ac 4776

Emanuel Swedenborg
Obra: Arcanos Celestes – Gênesis Explicado

Texto

. ‘Uma fera má o comeu’; que signifique que as cobiças do mal [o] tenham extinguido, é o que se vê pela significação da ‘fera má’, que é a mentira proveniente da vida das cobiças (n. 4729), por conseguinte, as cobiças; e pela significação de ‘comer’, que é extinguir, porque é predicado do vero da igreja. O vero mesmíssimo da igreja é que o amor ao Senhor e o amor para com o próximo são as coisas principais (Mc. 12:29, 30, 31); as cobiças extinguem este vero. Com efeito, aqueles que estão na vida das cobiças não podem estar na vida do amor e da caridade, afinal essas duas vidas são completamente opostas; a vida das cobiças consiste em amar a si só, e não ao próximo a não ser por si, ou seja, por causa de si; daí os que estão nessa vida extinguem a caridade neles mesmos, e os que extinguem a caridade também extinguem o amor ao Senhor, pois não há outro meio de amar o Senhor senão a caridade, porque o Senhor está na caridade; a afeição da caridade é a afeição celeste mesma que procede somente do Senhor; daí se pode ver que as cobiças do mal extinguem o vero mesmíssimo da igreja. Esse vero sendo extinto, inventa-se um meio que se diz salvífico, a saber, a fé, que, quando separada da caridade, então os veros mesmos se tornam sujos, pois então não se sabe mais o que é a caridade, nem sequer o que é o próximo; consequentemente, não se sabe o que é o interno do homem, e nem sequer o que é o céu, pois o interno do homem e o céu no homem é a caridade, isto é, o bem-querer a outrem, à sociedade, à pátria, à igreja, ao Reino do Senhor e, assim, ao Senhor mesmo. Daí se pode concluir quais devem ser os veros da igreja quando as coisas que são essenciais não são conhecidas, e quando as coisas que lhes são contrárias, a saber, as cobiças, reinam. Quando a vida das cobiças fala a respeito desses veros, não estão eles tão sujos de modo que não passam mais ser conhecidos?
[2] Que ninguém possa ser salvo a não ser que tenha vivido no bem da caridade e, assim, tenha sido imbuído das afeições desse bem, que são o bem-querer aos outros e, a partir do bem-querer, o bem-fazer a eles; então, que ninguém possa jamais receber os veros da fé, a saber,se imbuir e se apropriar deles, exceto quem estiver na vida da caridade, foi o que se me fez ver manifestamente pelos que estão no céu, com os quais me foi concedido conversar. Ali todos são formas da caridade, em beleza e bondade segundo a qualidade da caridade. O prazeroso, o próspero e o feliz deles vem disto, que do bem-querer eles podem bem-fazer aos outros. O homem que não viveu na caridade jamais pode saber que no bem-querer e no bem-fazer proveniente do bem-querer há o céu e seu regozijo, porque o céu dele é o bem-querer a si e a partir desse bem-querer, o bem-fazer aos outros, quando, entretanto, isso é o inferno, pois o céu se distingue do inferno nisso, que, como foi dito, o céu consiste em, a partir do bem-querer, bem-fazer, e que o inferno consiste em, a partir do malquerer, malfazer. Aqueles que estão no amor para com o próximo, esses fazem o bem a partir do bem-querer, mas os que estão no amor de si, esses a partir do malquerer fazem o mal, a causa é porque eles não amam a ninguém senão a si próprios, e não amam os outros a não ser o tanto quanto se veem neles e eles em si próprios; e até têm ódio por eles, o que se torna manifesto logo que estes se afastam deles e não lhes são mais dedicados. É o que acontece com os ladrões que, quando estão consociados, se amam mutuamente, mas, não obstante, em seus corações desejam matar-se um ao outro e então predar.
[3] A partir daí se pode ver o que é o céu, a saber, que é o amor para com o próximo; e o que é o inferno, a saber, que é o amor de si. Aqueles que estão no amor para com o próximo, esses podem receber todos os veros da fé, deles se imbuir e apropriá-los a si, pois no amor para com o próximo reside o todo da fé, porque nele reside o céu e reside o Senhor; mas aqueles que estão no amor de si, esses nunca podem receber os veros da fé, porque nesse amor reside o inferno, e não podem receber os veros da fé de outro modo que não seja por causa da honra e do ganho, assim eles nunca podem se imbuir e se apropriar deles; mas aquilo de que eles se imbuem e de que se apropriam são os negativos do vero, pois, de coração, eles nem sequer creem que há um inferno e um céu, nem que haja vida após a morte; por isso, nada creem do que se diz a respeito do inferno e do céu, e o que se diz a respeito da vida depois da morte; assim, nada absolutamente do que se diz a respeito da fé e da caridade a partir da Palavra e da doutrina. O que se lhes mostra, quando estão no culto, é que creem, mas isso vem de que foi implantado neles, desde a infância, revestir este estado nessa ocasião, mas desde que estejam fora do culto, eles também estão fora desse estado, e quando então pensam em si, absolutamente nada creem, e também inventam, segundo a vida de seus amores, coisas favoráveis que dizem ser veros, e também [as] confirmam pelo sentido literal da Palavra, quando todavia são falsos. Tais são todos aqueles que estão na fé separada da vida e da doutrina.
[4] Além disso, é necessário saber que todas as coisas estão nos amores, pois são os amores que fazem a vida, por conseguinte, a vida do Senhor não influi a não ser senão nos amores; portanto, quais são os amores, tais são as vidas, porque tais são as recepções da vida. O amor para com o próximo recebe a vida do céu, e o amor de si recebe a vida do inferno; assim, no amor para com o próximo reside tudo do céu, e no amor de si, tudo do inferno. Que todas as coisas estejam nos amores é o que se pode ilustrar por várias coisas na natureza. Os animais, tanto os que andam na terra como os que voam no ar, e os que nadam nas águas são todos guiados segundo os seus amores, e em seus amores influem todas as coisas que convêm à sua vida, a saber, ao alimento, à habitação e à procriação; daí cada gênero459 conhece seus alimentos, conhece a sua morada, e conhece as coisas que dizem respeito ao seu conjugal, como se consociar, construir ninhos, pôr ovos, educar as crias.
[5] Também as abelhas sabem edificar células, extrair o mel das flores, encher os alvéolos, prover para si para o inverno, e mesmo estabelecer uma forma de governo sob um chefe, além de maravilhosas outras coisas. Todas essas coisas acontecem por meio do influxo em seus amores, são unicamente as formas de suas afeições que variam os efeitos da vida; todas essas formas estão em seus amores. O que não haveria no amor celeste caso o homem estivesse nesse amor? Não haveria o todo da sabedoria e da inteligência que há no céu? Daí também vem que os que viveram na caridade, e não os outros, sejam recebidos no céu; e que, em razão da caridade, estejam no poder de receber e de se imbuir de todos os veros, isto é, de todas as coisas da fé. Mas o contrário acontece àqueles que estão na fé separada, isto é, em alguns veros e não na caridade; os amores deles recebem as coisas que lhes convêm, a saber, os amores de si e do mundo, que são contrários aos veros, tais quais são nos infernos.

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