Texto
. ‘O copeiro do rei do Egito’; que signifique com as coisas que no corpo foram submetidas à parte intelectual, vê-se pela significação do ‘copeiro’493, que é o sensual externo, ou sensual do corpo, que foi subordinado ou submetido à parte intelectual do homem interno (do que se tratará); e pela significação do ‘rei do Egito’, que é o homem natural (de que se tratará abaixo, n. 5079). Como no que segue se trata do copeiro e do padeiro, e por eles são significados os sensuais externos pertencentes ao corpo, deve-se primeiro dizer alguma coisa a respeito desses sensuais494. Que os sentidos externos, ou do corpo, sejam cinco, a saber, a visão, a audição, o olfato, o paladar e o tato, é sabido; e também que estes constituem todo o vital do corpo, pois sem esses sentidos o corpo absolutamente não vive. É por isso também que, quando ele é privado dele, morre e se torna um cadáver; portanto, o corpóreo mesmo do homem não é outra coisa senão um receptáculo das sensações, consequentemente, receptáculo da vida proveniente desses sentidos. O principal é o sensitivo, e o instrumental é o corpóreo; o instrumental sem o seu principal ao qual foi adaptado, nem sequer pode ser dito corpóreo tal qual o homem carrega ao redor quando vive no mundo, mas sim o instrumental juntamente com o principal quando estes fazem um; isto, portanto, é o corpóreo [ou corporal].
[2] Os sensuais externos do homem se referem todos aos seus sensuais internos, pois foram dados ao homem e postos no corpo para que sirvam ao homem interno enquanto está no mundo, e para que sejam sujeitados aos seus sensuais. É por isso que, quando os sensuais externos do homem começam a dominar sobre os sensuais internos do homem, estão em ação com o homem, pois então os sensuais internos não são considerados de outra forma senão como criados que servem para confirmar as coisas que, por autoridade, os sensuais externos mandam. Quando os sensuais externos estão nesse estado, então eles estão na ordem inversa, de que se tratou logo acima (n. 5076).
[3] Os sensuais externos do homem se referem, como foi dito, aos internos, em geral ao intelectual e ao voluntário; é por isso que há sensuais externos que foram sujeitados ou subordinados à parte intelectual do homem, e os há que foram sujeitados à sua parte voluntária; o sensual que foi sujeitado à parte intelectual é principalmente a visão; o que foi sujeitado à parte intelectual e, depois, à parte voluntária é a audição; o que foi a uma e a outra ao mesmo tempo é o olfato, e mais ainda, o paladar; no entanto, o que o foi à parte voluntária é o tato. Que os sensuais externos foram sujeitados a essas partes, pode-se mostrar de muitos modos, e também como o foram, mas seria demasiado longo estender aqui essa explicação; pode-se saber de algum modo pelas coisas que foram demonstradas acerca da correspondência desses sentidos no fim dos capítulos precedentes.
[4] Ademais, deve-se saber que todos os veros que se dizem da fé pertencem à parte intelectual, e que todos os bens que se dizem do amor e da caridade pertencem à parte voluntária; consequentemente, pertence à parte intelectual crer, reconhecer, saber e ver o vero e também o bem; mas pertence à parte voluntária o ser afetado desse vero e desse bem e amá-los, e aquilo pelo que o homem é afetado e que ele ama é o bem. Mas o modo como o intelectual influi no voluntário quando o vero passa ao bem, e como o voluntário influi no intelectual quando ele age, pertence, entretanto, a investigações muito elevadas, a respeito das quais, na sequência, pela Divina Misericórdia do Senhor, se tratará.
[5] Que o ‘copeiro’ seja o sensual que foi sujeitado, ou subordinado, à parte intelectual do homem interno, é porque tudo que serve para beber ou tudo que é apresentado para beber, como o vinho, o leite, a água, se refere ao vero, que é a parte intelectual, assim, para a parte intelectual; e porque é o sensual externo, ou do corpo, que serve administrando [subministra], por isso pelo copeiro é significado esse sensual, ou essa parte das coisas que pertencem aos sentidos. (Que se predique, em geral, ‘dar de beber’ e ‘beber’, dos veros, que pertencem à parte intelectual, foi visto, n. 3069, 3071, 3772, 4017, 4018; que, pois, em específico seja o vero que provém do bem, ou a fé que provém da caridade, n. 1071, 1798; e que a água seja o vero, n. 680, 2702, 3058, 3424, 4976.) A partir destas explicações, pode-se ver agora o que é o ‘copeiro’.