. ‘E eis uma vide diante de mim’; que signifique o intelectual, vê-se pela significação da ‘vide’, que é o intelectual que pertence à igreja espiritual, de que se seguirá tratando. Como pelo ‘copeiro’ é significado o sensual submetido à parte intelectual, e aqui se trata do influxo do intelectual no sensual que lhe foi subordinado, por isso no sonho apareceu uma vide com os sarmentos, a flor, os cachos e as uvas, por meio dos quais se descreve o influxo e o renascimento desse sensual. Quanto ao que diz respeito ao intelectual da igreja espiritual, deve-se saber que na Palavra, onde se trata dessa igreja, aqui e ali também se trata do intelectual dela, e isso por essa causa, porque é a parte intelectual que, no homem dessa igreja, é regenerada e se torna igreja. [2] Com efeito, há em geral duas igrejas, a saber, a celeste e a espiritual; a igreja celeste está no homem que, quanto à parte voluntária, pode ser regenerado ou tornar-se igreja, mas a igreja espiritual está no homem que pode, como foi dito, somente ser regenerado quanto à parte intelectual. A Antiguíssima Igreja, que existia antes do dilúvio, foi celeste porque nos que a compunham havia, na parte voluntária, alguma coisa de íntegro; mas a Antiga Igreja, que existiu depois do dilúvio, foi espiritual porque nos que a compunham não havia coisa alguma de íntegro na parte voluntária, mas sim na parte intelectual. Daí vem então que, na Palavra, onde se trata da igreja espiritual, trata-se também, em parte, do intelectual dela. (A respeito dessas afirmações, ver os n. 640, 641, 765, 863, 875, 895, 927, 928, 1023, 1043, 1044, 1555, 2124, 2256, 2669, 4328, 4493.) Que a parte intelectual seja regenerada nos que são da igreja espiritual, pode-se ver também a partir disso, que o homem dessa igreja não tenha nenhuma percepção do vero a partir do bem, conforme a tiveram os que eram da igreja celeste; mas ele deve primeiro aprender o vero que pertence à fé e imbuir [dele] o intelectual, e assim, a partir do vero, conhecer o que é o bem; e depois que daí o tiver conhecido, ele o pode pensar, em seguida querer e, por fim, fazer; e então uma nova vontade é formada nele pelo Senhor na parte intelectual. Por esta nova vontade o homem espiritual é elevado ao céu pelo Senhor, o mal ainda assim permanecendo na vontade própria dele, vontade que então é miraculosamente separada; e isso por uma força superior pela qual ele é mantido afastado detido do mal e mantido no bem. [3] Por sua vez, o homem da igreja celeste foi regenerado quanto à parte voluntária, imbuindo desde a infância o bem da caridade, e quando ele tinha adquirido a percepção dele, era conduzido à percepção do amor ao Senhor; daí todos os veros da fé lhe apareciam no intelectual como em um espelho. Com ele o entendimento e a vontade faziam absolutamente uma única mente, pois por eles era percebido no entendimento o que estava na vontade; nisso consistia a integridade do primeiro homem, pelo qual é significada a igreja celeste. [4] Que a ‘vide’ seja o intelectual da igreja espiritual, vê-se pela Palavra em diversos lugares, como em Jeremias: “O que tens com o caminho do Egito para que bebas as águas do Shihor? Ou o que tens com o caminho da Assíria para que bebas as águas do rio? [...] contudo, Eu plantara-te [como] vide toda nobre, semente de verdade; como pois Me foste convertidaem galhos degenerados de uma vide estrangeira? (2:18, 21); trata-se aí de Israel, por quem é significada a igreja espiritual (n. 3654, 4286); o ‘Egito’ e as ‘águas do Shihor’ estão pelos conhecimentos que pervertem (n. 1164, 1165, 1186, 1462); a ‘Assíria’ e as ‘águas do rio’ estão pelo raciocínio proveniente desses conhecimentos