. ‘E dei a taça na palma [da mão] do faraó’; que signifique a apropriação pelo natural interior, vê-se pela significação de ‘dar a taça’, assim, dar vinho a beber, que é apropriar (que ‘beber’ seja a apropriação do vero, ver n. 3168); e pela representação do ‘faraó’, que é o natural interior (n. 5080, 5095, 5118). Aqui, assim como é evidente pelo que precede, trata-se da regeneração do sensual sujeitado à parte intelectual do homem interior, que é significado pelo ‘copeiro’; consequentemente, trata-se do influxo do vero e do bem e da recepção no natural exterior; como, porém, essas coisas estão muito afastadas da compreensão daqueles que não têm ideia alguma distinta a respeito do racional e do natural, nem nenhuma acerca do influxo, é por isso que uma explicação ulterior deve ser suspensa. [2] Além disso, na Palavra, menciona-se muitas vezes a ‘taça’ (ou copo, ou cálice)502, e por ela é significado, no sentido genuíno, o vero espiritual, isto é, o vero da fé que procede do bem da caridade, semelhantemente ao que pelo ‘vinho’; e no sentido oposto, eles significam o falso por meio do qual se produz o mal, e também o falso proveniente do mal. Que a ‘taça’ signifique semelhantemente o que o ‘vinho’, é porque a ‘taça’ é o que contém, e o ‘vinho’ o que está contido; e, daí, constituem uma só coisa, e assim um é entendido pelo outro. [3] Que sejam essas as coisas que são significadas pela ‘taça’ na Palavra, é evidente nestas passagens: Em Davi: “JEHOVAH, disporás diante de mim a mesa na presença dos inimigos, e ungirás503 com óleo a minha cabeça, a minha taça transbordará” (Sl. 23:5); ‘dispor a mesa’ e ‘ungir com óleo a cabeça’ é dotar do bem da caridade e do amor; ‘meu copo transbordará’ está em lugar de que o natural será cheio do vero e do bem espirituais que daí provirão. No mesmo: “O que devolverei a JEHOVAH? ...Tomarei a taça das salvações, e invocarei o Nome de JEHOVAH” (Sl. 116:12, 13); ‘tomar a taça das salvações’ está pela apropriação dos bens da fé. [4] Em Marcos: “Quem vos der de beber um copo d’água em Meu Nome por isto, que sois do Cristo, amém vos digo: Não perderá a sua recompensa” (9:41); ‘dar de beber um copo d’água em Meu Nome’ está por instruir nos veros da fé a partir de uma muito fraca caridade. [5] Em Mateus: “Logo depois, tomando o copo, e dando graças, deu-lhes, dizendo: Bebei dele todos, pois este é o Meu sangue, ele [é] do Novo Testamento504” (26:27, 28; Mc. 14:23, 24; Lc. 22:20); diz-se o ‘copo’, não o vinho, porque o ‘vinho’ é predicado da igreja espiritual, o sangue porém, da igreja celeste, ainda que um e o outro signifiquem o santo vero procedente do Senhor; mas na igreja espiritual é o santo da fé oriundo da caridade para com o próximo; porém, na igreja celeste é o santo da caridade proveniente do amor ao Senhor. A igreja espiritual se distingue da igreja celeste nisto, que ela está na caridade para com o próximo, esta por sua vez está no amor ao Senhor; e a Santa Ceia foi instituída para que representasse e significasse o amor do Senhor para com todo o gênero humano, e o [amor] recíproco do homem para com Ele. [6] Como pelo copo, ou taça, era significado aquilo que devia conter, e pelo vinho aquilo que devia ser contido, consequentemente, pelo ‘copo’, o externo do homem, e pelo ‘vinho’, o seu interno, por isso foi dito pelo Senhor: “Ai de vós escribas e fariseus, hipócritas, porque limpais o exterior do copo e do prato, os interiores, porém, estão cheios de rapina e intemperança. Fariseu cego, limpa primeiro o interior do copo e do prato, e se tornará também limpo o exterior” (Mt. 23:25, 26; Lc. 11:39); pelo ‘copo’ aqui também se entende, no sentido interno, o vero da fé; cultivá-lo sem o bem dele é ‘limpar o exterior do copo’, e ainda mais quando os interiores estão repletos de