. ‘Não derrameis sangue’; que signifique para que não violem o que é santo, é o que se vê pela significação do ‘sangue’, que é o santo, de que se tratará; daí ‘derramar sangue’ é violá-lo. Todo Santo no céu procede do Divino Humano do Senhor, e, por isso, todo santo na igreja; por isso é que, a fim de que não o violassem, foi instituída pelo Senhor a Santa Ceia, e ali se diz, em termos expressos, que o pão é ali a Carne d’Ele, e que o vinho ali é o Seu Sangue; assim, que é o Divino Humano d’Ele do Qual procede então o Santo. Entre os antigos, carne e sangue significava o Humano proprium, porque o Humano consiste em carne e sangue; por isso o Senhor disse a Simão: “Bem-aventurado és, porque carne e o sangue não revelou a ti, mas o Meu Pai, Que está nos céus” (Mt. 16:17). Portanto, carne e sangue, significados pelo pão e vinho na Santa Ceia, é o Humano proprium do Senhor; o proprium mesmo do Senhor, que Ele adquiriu para Si por [Seu] próprio poder, é o Divino; o proprium d’Ele proveniente da concepção foi o que Ele teve oriundo de JEHOVAH, o Pai d’Ele, e foi JEHOVAH mesmo, por isso o proprium que Ele adquiriu para Si no Humano foi Divino; esse proprium Divino no Humano é o que se chama Carne e Sangue, a Carne é o Divino Bem do Senhor (n. 3813); o Sangue é o Divino Vero do Divino Bem. [2] O Humano do Senhor, depois que foi glorificado, ou feito Divino, não pode ser concebido como humano, mas pode como Divino Amor na forma humana; e isto de tal modo mais do que os anjos, que quando aparecem, assim como foram vistos por mim, aparecem como formas do amor e da caridade sob um aspecto humano, e isso procede do Senhor; com efeito, a partir do Divino Amor o Senhor fez Divino o Seu Humano, do mesmo modo que pelo celeste amor o homem se torna anjo depois da morte, para que apareça como forma do amor e da caridade sob um aspecto humano, como se disse. Daí é evidente que pelo Divino Humano do Senhor, no sentido celeste, é significado o Divino Amor mesmo, que é o amor para com o todo o gênero humano, que Ele quer salvar, tornar bem-aventurado e fazer feliz pela eternidade, e a ele quer apropriar o Seu Divino, tanto quanto possam compreender; esse amor e o [amor] recíproco do homem ao Senhor, e também o amor para com o próximo, são os que são significados e representados na Santa Ceia: o Amor Divino celeste pela Carne ou o Pão ali, e o Amor Divino espiritual pelo Sangue ou o Vinho. [3] A partir dessas explicações se pode agora ver o que se entende pela mastigação da Carne do Senhor, e pela ação de beber o Sangue d’Ele: “Eu sou o Pão vivente que desceu do céu; se alguém tiver comido deste Pão, viverá pela eternidade; pois o pão que Eu darei é Minha Carne;... Amém, amém vos digo: Se não comerdes a Carne do Filho do homem, e não beberdes o Seu Sangue, não tereis a vida em vós. Quem come a Minha Carne, e bebe o Meu Sangue, terá a vida eterna e Eu o ressuscitarei no último dia; pois a Minha Carne é verdadeiramente comida, e o Meu Sangue é verdadeiramente bebida. Quem come a Minha carne, e bebe o Meu Sangue, em Mim permanece, e Eu, nele. [...] Este é o Pão que desceu do céu” (6:50 ao 58); como pela ‘Carne’ e pelo ‘Sangue’ é significado o Divino Celeste e o Divino Espiritual, que provêm do Divino Humano do Senhor, como se disse, ou o que é a mesma coisa, o Divino Bem e o Divino Vero de Seu Amor, por ‘comer e beber’ é significado apropriar-se deles; a apropriação ocorre pela vida do amor e da caridade, que é também a vida da fé. Que ‘comer’ seja apropriar a si o bem, e ‘beber’ apropriar a si o vero, foi visto (n. 2187, 3069, 3168, 3513, 3596, 3734, 3832, 4017,4018). [4] Como o ‘sangue’, no sentido celeste, significa o Divino Espiritual ou o Divino Vero procedente do Divino Humano do Senhor, por isso ele significa o Santo, pois o Divino Vero procedente do Divino Humano do Senhor é o Santo mesmo. [5] O Santo não é outra coisa nem vem de outro lugar. Que o ‘sangue’ seja esse Santo, pode-se ver por várias passagens na Palavra, das quais se permite citar estas: Em Ezequiel: “Filho do Homem, assim disse o Senhor JEHOVIH: Dize à ave de todo céu, a toda fera do campo: Congregai-vos e vinde, congregai-vos de toda redondeza sobre o Meu sacrifício que Eu sacrifico para vós; sacrifício grande sobre as montanhas de Israel, para que comais carne e bebais sangue, a carne dos fortes comereis, e o sangue dos príncipes da terra bebereis, carneiros, cordeiros e bodes,... todos os