. ‘Furados sobre a minha cabeça’; que signifique sem terminação em parte alguma no meio, vê-se pela significação de ‘furados’, que é o que está aberto de alto a baixo, assim, o não fechado, por conseguinte, sem terminação em parte alguma no meio; e pela significação da ‘cabeça’, que são os interiores, principalmente os dos voluntários. Com efeito, na cabeça estão todas as substâncias e formas em seus princípios, é por isso que para ali tendem e ali se apresentam todas as sensações, e daí descem e derivam as ações. Que as faculdades da mente ali estejam, a saber, as que pertencem ao entendimento e à vontade, é evidente; é por isso que pela ‘cabeça’ são significados os interiores. Esses cestos representavam essas coisas que estão na cabeça. [2] Trata-se aqui agora dos sensuais sujeitados à parte voluntária, e pelos ‘cestos furados sobre a cabeça’ é significado que os interiores estavam sem terminação em parte alguma no meio, é também por esse motivo que esses sensuais foram rejeitados e danados, como se segue. Mas deve-se dizer o que se entende por ‘sem terminação em parte alguma no meio’: Os interiores no homem estão distintos em graus e terminam em cada grau, e pela terminação eles são separados do grau inferior, assim, desde o íntimo até o mais externo. O racional interior constitui o primeiro grau; nele estão os anjos celestes, ou nele está o céu íntimo ou terceiro; o racional exterior faz o segundo grau, nele estão os anjos espirituais, ou nele está o céu médio ou segundo; o natural interior faz o terceiro grau, nele estão os bons espíritos ou o último ou primeiro céu; o natural exterior ou o sensual faz o quarto grau, nele está o homem. Esses graus no homem são muitíssimo distintos. [3] Daí vem que o homem, quanto aos interiores, se ele vive no bem, é o céu em uma mínima forma, ou, que os seus interiores correspondem aos três céus. E daí vem que o homem, depois da morte, se tiver vivido a vida da caridade e do amor, possa ser transportado até o terceiro céu; mas, para que ele seja tal, é necessário que todos os graus nele tenham sido bem terminados, e assim tenham sido distinguidos entre si pelas terminações; e quando foram terminados ou, por meio das terminações, distintos entre si, então cada grau é um plano no qual descansa e onde é recebido o bem que influi do Senhor. Sem esses graus como planos o bem não é recebido, mas passa como através de um crivo, ou como através de um cesto furado, até o sensual; e ali, como está sem direção alguma no caminho, ele é convertido numa impureza que se mostra aos que estão nele como um bem, a saber, em um prazer do amor de si e do mundo, consequentemente, em um prazer de ódio, de vingança, de crueldade, de adultério, de avareza, ou em alguma coisa de meramente voluptuoso e luxurioso. É isto o que acontece se os voluntários no homem estão sem terminação em parte alguma no meio, ou se eles estão furados. [4] Pode-se também saber se há terminações e, daí, planos; as percepções do bem e do vero e da consciência o indicam. Naqueles que têm as percepções do bem e do vero — como,por exemplo, os anjos celestes — há terminações desde o primeiro grau até o último; tais percepções não podem existir sem terminações em cada grau. (A respeito dessas percepções, ver os n. 125, 202, 495, 503, 511, 536, 597, 607, 784, 865, 895, 1121, 1383, 1384, 1387, 1919, 2144, 2145, 2171, 2515, 2831). Naqueles que têm a consciência —assim como os anjos espirituais — há também terminações, mas desde o segundo grau, ou desde o terceiro até o último; para eles o primeiro grau está fechado. Diz-se desde o segundo grau, ou o terceiro, porque há uma dupla consciência, uma interior e uma exterior, a consciência interior se refere ao bem e ao vero espirituais, a consciência exterior diz respeito ao justo e ao equitativo; a consciência mesma é o plano interior no qual termina o influxo do Divino Bem. Mas aqueles que não têm consciência, esses não têm nenhum plano interior que receba o influxo; o bem entre eles passa até o natural exterior, ou natural sensual, e ali, como foi dito, ele é vertido em prazeres impuros. Por vezes, parece-lhes que têm uma dor como de consciência, mas não é a consciência, é uma dor proveniente da privação de seu prazer, como da honra, do ganho, da reputação, da vida, das voluptuosidades, da amizade dos que são tais, e isso vem de que as terminações estão em tais prazeres. A partir dessas explicações, pode-se ver o que é significado no sentido espiritual pelos ‘cestos furados’. [5] Na outra vida principalmente há discernimento se no homem os voluntários foram terminados ou não terminados. Naqueles em que os voluntários foram terminados há o zelo pelo bem e vero espiritual, ou pelo justo e equitativo, pois esses fizeram o bem por causa do bem ou por causa do vero, e praticaram o justo por causa do justo ou do equitativo, não por causa do ganho, nem da honra e de motivos semelhantes. Todos aqueles em quem os voluntários interiores foram terminados são elevados ao céu, pois o Divino que influi pode conduzi-los; mas todos aqueles nos quais os voluntários interiores não foram terminados se dirigem ao inferno, pois o Divino passa através e é vertido no infernal, como quando o calor do sol cai sobre excrementos infectos, de onde resulta um fétido insuportável. Consequentemente, todos aqueles que tiveram a consciência são salvos, mas os que não tiveram a consciência não podem ser salvos. [6] Diz-se então que os voluntários estão furados ou não terminados quando não há afeição do bem e do vero, ou do justo e do equitativo, e quando se tem essas coisas como vis ou como relativamente nada, ou quando elas são estimadas somente por causa do ganho ou da honra que se pode obter delas. São as afeições que terminam e que fecham; é também por isso que elas se chamam vínculos: as afeições do bem e do vero, vínculos internos, e as afeições do mal e do falso, vínculos externos (n. 3835). Se as afeições do mal e do falso não fossem vínculos, o homem seria louco (n. 4217), pois as loucuras não são outra coisa senão a dissolução de tais vínculos, assim, as não terminações nos que têm essas afeições; mas porque para estes não há vínculos internos, por isso eles enlouquecem interiormente quanto aos pensamentos e às afeições, que pelas moderações dos vínculos externos, que são as afeições do ganho, da honra, da reputação em vista do ganho e da honra, e daí os temores da lei e da perda da vida, não irrompem. Foi isto representado, na Igreja Judaica, por isso, que “na casa de um morto, todo vaso aberto, sobre a qual abertura não houvesse [por tampa] um panículo, seria imundo” (Nm. 19:15). [7] Semelhante coisa é também significada pelas ‘obras furadas’ em Isaías: “Enrubescerão os que fazem o linho das sedas, e os que tecem obras furadas; e serão os seus fundamentos esmagados, todos os que fazem recompensa pelo lago da alma511” (19:9, 10); e pelos furos, em Ezequiel: “O espírito introduziu o profeta ao portão do átrio, onde viu, quando, eis um furo na parede. E disse-lhe: ...perfura, pois, a parede. E assim perfurou na parede, quando, eis uma entrada. Então disse-lhe: Entra e vê as abominações que eles fazem aqui. Quando entrou e viu, eis toda efigie de réptil e de besta, abominação, e todos os ídolos da casa de Israel pintados sobre a parede ao redor” (seg. 8:7, 8, 9, 10).