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Emanuel Swedenborg
Obra: Arcanos Celestes – Gênesis Explicado

Texto

. ‘[Havia] de toda comida do faraó’; que signifique o pleno do bem celeste para nutrir o natural, vê-se pela significação da ‘comida’, que é o bem celeste, de que se seguirá tratando; e pela representação do ‘faraó’, que é o natural interior (n. 5080, 5095) e, também, o natural no geral, pois o natural interior e o natural exterior fazem um quando correspondem; e porque a comida é para a nutrição, por ‘de toda comida do faraó’ é significado o pleno do bem celeste para nutrição do natural. Diz-se que essa comida estava no cesto mais alto, e por isto é significado que o íntimo do voluntário estava repleto do bem celeste. Com efeito, o bem influi desde o Senhor pelo íntimo do homem, e daí, por degraus como os de uma escada, até os exteriores, porquanto o íntimo está em um estado perfeitíssimo relativamente, é por isso que esse pode receber imediatamente o bem procedente do Senhor. Não é assim com os inferiores. Se os inferiores recebessem o bem procedente do Senhor imediatamente, ou eles o obscureceriam ou o perverteriam, pois são relativamente mais imperfeitos.
[2] Quanto ao que diz respeito ao influxo do bem celeste procedente do Senhor, e à recepção dele, deve-se saber que o voluntário do homem recebe o bem, e o intelectual dele, o vero; e que o intelectual não pode receber o vero de outra forma, de modo que lhe seja apropriado, exceto se o voluntário receber, ao mesmo tempo, o bem; assim, também vice-versa. Com efeito, um influi desse modo no outro e dispõe o outro a receber. Os intelectuais podem ser comparados a formas que variam continuamente, e os voluntários a harmonias resultantes da variação; consequentemente, os veros podem ser comparados a variações, e os bens a prazeres que daí provêm; e porque com os bens e veros eminentemente assim também acontece, pode-se ver que um não poderia existir sem o outro, depois, que um não pode ser produzido senão pelo outro.
[3] Que a ‘comida’ signifique o bem celeste, é porque as comidas dos anjos não são outra coisa senão os bens do amor e da caridade, a partir deles eles não só são vivificados, mas também restabelecidos; esses bens em atos, ou exercícios, são principalmente para eles um restabelecimento, pois são os desejos deles. Sabe-se que estes desejos quando obtidos em ato tornam-se do restabelecimento e da vida. Que tais comidas forneçam a nutrição do espírito do homem, quando as comidas materiais fornecem a nutrição de seu corpo, é também o que se pode ver a partir disto, que as comidas sem os prazeres são pouco proveitosas, mas com os prazeres elas nutrem. São os prazeres que abrem os meatos ou canais que recebem e transportam ao sangue, mas os desprazeres fecham. Esses prazeres nos anjos são os bens do amor e da caridade; que esses bens sejam as comidas espirituais, que correspondem a comidas terrestres, pode-se daí concluir. Assim como as comidas são os bens, do mesmo modo as bebidas são os veros.
[4] Na Palavra, em muitas passagens, as comidas são mencionadas; quem não conhece o sentido interno não pode saber outra coisa senão que ali são entendidas as comidas comuns, mas são as comidas espirituais; por exemplo, em Jeremias:
“Todo o povo [está] gemendo, buscando pão; deram as suas coisas desejáveis por comida, para revigorar a alma” (Lm. 1:11).
Em Isaías:
“[Vós] todos que tendes sede, vinde às águas, e aos que não (têm) prata, ide, comprai e comei; e ide, comprai sem prata e sem preço vinho e leite” (55:1).
Em Joel:
“[Está] próximo o dia de JEHOVAH, e como uma devastação pelo Fulminador virá. Não foi cortada a comida diante dos nossos olhos? e da casa do nosso Deus a alegria e o regozijo? Apodreceram os grãos sob as suas glebas, foram devastados os armazéns, foram destruídos os celeiros, porque se secou o frumento” (1:15, 16, 17).
Em Davi:
“[para que] os nossos armazéns [estejam] cheios, extraindo de comida para comida; os nossos rebanhos [produzirão] milhares, e [tornar-se-ão em] dez milhares nas nossas praças; ..., não [haverá] clamor em nossas ruas. Bem-aventurado o povo ao qual assim [acontece]” (Sl. 144:13, 14, 15).
No mesmo:
“Todos esperam de Ti, que dês a comida deles no seu tempo; dás a eles, [eles] recolhem, abres a Tua mão, [e] fartam-se de bem” (Sl. 104:27, 28).
[5] Nessas passagens a comida celeste e espiritual é entendida quando no sentido da letra há a comida material; daí é evidente o modo como se correspondem os interiores e os exteriores da Palavra, ou as coisas que nela estão que pertencem ao espírito e as que pertencem à letra, para que quando o homem as entender segundo o sentido da letra, os anjos que estão juntodele as compreendam segundo o sentido espiritual. Assim a Palavra foi escrita, para que sirva não apenas ao gênero humano, mas também ao céu, é por isso que todos os vocábulos nela são significativos das coisas celestes, e todas as coisas são representativas delas, e isso até o menor iota.
[6] Que a comida, no sentido espiritual, seja o bem, o Senhor também ensina claramente em João:
“Trabalheis a comida, não a que perece512, mas a comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará” (6:27).
No mesmo:
“A Minha carne é verdadeiramente comida, e o Meu sangue é verdadeiramente bebida” (João, 6:55);
a ‘carne’ é o Divino Bem (n. 3813), e o ‘sangue’ é o Divino Vero, (n. 4735). E no mesmo:
“Jesus disse aos discípulos: Eu tenho uma comida para comer, que vós não conheceis. Diziam os discípulos uns aos outros: Será que alguém Lhe trouxe o que comesse? Disse-lhes Jesus: A Minha comida é que faça a vontade d’Aquele, Que Me enviou e cumpra obra d’Ele” (João, 4:32, 33, 34).
‘Fazer a vontade do Pai e cumprir a Sua obra’ é o Divino Bem em ato ou em exercício, o que, no sentido genuíno, é a comida, como dito acima.

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