cevados de Bashan, e comereis gorduras à saciedade, e bebereis sangue até a embriaguez do Meu sacrifício que sacrificarei para vós; [vós] vos saciareis sobre a Minha mesa, de cavalos, e de carros, de forte, e de todo varão de guerra. Assim porei a Minha glória entre as nações, ...” (39:17–21); trata-se aí da convocação de todos para o Reino do Senhor, e especificamente da instauração da igreja entre as nações; e por ‘comer a carne e beber o sangue’ é significado apropriar-se o Divino Bem e o Divino Vero, assim, o Santo que procede do Divino Humano do Senhor. Quem não pode ver que ali pela carne não se entende a carne, nem pelo sangue, o sangue? Por exemplo, que ‘comeriam a carne dos fortes’, que ‘beberiam o sangue dos príncipes da terra’, e que ‘se fartariam de cavalo, de carro, de forte, e de todo varão de guerra’? [6] O mesmo acontece em João: “Vi um Anjo que estava no sol, o qual clamava com voz grande, dizendo a todas as aves que voavam no meio do céu: Vinde, congregai[-vos] para a ceia do Grande Deus, para que comais carnes de reis, e carnes de quiliarcas, e carnes dos fortes, e carnes de cavalos e dos que montam sobre eles, e as carnes de todos, livres e servos, pequenos e grandes” (Ap. 19:17, 18); quem jamais entenderá estas palavras, a não ser que saiba o que, no sentido interno, significa a ‘carne’, e também a não ser que saiba o que significam os ‘reis’, ‘quiliarcas’, ‘fortes’, ‘cavalos’, ‘os que estão montados neles’, os ‘livres’ e os ‘servos’? [7] E mais, em Zacarias: “Falará de paz às nações; o dominar d’Ele [será] do mar até o mar, e do rio até os fins da terra; também Tu, pelo sangue da tua aliança soltarei os teus presos da cova” (9:10, 11). Trata-se aí do Senhor; o ‘sangue da aliança’ é o Divino Vero procedente de Seu Divino Humano, e é o Santo mesmo, que provinha do Senhor [exivit ab Ipso] depois que Ele foi glorificado; este é o Santo que é também chamado Espírito Santo, como é evidente em João: “Jesus disse: Se alguém tiver sede, venha a Mim e beba; quem crê em Mim, como disse a Escritura, do ventre dele fluirão rios de água vivente; isso disse a respeito do espírito que os que acreditassem n’Ele deviam receber, pois ainda não havia Espírito Santo, porque Jesus ainda não tinha sido glorificado” (7:37, 38, 39). (Que o Santo procedente do Senhor seja o Espírito, ver João, 6:63.) [8] Além disso, que o ‘sangue’ seja o Santo procedente do Divino Humano do Senhor, em Davi: “Do dolo e da violência resgatará a alma deles, e precioso será o sangue deles aos olhos d’Ele” (Sl. 72:14). o ‘sangue precioso’ está em lugar do Santo que eles devem receber. Em João: “Eles são os que vêm da aflição grande, e lavaram as suas vestes, e embranqueceram as suas vestes no sangue do Cordeiro” (Ap. 7:14); e no mesmo: “Estes venceram o dragão pelo sangue do Cordeiro, e pela palavra do Seu testemunho; e não amaram a sua alma até a morte” (Ap. 8:8). [9] A igreja hoje não sabe outra coisa senão que o sangue do Cordeiro, nessa passagem, significa a paixão do Senhor, porque ela crê que se é salvo unicamente pelo fato de que o Senhor sofreu, e que é por causa disso que Ele foi enviado ao mundo; mas essa crença é para os simples que não podem compreender os arcanos mais interiores. A paixão do Senhor foi o último da tentação d’Ele, por meio do qual Ele plenamente glorificou o Seu Humano (Lc. 24:26; João, 12:23, 27, 28; 13:31, 32; 17: 1, 4, 5); mas ali o sangue do Cordeiro é a mesma coisa que o Divino Vero, ou o Santo procedente do Divino Humano do Senhor; portanto, a mesma coisa que o ‘sangue da aliança’, de que se tratou logo acima, e de que também se trata em Moisés: [10] “Moisés tomou o livro da aliança, e leu às orelhas do povo, que disseram: Tudo que falou JEHOVAH, faremos e ouviremos. Então tomou Moisés o sangue, e esparziu sobre o povo, e disse: Eis o sangue da aliança, que JEHOVAH estabeleceu convosco sobre todas essas palavras” (Êx. 24:7, 8); o ‘livro da aliança’ era o Divino Vero que se lhes deu então, o que era confirmado pelo sangue, que testemunhava que esse Divino Vero provinha do Divino Humano do Senhor. [11] Nos ritos da Igreja Judaica, o sangue não significava outra coisa senão do Santo procedente do Divino Humano do Senhor, por isso é que quando eles eram santificados, isso se fazia pelo sangue; por exemplo, quando Aharão e seus filhos eram santificados, “então o sangue era espargido sobre os chifres do altar, o restante sobre o fundamento