Texto
. ‘E deixou a sua vestimenta na mão dela’; que signifique que ele separava este último vero, é o que se vê pela significação de ‘deixar na mão dela’, que é em seu poder, porquanto a ‘mão’ é o poder, ou o poderio487 (n. 878, 3091, 3387, 3563, 4931 ao 4937); e porque ela segurou a vestimenta dele, é aqui arrebatar; e pela significação da ‘vestimenta’, que é o último vero (n. 5006). Que o vero natural não espiritual tenha querido se conjungir com o vero natural espiritual, e que este tenha tido aversão a conjunção e, por causa disso, tenha deixado o último vero, ou tolerado que ele fosse afastado, não pode ser compreendido por ninguém, exceto se for ilustrado por exemplos; mas primeiro veja-se o que é o vero natural não espiritual, e o vero natural espiritual (n. 4988, 4992); e que nos últimos haja a afinidade, porém não alguma conjunção.
[2] Mas, como foi dito, ilustrar-se-á essas coisas por meio de exemplos; seja este o primeiro: Há, dentro da igreja, o vero natural não espiritual, que se deve fazer o bem aos pobres, às viúvas e aos órfãos, e que fazer-lhes bem seja a caridade que foi ordenada na Palavra; mas o vero não espiritual, isto é, aqueles que estão no vero não espiritual, por pobres, viúvas e órfãos entendem aqueles que assim são denominados; mas o vero natural espiritual, isto é, aqueles que estão nesse vero, de fato confirmam isto, mas estabelecem que em último lugar se entendam os pobres, as viúvas, os órfãos, pois dizem em seu coração que nem todos os que se chamam pobres sejam pobres; que também entre eles há os que vivem muito perversamente, que não temem a Deus nem aos homens e que se arremessariam em todos os crimes se o temor não os detivesse; e, além disso, que pelos pobres, na Palavra, entendem-se os que são espiritualmente tais, a saber, os que sabem e de coração confessam que nada do vero e do bem tenham por si próprios, mas que todas as coisas lhe são dadas gratuitamente; o mesmo se dá com as viúvas e com os órfãos, com a diferença em relação ao estado. A partir deste exemplo, é evidente que fazer o bem aos pobres, às viúvas e aos órfãos, que assim são chamados, seja o último do vero para aqueles que estão no vero natural espiritual, e que esse vero seja equivalente a uma vestimenta, que reveste os interiores. É evidente também que este último do vero está de acordo com o vero com aqueles que estão no vero natural não espiritual, mas que, apesar disso, não haja conjunção, mas afinidade.
[3] Seja, para exemplo, que se deve fazer o bem ao próximo: Aqueles que estão no vero natural espiritual, esses por próximo têm qualquer um, mas ainda assim todos em diferente relação e grau, e dizem de coração que aqueles que estão no bem são mais do que os outros o próximo a quem se deve fazer o bem; mas os que estão no mal, que também sejam o próximo, mas que então se lhes faz o bem se, de acordo com as leis, são punidos, porque por meio das punições eles são emendados; e também, dessa forma, fica-se precavido de que não façam mal aos bons por eles próprios e por meio dos exemplos. Aqueles que, dentro da igreja, estão no vero natural não espiritual dizem também que cada um é o próximo, mas não admitem graus nem relações, é por isso que, se estão no bem natural, eles fazem o bem, sem distinção, a qualquer um que causa comiseração, na maioria das vezes mais aos maus do que aos bons, porque os maus, de sua malícia, sabem [melhor] incutir comiseração. A partir deste exemplo também é evidente que neste último vero se reúnem os que estão no vero natural não espiritual e os que estão no vero natural espiritual; mas que aí, ainda assim, não haja conjunção, mas apenas afinidade, pois uns têm uma diferente ideia e um diferente sentimento que os outros a respeito do próximo e da caridade para com o próximo.