hipocrisia, dolo, ódio, vingança, crueldade, pois então o vero da fé está somente no homem externo, e nada há absolutamente desse vero no homem interno; e cultivar e imbuir-se do bem da fé faz com que os veros sejam conjungidos ao bem no homem exterior, então mesmo as falácias são aceitas como veros, o que é significado por ‘limpar primeiramente o interior do copo, e o exterior também se torna limpo’. [7] Semelhantemente estas palavras em Marcos: “[...] Muitas outras coisas há que os fariseus e os judeus receberam para manter: batizamentos de copos, e de potes, e de vasos de bronze e de leitos. [...] rebaixando o mandamento de Deus, retendes a tradição dos homens, batismos de potes e de copos, e fazeis muitas outras coisas semelhantes. ... repudiais o mandamento de Deus para manterdes a vossa tradição” (7:4, 8, 9). [8] Que pelo ‘copo’, ou taça, no sentido oposto, seja significado o falso do qual provém o mal, depois o falso que provém do mal, vê-se pelas passagens seguintes: Em Jeremias: “Assim me disse JEHOVAH, Deus de Israel: Toma esta taça do vinho da ira da Minha mão e faz beber dele todas as nações a que Eu te envio, para que bebam e titubeiem e enlouqueçam por causa da espada que Eu hei de enviar entre eles. Tomei, pois, a taça da mão de JEHOVAH, e fiz beber todas as nações a que JEHOVAH me enviou” (25:15, 16, 17, 28); a ‘taça do vinho da ira’ está pelo falso pelo qual há o mal. Que o falso pelo qual há o mal seja significado, é porque do mesmo modo que o vinho inebria e faz insensato, assim também o falso; a embriaguez espiritual não é outra coisa senão a insensatez induzida por meio dos raciocínios a respeito das coisas que se deve crer quando não se crê em nada que não se compreende; daí vêm os falsos e, provenientes dos falsos, os males (n. 1072), razão por que se diz “para que bebam e titubeiem e enlouqueçam por causa da espada que hei de enviar”. A ‘espada’ é o falso combatendo contra o vero (n. 2799, 4499). [9] No Livro das Lamentações: “Regozija-te e alegra-te, filha de Edom, que habita na terra de Uz, também a ti passará a taça, tu [te] inebriarás e [te] revelarás” (4:21); ‘inebriar-se da taça’ está no lugar de tornar-se insensato pelos falsos; ‘revelar-se’ (ou ‘ficar nu sem pudor’) está pelo mal que daí provém (n. 213, 214). [10] Em Ezequiel: “Andaste no caminho da tua irmã, por isso porei a sua taça na tua mão. Assim disse o Senhor JEHOVIH: A taça da tua irmã beberás, profundo e largo serás em riso e zombaria, ampla para pegar, serás cheia de ebriedade e de dor, pela taça de devastação e desolação, a taça da tua irmã Samaria, e beberás, e espremerás, e os seus cacos despedaçarás” (23:31, 32, 34). Trata-se de Jerusalém, pela qual é significado o espiritual da igreja celeste; a ‘taça’ ali está pelo falso proveniente do mal; este, porque devasta e destrói a igreja, é dito ‘taça de devastação e desolação’. Em Isaías: “Desperta-te, desperta-te, levanta-te, ó Jerusalém, que bebeste da mão de JEHOVAHa taça da ira d’Ele; bebeste as fezes da taça da trepidação” (51:17). Em Habacuque: “Bebe também tu, para que o teu prepúcio se revele; voltará a ti a taça da direita de JEHOVAH, para que [haja] um vômito ignominioso sobre a tua glória” (2:16). Em Davi: “A taça [está] na mão de JEHOVAH; e ao vinho misturou, e encheu-o com uma mistura, e derramou daí; mas sugarão as suas fezes, todos os ímpios da terra beberão” (Sl. 75:9 [Em JFA, 75:8]). [11] A ‘taça’, também nessas passagens, é tomada pela insensatez proveniente dos falsos e dos males deles procedentes; ela é chamada ‘taça da ira de JEHOVAH’, e também ‘[taça] da direita de JEHOVAH’, por essa causa, porque a nação judaica, como também a plebe, não acreditara virem os males e as penas dos males e dos falsos senão de JEHOVAH, quando na realidade eles vêm do homem e da turba infernal