do altar, e também sobre a ponta da orelha direita, sobre o polegar da mão e do pé direitos, sobre as vestes dele” (Êx. 29:12, 16, 20; Lv. 8[:15, 19, 23, 30]); ainda quando Aharão entrasse dentro do véu para o Propiciatório, que também “então se espargia com o dedo sangue sobre o Propiciatório sete vezes para o oriente” (Lv. 16:12, 13, 14, 15); e igualmente em todas as outras santificações, como também nas expiações e purificações de que se fala (Êx. 12:7, 13, 22; 30:10; Lv. 1:5, 11, 15; 3:2, 8, 13; 4:6, 7, 17, 18, 25, 30, 34; 5:9; 6:20, 21; 14:14–19; 25–30; 16:12–15, 18, 19; Dt. 12:27). [12] Como pelo ‘sangue’, no sentido genuíno, é significado o santo, do mesmo modo, no sentido oposto, pelo ‘sangue’ e ‘sangues’ são significadas as coisas que lhe inserem violência, e isto por isso: porque por ‘derramar o sangue inocente’ é significado violar o que é santo; por isso também os crimes da vida e as coisas profanas do culto eram chamados ‘sangue’. Que o ‘sangue’ e os ‘sangues’ sejam tais coisas, vê-se por estas passagens: Em Isaías: “Quando o Senhor tiver lavado o excremento das filhas de Sião, e tiver limpado os sangues de Jerusalém do meio dela, pelo espírito do juízo, e pelo espírito da expurgação” (4:4). No mesmo: “As águas de Dimon estão cheias de sangue” (Is. 15:9). No mesmo: “As vossas mãos foram poluídas pelo sangue, e os vossos dedos, pela iniquidade; ... os pés deles correm para o mal, e se apressam para derramar o sangue inocente, os pensamentos deles [são] pensamentos de iniquidade” (Is. 59:(3), 7). Em Jeremias: “E até nas tuas asas foram encontrados os sangues das almas dos pobres inocentes” (2:34). [13] No mesmo: “Por causa dos pecados dos profetas, das iniquidades dos sacerdotes, que derramam, no meio de Jerusalém, o sangue dos justos; erraram cegos nas praças, foram poluídas pelo sangue, as coisas que não podem, tocam com as suas vestimentas” (Lm. 4:13, 14). Em Ezequiel: “Passei diante de ti, e vi-te calcada nos teus sangues, e disse a ti: Nos teus sangues vive. E disse a ti: Nos teus sangues vive. [...] Lavei-te nas águas e limpei os teus sangues de sobre ti; e ungi-te de óleo” (16:6, 9). No mesmo: “Tu, filho do homem, não discutirás com a cidade dos sangues; anuncia-lhe todas as suas abominações, ...pelo teu sangue que derramaste, ré se tornou, e pelos ídolos que fizeste, poluída estás. ... Eis, os príncipes de Israel, cada um segundo o seu braço estiveram em ti e derramaram sangue; ... os varões da calúnia estiveram em ti para derramar sangue, e para as montanhas comeram em ti” (22:2, 3, 4, 6, 9). Em Moisés: “Se alguém tiver sacrificado em outro lugar que não [seja] sobre o altar para a tenda, haverá sangue, e como se derramasse sangue” (Lv. 17:1 a 9). [14] O vero falsificado e profanado é significado pelas palavras seguintes a respeito do sangue, em Joel: “Farei prodígios nos céus e na terra, sangue e fogo, e colunas de fumaças; o sol se mudará em escuridão, e a lua em sangue, antes que venha o dia grande e terrível” (3:3, 4). Em João: “O sol tornou-se negro como um saco de pelos, e a lua tornou-se toda como sangue” (Ap. 6:12). No mesmo: “O segundo Anjo tocou [a trombeta], e como uma montanha grande ardendo em fogo foi lançada no mar, e a terça parte do mar tornou-se sangue” (Ap. 8:8); no mesmo: “O segundo Anjo derramou a sua taça no mar; e tornou-se sangue como de um morto, de onde toda alma vivente foi morta no mar. O terceiro Anjo derramou a sua taça nos rios e nas fontes de águas, e tornou-se sangue” (Ap. 16:3, 4). [15] Do mesmo modo se diz que “os rios, os ajuntamentos e os lagos de águas, foram vertidos em sangue no Egito” (Êx. 7:15–22); pelo Egito, com efeito, é significado o conhecimento que entra, por si mesmo, nos arcanos celestes, e por isso perverte, nega e profana os Veros Divinos (n. 1164, 1165, 1186). Todos os milagres no Egito, porque foram Divinos, envolveram semelhantes coisas. (Que os ‘rios’, que foram vertidos em sangue, sejam os veros que pertencem à inteligência e à sabedoria, n. 108, 109, 3051; que as ‘águas’ semelhantemente, n. 680, 2702, 3058; que as ‘fontes’, n. 2702, 3096, 3424; que os ‘mares’ sejam dos verdadeiros conhecimentos em seu complexo, n. 28; que a ‘lua’, de que também se diz que seria mudada em sangue, seja o Divino Vero, n. 1529, 1530, 1531, 2495, 4060). Daí se vê que pela lua, o mar, as fontes, as águas e os rios, que foram mudados em sangue, é significado o vero falsificado e profanado.