. ‘E mataram um bode das cabras’; que signifique os veros externos provenientes dos prazeres, é o que se vê pela significação do ‘bode das cabras’ na Palavra, que são os veros naturais, isto é, os veros do homem externo, dos quais provêm os prazeres da vida, depois também, que são os veros externos provenientes dos prazeres, de que se tratará no que segue. Os veros do homem externo, dos quais provêm os prazeres da vida, são os veros Divinos quais são os do sentido literal da Palavra, dos quais provêm os doutrinais da igreja genuína; esses veros são propriamente significados pelo ‘bode’. Os prazeres que daí provêm são significados pelas ‘cabras’; assim, pelo ‘bode das cabras’, no sentido genuíno, são significados aqueles que estão em tais veros e nos prazeres que deles provêm; mas, no sentido oposto, pelo ‘bode das cabras’ são significados aqueles que estão nos veros externos, isto é, nas aparências do vero provenientes do sentido da letra que convêm aos prazeres de vida deles, como, por exemplo, aos prazeres do corpo, que, em geral, são chamados voluptuosidades, e aos prazeres do ânimo, que são em geral as honras e os ganhos. Tais homens são significados pelos ‘bodes das cabras’ no sentido oposto. Em uma palavra, neste sentido, por ‘bode das cabras’ são significados aqueles que estão na fé separada da caridade, pois estes não pegam da Palavra outros veros senão os que concordam com os prazeres de sua vida, isto é, que favorecem os amores de si e do mundo; eles deduzem dali os outros veros por interpretação e, daí, apresentam as falsidades como aparências do vero. [2] Que o ‘bode das cabras’ signifique aqueles que estão na fé separada, pode-se ver em Daniel: “Eis um bode das cabras veio do ocidente sobre as faces de toda a terra, e não atingia a terra, e este bode tinha um chifre que aparecia entre os olhos dele; [...] de um dos quatro chifres subiu um só chifre exíguo, e cresceu muito para o meio-dia e para o nascente, e para o ornamento; porque cresceu até o exército dos céus, e lançou por terra [parte] do exército e das estrelas, e pisou-as; [...] e lançou a verdade em terra; ...” (8:5, 9, 10, 11, 12); trata-se aí do estado da igreja em geral, não somente do estado da Igreja Judaica, mas também do estado da igreja seguinte, que é a Igreja Cristã, pois a Palavra do Senhor é universal. O ‘bode das cabras’ relativamente à Igreja Judaica significa aqueles que em nada estimaram os veros internos, mas aceitavam os veros externos tanto quanto eles eram favoráveis aos seus amores, que consistiam em se tornarem os maiores e os mais opulentos; daí o Cristo (ou Messias), a quem esperavam, não reconheciam senão como um rei e que os levantasse acima de todas as nações e povos em todo o globo, e os sujeitassem a eles como servos muito vis. Era essa a origem do amor deles para com Ele, eles desconheciam absolutamente o que era o amor para com o próximo; eles apenas sabiam que era uma conjunção pela participação na honra supradita, e pelo ganho. [3] Mas o ‘bode das cabras’ relativamente à Igreja Cristã significa aqueles que estão nos veros externos por motivo dos prazeres, isto é, aqueles que estão na fé separada, pois estes também em nada consideram as coisas internas, e se as ensinam é unicamente para, por esse modo, adquirirem reputação e para serem elevados às honras e chegarem aos ganhos; são esses os prazeres que estão no coração deles quando os veros estão em sua boca. E, além disso, eles, por meio de interpretações perversas, arrastam, em favor de seus amores, aqueles que pertencem à fé genuína. Daí se vê o que, no sentido interno, é significado por essas palavras em Daniel, a saber, que pelo ‘bode das cabras’ são significados aqueles que estão na fé separada. Que o bode tenha vindo do ocidente, é porque provém do mal (ver n. 3708); que o bode tenha vindo sobre a faces de toda a terra, não atingindo a terra, é que o fez sobre toda a igreja. (Pela ‘terra’, na Palavra, não se entende outra coisa senão a terra onde está a igreja, portanto, a igreja, n. 566, 662, 1067, 1262, 1413, 1607, 1733,1850, 2117, 2118, 2928, 3355, 4435, 4447; os ‘chifres’ dos bodes são os poderes oriundos do falso, n. 2832; o ‘chifre que aparecia entre os seus olhos’ é o poder oriundo do raciocínio a respeito dos veros da fé, o que se pode ver pelas coisas demonstradas a respeito dos olhos, n. 4403 ao 4421, 4523 ao 4534; um ‘chifre que cresce para o meio-dia, o nascente e o ornamento’ é o poder pela fé separada para as coisas que pertencem ao estado da luz do céu, ao estado do bem e do vero; que o meio-dia [ou sul] seja o estado da luz, n. 3708; que o ‘nascente’, ou oriente, seja o estado do bem, n. 1250, 3249, 3708; que o ‘ornamento’ seja o estado do vero, vê-se aqui ali pela Palavra; que ‘ele cresceu até o exército dos céus, e lançou por terra uma parte do exército e das estrelas, e as pisou’, isso se refere às cognições do bem e do vero; que o exército dos céus e as estrelas sejam as cognições do bem e vero, n. 4697; daí se sabe o que significa isso, que ‘a verdade tenha sido lançada em terra’, a saber, que é a fé mesma que em si é a caridade, pois a fé tem em vista a caridade, porque ela procede da caridade.) Aquilo que na Antiga Igreja se chamava verdade, isto se chama fé na Nova, n. 4690. [4] Igualmente o bode em Ezequiel: “Eis, Eu julgo entre gado miúdo e gado miúdo, entre carneiros e entre bodes. Será que é pouco para vós? Um pasto bom pastais, e o restante das vossas pastagens calcais com os vossos pés? os sedimentos das águas bebeis, as restantes turvais com os vossos pés? ... Com os vossos chifres feris todas as [ovelhas] fracas, até que as dispersais para fora” (34:17, 18, 21); aí também pelos ‘bodes’ são significados aqueles que estão na fé separada, isto é, que preferem a doutrina à vida e, por fim, não cuidam da vida, quando, todavia, a vida faz o homem e não a doutrina separada, e a vida permanece após a morte, mas não a doutrina, a não ser tanto quanto ela é trazida da vida. A respeito desses se diz que eles ‘pastam o bom pasto e calcam aos pés o restante das pastagens’, que eles ‘bebem os sedimentos das águas e turvam o restante com os pés’, e que ‘ferem com seus chifres as ovelhas fracas até que fiquem dispersas’. [5] A partir dessas passagens, agora se vê quem são os que se entendem por ‘bodes’ e quem os que se entendem por ‘ovelhas’, a respeito dos quais o Senhor fala em Mateus: “Reunir-se-ão diante d’Ele todas as nações, e separá-las-á umas das outras, assim como o pastor separa as ovelhas de junto dos bodes; e porá as ovelhas à direita, os bodes, porém, à esquerda etc.” (25:32, 33); que as ‘ovelhas’ sejam aqueles que estão na caridade e, portanto, nos veros da fé, e que os ‘bodes’ aqueles que não estão em nenhuma caridade, ainda que estejam nos veros da fé, isto é, os que estão na fé separada, está claro por cada coisa particular ali, ali elas são descritas. [6] Quem são e quais são os que estão na fé separada e são entendidos pelos ‘bodes’, pode-se ver, por essas duas passagens: Em Mateus: “Toda a árvore que não produz bomfruto será cortada e ao fogo será lançada; por isso, pelos frutos deles os conhecereis. Nem todo aquele que Me diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas quem faz a vontade do Meu Pai, Que está no céu. Muitos Me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, pelo Teu Nome não profetizamos, e pelo Teu Nome não lançamos fora os demônios, e em Teu Nome não fizemos muitas virtudes? Mas então lhes confessarei: Não vos conheço, apartai-vos de Mim obreiros de iniquidade” (8:19, 20, 21, 22, 23); e em Lucas: “Então começareis aestar de fora, e a bater à porta, dizendo: Senhor, Senhor, abre-nos! Mas respondendo dirá a vós: Não sei de onde vós sois. Então começareis a dizer: Comemos diante de Ti, e bebemos, e nas nossas praças ensinastes; mas dirá: Digo-vos, não sei de onde vós sois; apartai-vos de Mim todos [vós], obreiros de iniquidade!” (13:25, 26, 27); são esses os que estão na fé separada, e que são chamados ‘bodes’. Não obstante, o que os bodes significam no sentido bom, assim como os que eram empregados nos sacrifícios e que são mencionados aqui e ali nos Profetas, falar-se-á em outro lugar, pela Divina Misericórdia do Senhor.