. ‘E fez para ele uma túnica de várias cores’; que signifique as aparências do vero, pelas quais o espiritual do natural é conhecido e distinguido, é o que se vê pela significação da ‘túnica’, que é o vero natural, de que se tratará no que segue; e pela significação de ‘de várias cores’, que são as aparências do vero pelas quais o espiritual do natural é conhecido e distinguido. Que sejam essas as coisas que são significadas por ‘de várias cores’, é o que ninguém pode saber, a não ser que saiba que na outra vida aparecem cores como no mundo, e de fato cores que excedem muito em beleza e em variedade as do mundo, e a não ser que se saiba de onde vêm essas coisas. As cores que existem na outra vida provêm da variegação da luz ali, e são, assim como se diz, as modificações da inteligência e da sabedoria, pois a luz que ali aparece provém do Divino Vero que procede do Senhor, ou, é o Divino Espiritual que procede d’Ele, ou, o que é o mesmo, é a Divina Inteligência e a Divina Sabedoria; estas aparecem como luz diante dos olhos dos anjos e dos espíritos. Daí se vê o que é significado pelas cores que provêm dessa luz, a saber, que são as qualidades do vero, assim, as aparências do vero, e que elas aparecem a partir das afeições do bem e do vero. (Sobre as cores na outra vida, ver n. 1042, 1043, 1053, 1634, 3993, 4530.) [2] Que a ‘túnica’ seja o Vero do Natural, anteriormente (n. 3301) foi dito; mas porque ali não se demonstrou isso, permite-se confirmar por outras passagens na Palavra. Como os reis, na Igreja Judaica, representavam o Senhor quanto ao Divino Espiritual ou ao Divino Vero (n. 2015, 2069, 3009, 3670), por isso as suas filhas eram vestidas com túnicas de várias cores, porque pelas ‘filhas’ eram significadas as afeições que pertencem ao bem e ao vero e, portanto, à igreja (n. 2362, 3963); a esse respeito se fala no Segundo Livro de Samuel: “Havia sobre Thamar, filha do Rei Davi,uma túnica de várias cores, porque assim eram vestidas as filhas virgens dos reis, com mantos” (13:18). [3] E porque os sumos sacerdotes representavam o Senhor quanto ao Divino Celeste(ou Divino Bem), é por isso que Aharão vestia vestimentas que representavam o Divino Vero que provém do Divino Bem do Senhor, porquanto o Divino Bem está no Senhor, mas o Divino Vero procede d’Ele; era esse Vero que era representado pelas vestimentas; foi semelhante quando o Senhor se transfigurou diante de Pedro, Tiago e João, o Divino Bem apareceu como sol, e o Divino Vero se manifestou pelas vestimentas que apareciam como a luz (Mt. 17:2). [4] A respeito das vestimentas com as quais Aharão e seus filhos se vestiam, fala-se assim em Moisés: “Para Aharão farás uma túnica de fino linho, uma mitra de linho fino, e um cinto farás, obra de bordador; e para os filhos de Aharão farás túnicas, e farás para eles cintos, e tiaras farás para eles, para glória e para ornamento” (Êx. 28:39, 40); cada uma destas vestimentas significava coisas que pertencem ao Divino Vero procedente do Divino Bem do Senhor; a ‘túnica de linho fino’, o Divino Espiritual especificamente; semelhantemente em outra passagem do mesmo: “Tomarás as vestimentas, e vestirás Aharão com a túnica, e o manto do éfode, e o éfode, e o peitoral, e cingi-lo-ás com o cinto do éfode; depois os filhos dele farás aproximar, e vesti-los-ás com túnicas” (Êx. 29:5, 8; 40:14); o que cada uma dessas coisas significa, dir-se-á, pela Divina Misericórdia do Senhor, onde se tratar delas; que em geral as vestimentas sejam os veros, foi visto (n. 297, 1073, 2576, 4545). [5] Os profetas também vestiam túnicas, mas túnicas de pelo, porque pelos profetas era representado o Senhor quanto aos veros da doutrina, e porque esses veros pertencem ao natural, ou ao homem externo, essas túnicas eram de pelo, já que o ‘pelo’ significa o natural (ver o n. 3301). [6] Que a ‘túnica’ signifique o Divino Vero procedente do Senhor, vê-se ainda mais claramente pelas passagens onde a túnica é mencionada no Novo Testamento, por exemplo, em João: “Os soldados