Texto
. ‘Na casa do líder dos guardas’; que signifique pelas coisas que são as principais para a interpretação, vê-se pela significação do ‘líder dos guardas’, que são as principaiscoisas para a interpretação (n. 4790, 4966); aqui, portanto, que os sensuais de um e outro gênero foram rejeitados pelas coisas que são as principais para a interpretação, a saber, as que pertencem à Palavra quanto ao sentido interno, as quais então são ditas rejeitadas quando não se tem fé nelas para tais coisas. Com efeito, os sensuais495 e as coisas que entram imediatamente pelos sensuais no pensamento são falácias; todas as falácias que reinam no homem provêm daí. É por causa dessas falácias que poucos creem nos veros da fé e que o homem natural é contra o espiritual, isto é, o homem externo contra o interno. É por isso que, se o homem natural, ou externo, começa a dominar sobre o espiritual, ou interno, não se crê mais em nada das coisas que pertencem à fé, pois as falácias lançam sombra e as cobiças sufocam496.
[2] Como poucos sabem o que são as falácias dos sentidos, e poucos creem que elas induzem tamanha sombra sobre as coisas racionais, e muitíssimo sobre as coisas espirituais da fé, a ponto de extingui-las, principalmente quando o homem está ao mesmo tempo no prazer das cobiças proveniente do amor de si e do mundo, permite-se esclarecer esse assunto por exemplos: Primeiro, dizendo o que são as falácias meramente naturais dos sentidos, ou nas coisas que estão na natureza; em seguida, falando a respeito das falácias dos sentidos nas coisas espirituais. (i.) Uma falácia do sentido meramente natural, ou que está na natureza, é crer que o Sol é transportado uma vez a cada dia ao redor desta Terra, e, ao mesmo tempo, também o céu com todos os astros; e ainda que se diga que não seja crível porque é impossível que um tão grande oceano de fogo, qual é o Sol, e não só o Sol, mas também, alternadamente, inumeráveis astros sem nenhuma mudança de lugar por si para qualquer parte, uma vez que no dia fazem uma circunvolução; e se é acrescentado que pelos planetas se pode ver que a Terra faz um movimento diurno de rotação e um movimento anual de translação, pelo fato de que os planetas são também terras e até mesmo têm ao redor de sitambém luas, e que se tem observado que eles igualmente a nossa terra têm tais movimentos, a saber, façam movimentos diários e anuais, todavia, ainda assim em várias pessoas a falácia do sentido obstina que seja assim conforme o olho vê.
[3] (ii.) Uma falácia do sentido meramente natural, ou na natureza, é que exista somente uma única atmosfera, e seja apenas sucessivamente mais pura em partes, e que onde ela termina haja o vácuo; o sensual externo do homem não apreende outra coisa quando só ele é consultado. (iii.) Uma falácia do sentido meramente natural é que desde a primeira criação foi impressa nas sementes a qualidade de crescer em árvores e flores e de se proliferar, e que daí todas as coisas têm a sua existência e subsistência; e se lhes é dito que coisa alguma pode substituir exceto se existir perpetuamente, segundo a máxima de que “a subsistência seja uma perpétua existência”, e de que “tudo que não estiver ligado por um anterior a si caia no nada”, ainda assim o sensual do corpo e o pensamento proveniente desse sensual não compreendem isso, nem que todas e cada uma das coisas subsistem do mesmo modo pelo qual elas vieram a existir, por meio do influxo procedente do mundo espiritual, isto é, por meio do mundo espiritual desde o Divino.
[4] (iv.) Uma falácia do sentido meramente natural e proveniente da precedente, é que há substâncias simples, que são mônadas e átomos; pois tudo que está por dentro do sensual externo, isto o homem natural crê que seja uma substância simples, ou que nada é. (v.) Uma falácia do sentido meramente natural, é que todas coisas pertencem à natureza e provêm da natureza, e que na realidade em uma natureza mais pura ou mais interior há alguma coisa que não é compreendida; mas se se diz que por dentro ou acima da natureza há o espiritual e o celeste, isso é rejeitado, e crê-se que a não ser que isto seja natural, que nada seja. (vi.) Uma falácia do sentido, é que somente o corpo vive, e que a vida dele pereça quando se morre; o sensual não compreende absolutamente que o homem interno está em cada uma das coisas do homem externo, e que esse homem está por dentro da natureza, no mundo espiritual; daí, porque não compreende, não crê que há de viver após a morte exceto se for revestido novamente por um corpo (n. 5078, 5079).
