. ‘Para consolá-lo’; que signifique para que sejam interpretados a partir do sentido da letra da Palavra, é o que se vê pela significação de ‘consolar’, que é acalmar a inquietação do ânimo pela esperança de alguma coisa (n. 3610), aqui a inquietação ou luto sobre o bem e vero perdido, luto que, porque não pode ser acalmado senão pelas interpretações oriundas da Palavra, aqui porque se trata dos filhos e filhas de Jacó, pelos quais são significados aqueles que estão nos falsos e males (n 4781, 4782), por ‘consolar’ são significadas as interpretações que se fazem a partir do sentido da letra. Com efeito, o sentido da letra da Palavra tem coisas gerais que são como vasos que podem ser cheios de veros e também ser cheios de falsos, e deste modo ser explicado a favor; e porque são coisas gerais, são também relativamente obscuras, as quais não têm luz de outro lugar senão do sentido interno, pois o sentido interno está na luz do céu, porque ele é a Palavra para os anjos; o sentido da letra, porém, está na luz do mundo, porque ele é a Palavra para os homens antes que cheguem, pelo Senhor, à luz do céu, pela qual há então iluminação. Daí se vê que o sentido da letra serve aos simples para a iniciação no sentido interno. [2] Que do sentido da letra a Palavra possa ser explicada a favor de cada um por meio de interpretações, vê-se claramente por isso, que os doutrinais, quaisquer que sejam, até os heréticos, são dali confirmados; por exemplo, como o dogma da fé separada é confirmado a partir dessas palavras do Senhor: “Deus amou o mundo de tal maneira, que deu o Seu Filho unigênito, para que todo aquele que n’Ele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João, 3:16); das quais, e também de outros lugares, concluem que é pela fé só, sem as obras, que se tem a vida eterna; e quando ficam persuadidos disso, então não mais atentam para as coisas que o Senhor tantas vezes falou a respeito do amor a Ele, e da caridade e das obras (n. 1017, 2373, 3934), assim, nem mesmo a estas que estão em João: “A todos que recebam, deu-lhes poder para que fossem filhos de Deus, aos que creem no Nome d’Ele, os quais não de sangues, nem da vontade da carne, nem na vontade do varão, mas de Deus nasceram” (1:12, 13). Se a eles se diz que ninguém pode crer no Senhor a não ser aquele que está na caridade, logo eles recorrem às interpretações, por exemplo, a estas: que a lei tenha sido ab-rogada, que eles nasceram nos pecados e, assim, que não podem por si próprios fazer o bem, e os que o fazem não podem deixar de reivindicar daí para si o mérito; e também confirmam esses argumentos pelo sentido da letra da Palavra, por exemplo: pelas coisas ditas na parábola a respeito do fariseu e do publicano (Lc. 18:10 ao 14, e por outras passagens), quando, todavia, se tem essas passagens de modo absolutamente diferente. [3] Aqueles que estão na fé separada também não podem crer de outro modo, senão que cada um pode ser admitido no céu pela graça, seja qual for o modo que vivera; portanto, que não a vida, mas a fé permaneça no homem depois da morte; eles confirmam também isso pelo sentido da letra da Palavra, quando, entretanto, pelo sentido espiritual mesmo da Palavra se vê que o Senhor tem misericórdia para com cada um, assim, se o céu fosse dado por misericórdia ou graça, fosse qual fosse a vida, todo homem seria salvo. Que assim acreditem os que estão na fé separada, é porque eles não sabem, absolutamente, o que é o céu, e isso porque eles não sabem o que é a caridade; se soubessem quanta paz, regozijo e felicidade há na caridade, saberiam o que é o céu, mas isso está inteiramente escondido deles. [4] Aqueles que estão na fé separada não podem crer outra coisa senão que eles devem ressuscitar com o corpo, e não [antes] a não ser senão no dia do juízo, o que eles confirmam também por várias passagens da Palavra explicadas segundo o sentido da letra, nada então pensando a respeito das coisas que o Senhor dissera do rico e de Lázaro (Lc. 16:22 ao 31), e das que Ele disse ao ladrão: “Amém te digo, hoje estarás comigo no paraíso” (Lc. 23:43); e as coisas que disse em vários outros lugares. Que creiam nisso os que estão na fé separada, é porque se lhes fosse dito que o corpo não deve ressuscitar, eles negariam inteiramente a ressurreição, uma vez que não sabem e não compreendem o que é o homem interno, pois ninguém pode saber o que é o homem interno e sua vida depois da morte senão aquele que está na caridade, pois esta pertence ao homem interno. [5] Aqueles que estão na fé separada não podem deixar de crer outra coisa senão que as obras da caridade consistem somente em dar aos pobres e em socorrer os miseráveis, o que também confirmam pelo sentido da letra da Palavra, quando, entretanto, as obras da caridade são fazer o justo e o equitativo, cada um em seu ofício, por amor do justo e do equitativo e por amor do bem e do vero. [6] Aqueles que estão na fé separada não veem outra coisa na Palavra senão as coisas que confirmam os seus dogmas. Com efeito, eles não têm uma intuição interior, porquanto os que não estão na afeição da caridade não estão senão na visão externa, ou em uma intuição inferior, a partir desta ninguém pode olhar as coisas superiores, as coisas superiores lhe aparecem como trevas; daí vem que vejam os falsos como veros e os veros como falsos, e que assim eles destruam a boa pastagem e conspurquem as águas puras da fonte sagrada (ou da Palavra) por meio de interpretações extraídas do sentido da letra, conforme essas palavras em Ezequiel: “Será que [é] pouco para vós [que] a pastagem boa apascentais, e o restante das vossas pastagens calcais aos vossos pés? [que] bebais o sedimento das águas, e o restante turvais com os vossos pés? [...] com os vossos chifres feris todas [ovelhas] fracas, até que as disperseis fora” (34:7, 18, 21).