contra o bem da vida e o vero da fé (n. 119, 1186); a ‘vide nobre’ está pelo homem da igreja espiritual, que é dito vide pelo intelectual; os sarmentos degenerados de uma vide estrangeira estão pelo homem da igreja pervertida. [5] Em Ezequiel: “Enigma e parábola a respeito da casa de Israel: ...A águia grande... tomou da semente da terra e pôs num campo de semente,... germinou, e foi feita em vide luxuriante, humilde de estatura; de sorte que os galhos delaretornavam para ela, e as raízes dela estavam sob ela; assim se fez em uma vide que produziu galhos, e estendeu os sarmentos... à águia; essa vide dobrou suas raízes e estendia os seus galhos para ela;... em um campo bom, perto de muitas águas; ela foi plantada para produzir ramagem,... para que fosse em vide de magnificência” (17:2, 3, 58); a ‘águia’ está no lugar do racional (n. 3901); a ‘semente da terra’ está no do vero da igreja (n. 1025, 1447, 1610, 1940, 2848, 3038, 3310, 3373); que ‘foi feita em vide luxuriante e em vide de magnificência’ está no lugar de foi feita em igreja espiritual, que é chamada ‘vide’ por causa do vinho que daí provém, o qual significa o bem espiritual ou o bem da caridade, do qual provém o vero da fé implantado na parte intelectual. [6] No mesmo: “A tua mãe, assim como uma vide em tua semelhança, plantada junto das águas, frutífera e ramosa se tornou pelas muitas águas; donde teve varas de força para os cetros dos que dominam; e elevou-se a sua estatura acima entre os ramos entrelaçados, de sorte que apareceu por sua altura na multidão dos ramos” (Ez. 19:10, 11); aí se trata também de Israel, por quem a igreja espiritual é significada, a qual é comparada a uma vide por uma causa semelhante a de que se tratou logo acima; descrevem-se aí as suas derivações até as últimas no homem natural, a saber, até os conhecimentos provenientes dos sensuais, que são os galhos entrelaçados (n. 2831). [7] Em Oseias: “Eu [serei] como um orvalho a Israel; estender-se-ão ramos dele, e será como a da oliveira a sua honra, e essa honra como a do Líbano; voltarão os habitantes à sombra dele, vivificarão o grão, e florescerão como a vide; a sua memória como vinho do Líbano; Efraim [dirá]: Que tenho Eu mais com os ídolos?” (14:69 [Em JFA, 14:58]); ‘Israel’ está pela igreja espiritual, cujo estado florescente é comparado à ‘vide’, e a memória, ao ‘vinho do Líbano’, proveniente do bem da fé implantado no intelectual; ‘Efraim’ é o intelectual da igreja espiritual (n. 3969). [8] Em Zacarias: “As relíquias do povo,... semente de paz, a vide dará o seu fruto, e a terra dará a produção, e os céus darão o seu orvalho” (8:11, 12); as ‘relíquias do povo’ [ou restos do povo] estão pelos veros escondidos pelo Senhor no homem interior (n. 468, 530, 560, 561, 660, 798, 1050, 1738, 1906, 2284); a ‘semente de paz’ está pelo bem que aí está; a ‘vide’ está pelo intelectual. [9] Em Malaquias: “Repreenderei por causa de vós o que devora, para que não vos corrompa o fruto da terra, nem estéril ser-vos-á a vide no campo” (3:11, 12); a ‘vide’ está pelo intelectual; da vide se diz não ser estéril quando o intelectual não é privado dos veros e bens da fé; mas, ao contrário, se diz vide vazia quando há aí os falsos e, daí, os males. Em Oseias: “Vide vazia [é] Israel498; faz o fruto semelhante a si” (10:1). [10] Em Moisés: “Amarrará à vide o seu jumento filhote, e à vide nobre o filho da sua jumenta, depois que tiver lavado no vinho a sua veste, e no sangue das uvas o seu véu” (Gn. 49:11); é a profecia de Jacó, então Israel, a respeito dos doze filhos, ali de Judá, por quem é representado o Senhor (n. 3881); ali a ‘vide’ está pelo intelectual que pertence à igreja