junto a ele; da aparência e da fé que daí resulta, isso é assim dito muitas vezes, mas o sentido interno ensina como se deve entender e o que se deve crer (a respeito disso, ver os n. 245, 592, 696, 1093, 1683, 1874, 1875, 2335, 2447, 3605, 3607, 3614). [12] Como pelo ‘copo’, do mesmo modo que pelo ‘vinho’, é significado, no sentido oposto, os falsos pelos quais há os males, depois os falsos provenientes dos males, daí resulta também que pelo ‘copo’ é significada a tentação, porque há tentação quando o falso combate contra o vero e, daí, o mal combate contra o bem. O ‘copo’ está no lugar da tentação e diz respeito a ela em Lucas: “Jesus orou, dizendo: Se quiseres, que passe este copo de Mim; contudo, não se faça a Minha vontade, mas a Tua” (22:42; Mt. 26:39, 42, 44; Mc. 14:36); o ‘copo’, aqui, está pela tentação; semelhantemente em João: “Disse Jesus a Pedro: Põe a espada na bainha; não beberei o copo que o Pai Me deu?” (18:11); e também em Marcos: “Jesus disse a Tiago e a João: Não sabeis o que pedis. Podeis beber [do] copo que Eu bebo, e do batismo que Eu sou batizado serdes batizados? Disseram: Podemos. Mas Jesus lhes disse: [Do] copo que Eu bebo bebereis, é verdade, e do batismo de que Eu sou batizado sereis batizados” (10:38, 39; Mt. 20:22, 23); daí é evidente que o ‘copo’ é a tentação, porque ela existe pelos males que combatem, por meio dos falsos, contra os bens e os veros, pois o ‘batismo’ significa a regeneração, que porque é operada por meio de combates espirituais, daí vem que por ele é significada, ao mesmo tempo, a tentação. [13] O ‘copo’, ou ‘taça’, no sentido inteiramente oposto significa o falso oriundo do mal naqueles que são profanos, isto é, que estão interiormente nas coisas contrárias à caridade e mentem exteriormente a santidade; sentido em que se diz, em Jeremias: “Uma taça de ouro [foi] Babel na mão de JEHOVAH, inebriando toda a terra; do vinho dela beberam todas as nações, por isso as nações [tornaram-se] insensatas” (51:7); ‘Babel’ está no lugar daqueles que estão no [estado] santo externo e no profano por dentro (n. 1182, 1326); o falso que eles encobrem pela santidade é a ‘taça de ouro’; ‘inebriando toda a terra’ está por que eles conduzem nos erros e nas insensatezes aqueles que são da igreja, que é a ‘terra’. As coisas profanas que eles escondem sob uma santidade externa consistem em que não intentem nenhuma outra coisa senão que se tornem os maiores e os mais opulentos de todos, e em querer serem adorados como deuses possuidores do céu e da terra, dominando assim sobre as almas e os corpos dos homens, e isso por meio das coisas Divinas e santas que eles põem na frente. Daí eles aparecem, quanto ao homem externo, como anjos, mas quanto ao homem interno são diabos. [14] Trata-se de Babel de um modo semelhante em João: “Estava a mulher vestida de púrpura e de escarlate, e coberta de ouro, e de pedras preciosas e de pérolas, tendo uma taça de ouro em sua mão, cheia das abominações e da imundície da sua escortação” (Ap. 17:4). No mesmo: “Caiu, caiu, a grande Babilônia, e tornou-se o habitáculo dos demônios, ... porque do vinho do furor das suas escortações deu de beber a todas as nações, e os reis da terra com ela escortaram. ... Ouvi uma voz do céu dizendo: Retorne a ela do mesmo modo como ela vos tem dado; ... na taça em que misturou, misturai-lhe o dobro” (Ap. 18:2, 3, 4, 6). No mesmo: “Partiu-se agrande cidade em três partes, e as cidades das nações desabaram; de Babilônia, a grande, fez-se memória perante Deus, para lhe dar o copo do furor da ira de Deus” (Ap. 16:19). No mesmo: “O terceiro Anjo disse com voz grande: Se alguém adora a besta e a imagem dela, esse beberá do vinho da ira de Deus misturado ao vinho puro na taça da ira d’Ele, e será atormentado de fogo e de enxofre” (Ap. 14:9, 10).