. Quem não conhece o sentido interno não pode pensar outra coisa senão que essas palavras tenham sido ditas pelo Senhor a respeito de um dia final, em que todos em todo o globo serão reunidos diante do Senhor, e então serão julgados, e também que o processo do juízo será absolutamente tal qual se descreve na letra, a saber, que os porá à direita e à esquerda, e lhes falará assim; mas quem conhece o sentido interno, e quem aprendeu,a partir de outras passagens na Palavra, que o Senhor nunca julga ninguém para o fogo eterno, mas que cada um a si mesmo julga, isto é, nele se lança, e também quem aprendeu que o juízo final de cada um se efetua quando ele morre, esse pode de algum modo saber o que em geral essas palavras envolvem; e quem conhece os interiores das palavras a partir do sentido interno e da correspondência, esse pode saber o que elas especificamente significam; a saber: que cada um recebe, na outra vida, o seu pagamento de acordo com a sua vida no mundo. [2] Aqueles que promovem a salvação do homem pela fé só, estes não podem explicá-la de outra forma senão considerando que as coisas que o Senhor disse a respeito das obras sejam os frutos da fé, e que Ele as tenha relembrado por causa dos simples, que não conhecem os mistérios. Mas ainda que se suponha que a coisa seja segundo a opinião deles, ainda assim daí se vê que são os frutos da fé que fazem o homem bem-aventurado e feliz depois da morte; os frutos da fé não são outra coisa mais do que a vida segundo os preceitos da fé, consequentemente, a vida segundo esses preceitos é a que salva, mas não a fé sem a vida. Com efeito, o homem, depois da morte, leva consigo todos os estados de sua vida, de modo que ele é tal qual fora no corpo; a saber, quem na vida do corpo desprezara os outros ao compará-los a si também despreza os outros na outra vida comparando-os a si; quem odiara o próximo na vida do corpo odeia também o próximo na outra vida; aquele que tinha procedido com dolo contra os seus companheiros na vida do corpo procede também com dolo contra seus companheiros na outra vida, e assim por diante. Cada um retém, na outra vida, a natureza que revestira na vida do corpo; e sabe-se que a natureza não pode ser expulsa, e que se é expulsa, nada mais resta da vida. [3] Daí vem, pois, que as obras da caridade foram as únicas relembradas pelo Senhor, pois quem está nas obras da caridade, ou, o que dáno mesmo, na vida da fé, este está na faculdade de receber a fé; se não for na vida do corpo, ainda assim na outra vida; mas quem não estiver nas obras da caridade, ou seja, na vida da fé, não está em faculdade alguma de receber a fé, nem na vida do corpo, nem na outra vida, porque o mal jamais concorda com o vero, mas um rejeita o outro; e se os que estão no mal pronunciam veros, eles os pronunciam de boca e não de coração, e assim o mal e o vero estão sempre a uma grande distância um do outro.