. ‘E digamos: Uma fera má o comeu’; que signifique a mentira vinda da vida das cobiças, é o que se vê pela significação da ‘fera’, que é a afeição e a cobiça (n. 45, 46), porquanto, no sentido genuíno, a ‘fera’ é o que é vivo (n. 774, 841, 908); daí, por ‘fera má’, aqui, é significada a vida das cobiças. Que seja a mentira, isso é evidente. Isto se refere ao que antecede, a saber, que esse Divino Vero tinha sido rejeitado entre os falsos; fora uma mentira oriunda da vida das cobiças. Há, com efeito, três origens do falso, a primeira pela doutrina da igreja, a segunda pela falácia dos sentidos, a terceira pela vida das cobiças. O falso proveniente da doutrina da igreja apodera-se somente da parte intelectual do homem, porque ele está persuadido desde a infância que tal coisa é assim, e as coisas que confirmam depois corroboram esse falso; mas o falso que vem da falácia dos sentidos não afeta do mesmo modo a parte intelectual, uma vez que, naqueles que estão no falso que vem da falácia dos sentidos há pouca intuição proveniente do entendimento, porque eles pensam a partir dos inferiores e dos sensuais; mas o falso oriundo da vida das cobiças brota da própria vontade, ou, o que o mesmo, do coração, pois o que o homem quer de coração, isto ele cobiça; esse falso é o pior, porque ele é inerente, e não é desarraigado senão pela nova vida procedente do Senhor. [2] Há, como se sabe, duas faculdades interiores do homem, a saber, o entendimento e a vontade; o que o entendimento haure e imbui, isto não passa, por isso, para a vontade, mas o que a vontade haure e embebe, isto passa para o entendimento, pois o que o homem quer isto pensa; por isso é que quando o homem quer o mal pela cobiça, então ele o pensa e o confirma. As coisas confirmativas do mal por meio do pensamento são as que se chamam ‘falsos que vêm da vida das cobiças’; esses falsos aparecem ao indivíduo como veros, e quando confirmou em si mesmo esses falsos, os veros então lhe aparecem como falsos, pois então ele fechou a entrada do influxo de luz que procede do Senhor pelo céu. Se, ao contrário, ele não confirmou em si mesmo esses falsos, então os veros de que o seu entendimento tinha sido anteriormente imbuído se opõem a esses falsos, e não permitem que eles sejam confirmados.