tomaram as vestimentas dele, e fizeram quatro partes, a cada soldado uma parte, e a túnica; a túnica, porém, era sem costura, desde cima tecida por inteiro. Disseram, pois, a si um ao outro: Não dividamo-la,... para que a Escritura se cumprisse, a qual diz: Dividiram as Minhas vestimentas entre si, e sobre a Minha túnica lançaram sorte” (19:23, 24). Aquele que lê essas coisas pensa que elas não envolvem mais arcanos, senão que as vestimentas tinham sido divididas entre os soldados, e que tinha sido lançada sorte sobre a túnica, quando todavia cada uma dessas coisas foram representativas e significativas dos Divinos, a saber, tanto no fato que as vestimentas tinham sido repartidas em quatro partes, como no fato que a túnica não foi dividida, mas sobre ela foi lançada sorte, sobretudo que a túnica fora sem costura e desde cima tecida por inteiro; com efeito, pela túnica era significado o Divino Vero do Senhor, que porque é único e provém do Bem, era representado pela túnica que era sem costura e desde cima tecida por inteiro. [7] A mesma coisa era significada pela túnica de Aharão; que esta tinha sido tecida ou era uma obra de tecelão, vê-se em Moisés: “Fizeram túnicas de linho fino, obra de tecelão, para Aharão e os filhos dele” (Êx. 39:27); e também era representado que o Senhor não tolerou que o Divino Vero fosse repartido em partes, como aconteceu com os veros inferiores da igreja da parte dos judeus. [8] Como o Divino Vero é Único, a saber, que ele provém do Divino Bem, fora também ordenado aos doze discípulos, quando foram enviados a pregar o Evangelho do Reino, que não tivessem duas túnicas; a respeito do que, assim está em Lucas: “Jesus enviou os doze discípulos a pregar o Reino de Deus, e disse-lhes: Nada tomeis no caminho, nem bastões, nem alforje, nem pão, nem prata, nem cada um [deve] ter duas túnicas” (9:2, 3). Em Marcos: “Ordenou-lhes que nada tomassem no caminho, senão um bastão somente; nem alforje, nem pão, nem cobre no cinto, mas calçados com sapatos, não vistais duas túnicas” (6:8, 9); e em Mateus: “não possuais ouro, nem prata, nem cobre nos vossos cintos, nem alforje para o caminho, nem duas túnicas, nem sapatos, nem bastões” (10:9, 10). [9] Cada uma das coisas nessas passagens são representativas das coisas celestes e espirituais do Reino do Senhor, ao que os discípulos tinham sido enviados a pregar; que não tomassem ouro, nem prata, nem cobre, nem alforje, nem pão consigo, era porque essas coisas significam os bens e veros que procedem do Senhor só, a saber, o ‘ouro’, o bem (n. 113, 1551, 1552); a ‘prata’, o vero proveniente do bem (n. 1551, 2954); o ‘cobre’ [ou‘bronze’], o bem natural (n. 425, 1551); o ‘pão’, o bem do amor, ou o bem celeste (n. 276, 680, 2165, 2177, 3478, 3735, 4211, 4217); mas a ‘túnica’ e o ‘sapato’ significavam os veros com os quais tinham de ser revestidos; e o ‘bastão’ [ou ‘vara’], o poder do vero proveniente do bem. Que o ‘bastão’ [ou vara] seja esse poder, foi visto (n. 4013, 4015); e que o sapato seja o natural ínfimo, n. 1748, ali quanto ao vero. A ‘túnica’ é o vero interior natural; como essas coisas não devem ser duplas, mas sim únicas, era proibido terem dois bastões, dois pares de sapatos e duas túnicas. Esses arcanos estão nessa ordem do Senhor, eles não podem ser conhecidos senão a partir do sentido interno. [10] Todas e cada uma das coisas que o Senhor pronunciou eram coisas representativas dos Divinos, consequentemente, dos celestes e dos espirituais de Seu Reino e, assim, adequadas a compreensão dos homens e, ao mesmo tempo, ao entendimento dos espíritos e dos anjos; é por essa razão que as coisas que o Senhor pronunciou encheram e enchem todo o céu. Daí também se vê quanto é conveniente e importante conhecer o sentido interno da Palavra; sem esse sentido, qualquer um pode, a partir da Palavra, confirmar todo e qualquer dogma que lhe apraz, e porque a Palavra parece ser tal aos que estão no mal, por isso eles zombam dela, e em nada creem menos do que que ela seja Divina.