espiritual, e a ‘vide nobre’ está pelo intelectual que pertence à igreja celeste. [11] Em Davi: “Ó JEHOVAH, fizeste caminhar uma vide do Egito; expulsaste as nações, e a plantaste; antes a limpaste, e fizeste tomar raízes as raízes dela, para que enchesse a terra; cobertas foram as montanhas com a sombra dela, e com os ramos os cedros de Deus; estendeste os sarmentos dela até o mar, e ao Eufrates os raminhos dela. [...] Pisa-a o javali da floresta, e a fera dos campos a apascenta” (Sl. 80:912, 14 [Em JFA, 80:811, 13]); a ‘vide do Egito’, no sentido supremo, é o Senhor; a glorificação de Seu Humano é descrita por meio da vide e de seus sarmentos; no sentido interno, a ‘vide’ é ali a igreja espiritual e o homem dessa igreja, tal qual ele é quando, quanto ao intelectual e ao voluntário, se tornou novo ou foi regenerado pelo Senhor; o ‘javali na floresta’ é o falso, a ‘fera dos campos’ é o mal, estes destroem a igreja quanto à fé no Senhor. [12] Em João: “Lançou o Anjo a sua foice na terra, e vindimou a vide da terra, e lançou-a no lagar da grande ira de Deus; pisado foi o lagar fora da cidade, e saiu sangue do lagar até os freios dos cavalos” (Ap. 14:19, 20); ‘vindimar a vide da terra’ está por destruir o intelectual da igreja; é porque pela vide é significado esse intelectual; também se diz que o sangue saiu do lagar até os freios dos cavalos, pelos ‘cavalos’, com efeito, são significadas as coisas intelectuais (n. 2761, 2762, 3217). Em Isaías: “Acontecerá nesse dia, haverá em todo lugar em que estiverem mil vides, por mil [peças] de prata, será em espinheiros e arbustos espinhosos” (7:23). No mesmo: “Serão queimados os habitantes da terra, e será deixado o homem raro; pranteará o mosto e definhará a vide” (Is. 24:6, 7). No mesmo: “Baterão sobre seus peitos por causa dos campos de vinho puro, por causa da vide frutuosa; sobre a terra do meu povo os espinhos e os espinheiros subirá” (Is. 32:12, 13, 14). Nessas passagens se trata da vastação da igreja espiritual quanto ao bem e ao vero da fé, assim, quanto ao intelectual, pois o vero e o bem da fé estão na parte intelectual do homem dessa igreja, como acima se disse. Qualquer um pode ver que aí pela ‘vide’ não se entende uma vide, e pela ‘terra’ não se entende uma terra, mas sim aquilo que é tal que pertence à igreja. [13] Como no sentido genuíno ‘vide’ significa o bem do intelectual, e a ‘figueira’ o bem do natural, ou, o que é o mesmo, a vide o bem do homem interior, e a figueira o bem do homem exterior, é por isso que muitas vezes, na Palavra, onde se menciona a vide, a figueira também o é, como nestas passagens: Em Jeremias: “Consumindo consumi-lo-ei; ... não [há] uvas na vide, nem figo na figueira, e a folha decaiu” (8:13); no mesmo: “Eu trarei sobre vós, ó casa de Israel,uma nação de longe, que comerá a tua vide e a tua figueira” (Jr. 5:15, 17). Em Oseias: “Devastarei a sua vide e a sua figueira” (2:12). Em Joel: “Uma nação subiu sobre a terra, ... reduziu minha vide à vastação, e a minha figueira à espuma; denudando desnudou-a, e lançou, puseram em branco os galhos dela; a vide secou, e a figueira definhou” (1:6, 7, 12). No mesmo: “Não temais, bestas dos meus campos, porque herbosos se fizeram os habitáculos do deserto; porque a árvore fez o seu fruto, e a figueira e a vide darão a sua força” (Jl. 2:22, 23). Em Davi: “Feriu a vide deles, e a figueira deles, e quebrou a árvore do limite deles” (Sl. 105:33). Em Habacuque: “A figueira não florescerá, nem [há] provento nas vides” (3:17). Em Miqueias: “De Sião sairá a doutrina, e a palavra de JEHOVAH, de Jerusalém; assentar-se-ão cada um sob sua vide e sob sua figueira; e ninguém [os] amedrontará” (4:2, 