[5] (vii.) Uma falácia do sentido daí proveniente é que o homem, depois da morte, não pode viver mais do que os animais por esta causa, porque estes também têm uma vida, em muitos [aspectos], semelhante à vida do homem, somente [com esta diferença], que o homem seja um animal mais perfeito; o sensual, isto é, o homem que pensa e conclui a partir do sensual, não compreende que o homem está acima das bestas e tenha uma vida superior nisto: que ele pode pensar não apenas a respeito das causas das coisas, mas também a respeito do Divino, e ser conjungido ao Divino por meio da fé e do amor, bem como receber o influxo que daí provém e apropriá-lo a si, assim, que no homem, porque há o recíproco, há a recepção, o que não acontece de modo algum com as bestas.
[6] (viii.) É uma falácia daí proveniente que o vivo mesmo no homem, que se chama alma, é somente uma sorte de éter ou de chama, que se dissipa quando o homem morre, e que ela reside ou no coração ou no cérebro, ou em alguma parte do cérebro, e que daí ela governa o corpo como uma máquina; o homem sensual não compreende que o homem interno está em cada uma das coisas do homem externo, que os olhos não vejam por si mesmos, mas pelo interno, nem o ouvido ouça por si mesmo, mas pelo interno. (ix.) É uma falácia do sentido, que não possa existir luz senão a partir do sol ou do fogo elementar, nem de outra fonte o calor senão dali; o sensual não compreende que há uma luz em que está a inteligência, e um calor em que está o amor celeste, nem que nessa luz e nesse calor estão todos os anjos. (x.) É uma falácia do sentido, que o homem creia viver por si próprio, ou que a vida lhe tenha sido introduzida, pois diante do sensual não se mostra outra coisa; o sensual não compreende de modo algum que só o Divino é quem tem vida por Si mesmo, e assim, que há uma única vida, e que as vidas no mundo sejam apenas formas recipientes (n. 1954, 2706, 2886–28891 2893, 3001, 3337, 3338, 3484, 3742, 3743, 4151, 4249, 4318, 4319, 4320, 4417, 4523, 4524, 4882).
[7] (xi.) O homem sensual, a partir da falácia, crê que os adultérios são lícitos, pois conclui, a partir do sensual, que os casamentos são apenas para a ordem por causa da educação dos filhos, e se essa ordem não fosse destruída, seria indiferente de quem procederiam os filhos; depois, que o conjugal seja uma coisa lasciva como qualquer outra, mas consentida; assim também, que não seria contra a ordem ter várias esposas se o mundo cristão não o proibisse em razão da Escritura Santa. Se lhes for dito que há uma correspondência entre o casamento celeste e os casamentos nas terras, que não se pode ter em si nenhum conjugal, exceto se se estiver no vero e bem espiritual, então, que o genuíno conjugal não pode de forma alguma existir entre um marido e várias esposas, e daí, que os casamentos sejam em si mesmos santos; estas coisas o homem sensual rejeita como não sendo nada. (xii.) É uma falácia do sentido, que o Reino do Senhor, ou o céu, seja qual um reino terrestre nisto, que o regozijo e a felicidade ali seja que um é maior do que outro e, daí, esteja na glória mais do que o outro. De fato, o sensual não compreende de modo algum o que se entende por ‘o menor é o maior’, ou ‘o último é o primeiro’. Se lhes for dito que o regozijo no céu, ou para os anjos, seja servir aos outros fazendo-lhes bem, sem nenhuma reflexão acerca de mérito e retribuição, isto sobrevém como uma coisa triste ao homem sensual. (xiii.) É uma falácia do sentido, que as boas obras são meritórias e que fazer o bem a outrem por causa de si próprio seja uma boa obra. (xiv.) E também é uma falácia do sentido, que o homem seja salvo somente pela fé, e que a fé possa existir em quem não há caridade, depois, que depois da morte é a fé que permanece, não a vida. É semelhante em diversas outras coisas; é por isso que, quando o sensual domina no homem, então o racional iluminado pelo Divino nada vê, ele está em uma densa escuridão, e então crê que tudo aquilo que se conclui a partir do sensual seja racional.