Texto
. Aos interiores da orelha pertencem aqueles que têm uma vista do ouvido interior, e obedecem às coisas que o seu espírito ali dita, e proferem com conformidade as coisas que ele ditou. Mostrou-se também quais eles são: foi percebida uma sorte de som que penetrava da parte de baixo junto ao lado esquerdo até a orelha esquerda; notei que eram espíritos que faziam assim esforços para se elevarem, mas não pude saber quais eles eram. No entanto, quando eles se elevaram, falaram-me dizendo que eles tinham sido lógicos e metafísicos, e que tinham imergido os seus pensamentos em tais [campos do saber], sem outro fim que não que fossem tidos por eruditos e chegassem, assim, às honras e às riquezas. Eles se queixavam de que agora eles levavam uma vida miserável, pois tinham recebido esses conhecimentos sem outro uso, e assim não tinham por meio deles aperfeiçoado o seu racional; a sua linguagem era lenta e o som pesado.
[2] Durante esse tempo dois espíritos falavam entre si acima da cabeça; e quando perguntei quem eram, foi dito que um deles era muitíssimo famoso no mundo letrado, e foi-me dado crer que era Aristóteles; não me disseram quem era o segundo. Então o primeiro foi posto no estado em que ele estava quando vivia no mundo, pois cada um pode facilmente ser posto no estado da vida que teve no mundo, porque cada um leva consigo todo estado de sua vida. Contudo, o que me causou surpresa, é que ele se aplicava a orelha direita e nela falava com um tom de voz rouca, mas, apesar disso, de um modo sensato. Pelo sentido de sua linguagem apercebi que ele era de um gênio inteiramente diferente desses escolásticos que tinham emergido primeiramente, a saber, que ele tinha excluído de seu pensamento as coisas que ele tinha escrito, e que daí ele tinha produzido os seus [pontos] filosóficos, assim, de sorte que os termos que ele tinha inventado e que tinha imposto às coisas do pensamento eram fórmulas pelas quais ele tinha descrito os interiores; depois, que ele tinha sido estimulado a isso pelo prazer da afeição e o desejo de conhecer as coisas que dizem respeito ao pensamento, e que ele seguira com obediência o que seu espírito lhe tinha ditado, é por isso que ele se aplicara à orelha direita, muito diferente de seus seguidores, chamados escolásticos, que não partiram do pensamento aos termos [ou às terminologias], mas dos termos aos pensamentos, assim, por um caminho oposto; e muitos dentre eles nem sequer vão até os pensamentos, mas somente haurem nos termos, aos quais se aplicam, é para confirmar tudo que eles querem, e para dar aos falsos a aparência do vero segundo a cobiça de persuadir. Daí para eles os [pontos] filosóficos são meios de se tornar insensato em vez de sábio, e daí para eles há trevas em lugar de luz.
[3] Falei a ele em seguida a respeito da ciência analítica, e foi-me permitido dizer que um rapazinho em meia hora fala mais filosófica, analítica e logicamente do que ele poderia descrever em volumes; a causa disso vem de que todas as coisas que pertencem ao pensamento e, daí, à linguagem humana são analíticas, cujas leis provêm do mundo espiritual; e que aquele que quer de um modo artificial pensar a partir dos termos [ou das terminologias], que este se assemelha bastante a um bailarino que quisesse ensinar a dança partir do conhecimentos das fibras motoras e dos músculos, conhecimentos aos quais, se a sua mente [animus] se aplicasse quando ele dança, então dificilmente ele poderia mover o pé; e contudo, sem esse conhecimento o dançarino move todas as fibras motoras esparsas ao redor de todo o seu corpo, e com exatidão os pulmões, o diafragma, os lados, os braços, o pescoço, e todas as outras partes, e cuja descrição volumes não bastariam; e que o mesmo sucede com os que querem pensar a partir dos termos. Ele aprovou essas reflexões dizendo que se aprendessem por esse caminho procederiam em ordem inversa, acrescentado que se alguém quiser ser insensato que proceda assim, mas deve-se pensar continuamente a respeito do uso e a partir do interior.
[4] Depois ele me mostrou que ideia ele tinha tido da Divindade Suprema, a saber, que ele a tinha representado a si com uma face humana, com a cabeça circundada por um círculo radiante e que agora ele sabe que o Senhor é em pessoa esse Homem, e que o círculo radiante é o Divino procedente d’Ele, que influi não só no céu, como também no universo, e que os dispõe os rege, acrescentando: “Aquele que dispõe e rege o céu, dispõe e rege também o universo, porque um não pode ser separado do outro”. E também disse que creu em um só Deus, cujos atributos e cujas qualidades foram assinaladas por outros tantos nomes quantos deuses os outros adoraram.
[5] Vi então uma mulher que estendia a sua mão, querendo tocar levemente a minha face. Como isso me causasse surpresa, ele disse que, quando estava no mundo, semelhante mulher foi vista por ele muitas vezes, a qual por assim dizer lhe tocava de leve a face, e que ela tinha uma bela mão. Disseram-nos os espíritos angélicos que tais mulheres foram algumas vezes vistas por homens da antiguidade e por eles foram denominadas Palas; e que essa aparição lhe tinha sido feita por espíritos que, quando viviam nos tempos antigos, deleitaram-se nas ideias e se entregaram aos pensamentos, mas sem coisas filosóficas; e como tais espíritos estavam com ele e tinham deleite nisso, porque ele pensava pelo interior, eles se lhe manifestavam representativamente por meio de uma tal mulher.
[6] Por último, ele declarou qual ideia ele tinha tido da alma ou do espírito do homem, que ele chamava pneuma, a saber, que era um vital invisível, como alguma coisa etérea; e disse que tinha sabido que seu espírito devia viver depois da morte, porque era a sua essência interior, que não pode morrer porque pode pensar; e que, além disso, a respeito disso ele não tinha podido pensar distintamente, mas de um modo obscuro, e não com clareza, porque ele não tinha tido a respeito conhecimento algum senão por si próprio, e um pouco também pelos antigos. Além disso, Aristóteles está na outra vida entre os espíritos sensatos, e um grande número de seus seguidores estão entre os insensatos.