4). Em Zacarias: “Nesse dia, clamareis, o varão ao seu companheiro sob a vide e sob a figueira” (3:10). No Primeiro Livro dos Reis: “No tempo de Salomão houve paz por todas as passagens dos arredores, e habitavam Judá e Israel em confiança, cada um sob sua vide e sob sua figueira” (5:4, 5 [Em JFA, 4:24, 25]); que a ‘figueira’ seja o bem do homem natural ou exterior, foi visto (n. 217). [14] Que a ‘vide’ seja o intelectual novo ou regenerado pelo bem proveniente do vero e pelo vero proveniente do bem, vê-se pelas palavras do Senhor aos discípulos, depois que Ele instituiu a Santa Ceia, em Mateus: “Digo-vos, que não beberei, desde agora, deste produto da vide, até esse dia, quando o beberei convosco de novo no Reino de Meu Pai” (26:29); o bem proveniente do vero e o vero proveniente do bem, pelos quais o intelectual se torna novo, ou seja, o homem se torna espiritual, são significados pelo ‘produto da vide’; a apropriação dele é significada por ‘beber’. (Que ‘beber’ seja apropriar-se, e que se predique do vero, ver n. 3168). Que isto não se faça plenamente senão na outra vida, é significado por ‘até esse dia quando o beberei convosco de novo no Reino de Meu Pai’; que pelo ‘produto da vide’ se entende não o mosto nem o vinho, mas alguma coisa de celeste que pertence ao Reino do Senhor, é evidentemente claro. [15] Como o intelectual do homem espiritual se torna novo e é regenerado por meio do vero que procede unicamente do Senhor, por isso o Senhor se compara à Vide, e aqueles que são implantados no vero, que procede d’Ele, consequentemente n’Ele, Ele os compara aos galhos [ou ramos], e o bem que daí provém, ao fruto, em João: “[Eu] sou a Videira verdadeira, e o Meu Pai [é] o Vinhateiro. Todo ramo em Mim [que] não produz fruto, tira-o; mas todo [ramo] que produz fruto, limpa-o, para que dê mais frutos. [...] Permanecei em Mim, também Eu em vós, do mesmo modo como o ramo não pode produzir fruto por si mesmo, a não ser que permaneça na Vide, assim nem vós, a não ser que permaneçais em Mim. Eu sou a Videira, vós, os ramos; quem permanece em Mim, e Eu nele, este produz muito fruto, porque sem Mim não podeis fazer coisa alguma. [...] Este [é] o Meu mandamento: Que vos ameis mutuamente, assim como vos amei” (15:1, 2, 3, 4, 5, 12). [16] Como a vide, no sentido supremo, significa o Senhor quanto ao Divino Vero, e, por isso, no sentido interno, o homem da igreja espiritual, é por isso que a ‘vinha’ significa a igreja espiritual mesma (n. 1069, 3220). Como o nazireu representava o homem celeste e esse homem é regenerado pelo bem do amor, mas não por meio do vero da fé como o homem espiritual, consequentemente, o homem celeste não é regenerado quanto ao intelectual, mas quanto ao voluntário, como acima foi dito, é por isso que foi proibido ao nazireu ‘comer qualquer coisa que viesse da vide, assim, nem beber vinho [podia]’ (Nm. 6:3, 4; Jz. 13:14); a partir disto também se vê que pela vide é significado o intelectual que pertence ao homem espiritual, como se demonstrou. [17] Que o nazireu tenha representado o homem celeste, foi visto (n. 3301); daí também se pode ver que de modo algum se pode saber por que foi proibido ao nazireu tudo que viesse da vide, além de várias outras coisas que lhe diziam respeito, a não ser que se saiba o que significa a vide no sentido próprio, depois, a não ser que se saiba que há uma igreja celeste e uma igreja espiritual, e que o homem da igreja celeste é regenerado de modo diferente do homem da igreja espiritual; aquele, por uma semente implantada na parte voluntária, este, por uma semente implantada na parte intelectual. Tais arcanos foram escondidos no sentido interno da Palavra.