado por mãos de carne. Daí vem que hoje o homem cujos interiores foram fechados nada saiba a respeito do que existe no mundo espiritual ou no céu. De fato, ele diz, por causa da Palavra e da doutrina, que o céu existe, e que os anjos, que ali habitam, estão no regozijo e na glória; e além disso nada se sabe. De certo deseja saber o modo como as coisas se passam ali, mas quando se lhe diz, ainda assim nada acredita, a causa vem de que de coração ele nega que possa existir quando deseja saber; é somente porque então ele está na curiosidade proveniente da doutrina, não no prazer que vem da fé. Aqueles que não estão na fé, esses também negam de coração; mas os que creem, esses adquirem ideias a respeito do céu, do seu regozijo e da sua glória, vindas de diversos meios, cada uma proveniente de coisas tais que pertencem à sua ciência e a sua inteligência; mas nos simples, proveniente dos sensitivos pertencentes ao corpo. [2] No entanto, a maioria ainda não compreende que os espíritos e os anjos sobressaem por sensações muito mais apuradas do que os homens no mundo, a saber, pela visão, a audição, o olfato, por um análogo do paladar e pelo tato, e principalmente pelos prazeres das afeições. Se tão somente acreditassem que a essência interior deles fosse o espírito, e que o corpo e as sensações e os membros do corpo são simplesmente adequados aos usos no mundo, e que o espírito e as sensações e os órgãos do espírito são adequados aos usos na outra vida, então por si mesmos e quase espontaneamente eles chegariam nas ideias a respeito do estado de seu espírito depois da morte, pois então pensariam consigo que o seu espírito deve ser esse homem mesmo que pensa e que quer, deseja e é afetado, e depois, que todo esse sensitivo que se mostra no corpo, deve pertencer propriamente ao seu espírito, e ao corpo somente por meio de um influxo; e mais tarde confirmariam estas coisas consigo de muitos modos, e assim achariam afinal mais deleites nas coisas que pertencem ao seu espírito do que nas que pertencem ao seu corpo. [3] A coisa mesma acontece também assim, a saber, que não é o corpo que vê, ouve, cheira, sente; mas o seu espírito; é por isso que quando o espírito é despojado do corpo, então ele está em suas sensações, nas quais ele estivera quando estava no corpo, e até mesmo em sensações muito mais apuradas, visto que as coisas corporais, porque são relativamente grosseiras, faziam com que as sensações fossem obtusas, e ainda mais obtusas, porque ele as imergia nas coisas terrestres e mundanas. Isto posso asseverar: que o espírito tem uma visão muito mais apurada do que a que um homem tem no corpo; depois também a audição; e, o que causará espanto, o sentido do olfato, e principalmente o sentido do tato, já que os espíritos mutuamente se veem, mutuamente se ouvem, mutuamente se tocam. Isto também, aquele que crê na vida após a morte concluiria a partir disso: que não pode existir vida alguma sem o sentido, e que a qualidade da vida é segundo a qualidade do sentido, e até mesmo que o intelectual não é senão um apurado sentido das coisas interiores, e o intelectual superior um apurado sentido das coisas espirituais; por isso também as coisas que pertencem ao intelectual e às percepções do intelectual são chamadas sentidos internos. [4] Quanto ao sensitivo do homem logo após a morte, assim acontece: Desde que o homem morre, e que nele as coisas corporais ficam frias, ele é ressuscitado para a vida, e então para o estado de todas as sensações, ao ponto que à princípio dificilmente sabe outra coisa senão que ainda está em seu corpo, porquanto as sensações em que está o levam a crer assim. Mas quando ele apercebe que tem sensações mais apuradas, e isso principalmente quando começa a falar com outros espíritos, então nota426 que está na outra vida, e que a morte de seu corpo foi a continuação da vida de seu espírito. Falei com dois homens conhecidos meus, no dia mesmo em que eles eram sepultados, e com um que, por meio dos meus olhos, viu seu esquife e féretro; e como ele estivesse em toda a sensação que tivera no mundo, conversava comigo a respeito de suas exéquias, enquanto seguia o seu funeral. Ele também falava de seu corpo, dizendo: Atirem-no fora, pois eu estou vivo [quia ipse vivit]. [5] Deve-se, porém, saber que aqueles que estão na outra vida não podem ver coisa alguma do que está no mundo pelos olhos de algum homem, mas que se eles puderam ver por meio dos meus olhos, foi porque eu estou pelo espírito com eles e, ao mesmo tempo, pelo corpo com os que estão no mundo (ver também o n. 1880). Deve-se, além disso, saber que aqueles com os quais eu falei na outra vida, eu os via não pelos olhos de meu corpo, mas pelos olhos de meu espírito; e sempre tão claramente e algumas vezes mais claramente do que pelos olhos de meu corpo, pois, pela Divina Misericórdia do Senhor, as coisas que pertencem ao meu espírito foram abertas. [6] Também sei que não crerão os que muito pensaram e pesquisaram a respeito da alma e não compreenderam ao mesmo tempo que a alma é o espírito deles, e que seu espírito é o homem mesmo que vive no corpo. Estes, com efeito, não tiveram outra noção da alma, senão que é algum cogitativo, ou uma sorte de chama ou de éter, que age somente nas formas orgânicas do corpo, e não em formas mais puras que pertencem ao seu espírito no corpo, e que assim esse cogitativo deve ser dissipado com o corpo; e esta opinião pertence sobretudo aos que nela se confirmaram pelas intuições que lhes insuflava a persuasão de que eles eram mais sábios do que os outros.