[4] Seja também esse exemplo: Os que estão no vero natural espiritual dizem que em geral os pobres e os infelizes hão de herdar o reino celeste; mas isso é para ele um vero último, pois essas afirmações escondem interiormente que esses pobres e esses infelizes são os que espiritualmente são tais, e que são esses os que se entenderam na Palavra pelos pobres e os infelizes aos quais pertencerá o reino celeste. Mas os que, dentro da igreja, estão no vero natural não espiritual, dizem que outros não podem herdar do reino celeste, senão os que no mundo foram reduzidos a pobreza, os que vivem na miséria, e que, mais do que os outros, estão na aflição; eles chamam até as riquezas, as dignidades, os regozijos mundanos, outros tantos desvios ou meios que afastam o homem do céu. A partir desse exemplo, é também evidente o que é e qual é o último vero em que eles se reúnem, mas que não há conjunção, mas afinidade.
[5] Seja também este exemplo: Os que estão no vero natural espiritual têm por último vero que as coisas que se chamam santas na Palavra tenham sido santas, como a arca com o propiciatório, o castiçal, os perfumes, os pães e outros objetos, depois o altar; e assim como o templo e também como as vestimentas de Aharão, que se chamam vestes de santidade, principalmente o éfode com o peitoral onde estavam o Urim e o Thumim; mas, não obstante, eles têm desse último vero esta ideia, que essas coisas não tenham sido santas em si mesmas, e que nelas não houve uma santidade infusa, mas que tinham sido santas de um modo representativo, isto é, que elas tinham representado coisas espirituais e celestes do Reino do Senhor e, no sentido supremo, o Senhor mesmo. Mas aqueles que estão no vero natural não espiritual, semelhantemente, chamam-nas santas, porém santas em si mesmas por infusão. Daí é evidente que estejam de acordo, mas que não se conjungem, pois esse vero é de uma outra forma, porque pertence a uma ideia, no homemespiritual, diferente da ideia no homem meramente natural.
[6] Seja também este exemplo: É um vero último para o homem espiritual, que todos os veros Divinos podem ser confirmados a partir do sentido literal da Palavra, e também pelas coisas racionais ou intelectuais naqueles que foram iluminados. Este vero último e geral é também reconhecido pelo homem natural, mas este crê com simplicidade que tudo aquilo que pode ser confirmado a partir da Palavra é um vero, e sobretudo aquilo que ele próprio dali confirmou. Nisso, portanto, eles estão de acordo, que todo Vero Divino pode ser confirmado, mas esse vero geral é considerado por um de modo diferente do que pelo outro. Aquele que é homem meramente natural, este crê ser vero Divino tudo que ele próprio confirmou consigo, ou o que ouviu ser confirmado por outros, não sabendo que o falso pode ser igualmente confirmado como o vero; e que o falso confirmado se mostre absolutamente como vero, e também mais do que o vero mesmo, porque as falácias dos sentidos favorecem e o apresentam na luz do mundo separada da luz do céu.
[7] Daí também fica evidente qual é o vero último espiritual diante do homem natural, a saber, que ele equivale a uma vestimenta; e quando essa vestimenta é afastada — porque absolutamente não estão mais de acordo, consequentemente, porque o homem espiritual nada mais tem por meio do que se defender contra o homem natural — essas coisas são significadas por isso, que José, deixada sua vestimenta, fugiu e saiu para fora, pois o homem meramente natural não reconhece as coisas interiores. É por isso que quando as coisas exteriores são retiradas ou afastadas, então logo são dissociados. Ademais, o homem natural chama falso tudo aquilo por meio do que o homem espiritual confirma o vero último, pois o homem natural não pode ver se aquilo que ele confirma é assim. É impossível a partir da luz natural ver as coisas que pertencem à luz espiritual, isso é contra a ordem; mas é segundo a ordem que da luz espiritual sejam vistas as coisas que estão na luz natural.