Texto
. Havia comigo espíritos de um outro globo de que falarei em outro lugar; a sua face diferia das faces dos homens de nosso globo; era proeminente, principalmente ao redor dos lábios, e, além disso, franca. Conversei com eles a respeito de seu modo de viver e do estado da conversação entre si. Diziam que elesse falavam principalmente pelas variações da face, e especialmente por variações ao redor dos lábios, e que exprimiam as afeições pelas partes pertencentes à face ao redor dos olhos, de modo que os seus companheiros podiam, por esse modo, plenamente compreender não só o que eles pensavam,mas também o que eles queriam; eles se empenharam também em me mostrar por meio de um influxo em meus lábios, por diversas dobras e diversas sinuosidades em torno deles, mas não pude receber as variações, porque os meus lábios não tinham sido desde a infância iniciados nesses movimentos; mas ainda assim pude ter a apercepção do que eles diziam pela comunicação do pensamento deles. Que, no entanto, a linguagem em geral possa ser expressa pelos lábios, isso pôde tornar-se evidente para mim pela complicação das numerosas séries de fibras musculares que estão nos lábios, a quais, se fossem desenvolvidas e assim atuassem distinta e livremente, poderiam apresentar ali diversas variações, que são desconhecidas, nas quais essas fibras musculares jazem comprimidas.
[2] Que tal era ali a linguagem deles, vem de que eles não podem dissimular, ou pensar uma coisa e mostrar outra pela face; pois podem viver entre si em uma tal sinceridade, que eles nada ocultam a seus companheiros, e, além disso, sabe-se imediatamente o que eles pensam, o que eles querem, quais são eles e também o que eles fizeram, porquanto com aqueles que estão na sinceridade os atos efetuados estão na consciência; daí eles podem, à primeira vista, ser discernidos pelos outros quanto às suas fisionomias interiores ou aos seus intuitos.
[3] Eles me mostraram que não constrangem a face, mas que a manifestam livremente; não acontece o mesmo com os que desde a juventude se habituaram a dissimulá-las, isto é, a falar e a proceder de modo diferente do que pensam e querem; contraem a sua face a fim de que esteja preparada para ser variada conforme a astúcia sugere. Tudo que um homem quer ocultar contrai a sua face, que, pela contração, se dilata quando ele, da astúcia, tira alguma coisa que é como sincera.
[4] Enquanto eu lia na Palavra do Novo Testamento passagens a respeito do Senhor, esses espíritos estavam comigo, e havia também alguns espíritos cristãos, e percebi que estes entretinham dentro de si escândalos contra o Senhor, e que até queriam lentamente comunicá-los. Esses espíritos de um outro globo se admiravam de que eles fossem tais, mas foi-me permitido dizer-lhes que no mundo eles tinham sido tais não de boca, mas de coração, e que lá, até homens que elogiam o Senhor, embora sejam tais, e que então comovem o vulgo até os gemidos e, às vezes, até as lágrimas, pelo zelo de uma virtude fingida, nada comunicando do que está em seu coração. Ao saberem disso, esses espíritos ficaram muito surpresos de que pudesse existir um tal desacordo entre os interiores e os exteriores, o pensamento e a linguagem, dizendo que nada conheciam absolutamente de um tal desacordo, e que lhes é impossível pronunciar de boca e demonstrar na face coisa diferente do que é conforme as afeições do coração, e que se procedessem de outro modo eles arrebentariam e pereceriam.