Texto
. ‘E o povo clamou ao faraó por pão’; que signifique a necessidadede bem em favor do vero, vê-se pela significação de ‘clamar’, que diz respeito a quem sofre e a quem está no luto, assim, a quem está na necessidade; pela significação do ‘povo’, que é o vero (n. 1259, 1260, 3295, 3581); pela representação do ‘faraó’, que é o natural (n. 5079, 5080, 5095, 5160); e pela significação do ‘pão’, que é o celeste do amor, assim, o bem (n. 276, 680, 2165, 2177, 3464, 3478, 3735, 3813, 4211, 4217, 4735, 4976). Segue daí que por ‘o povo clamou ao faraó por pão’ é significada a necessidade de bem em prol do vero no natural. Este sentido parece, na realidade, afastado do sentido histórico da letra, mas ainda assim, quando aqueles que estão no sentido interno não entendem por ‘clamar’, pelo ‘povo’, por ‘faraó’, pelo ‘pão’, nenhuma outra coisa senão as que acabam de ser ditas, segue-se que daí resulta esse sentido.
[2] É preciso dizer o que vem a ser essa necessidade de bem em prol do vero: O vero carece do bem e o bem carece do vero; quando o vero carece do bem o vero é conjungido ao bem, e quando o bem carece do vero, o bem é conjungido ao vero, pois a conjunção do bem e do vero é recíproca, a saber, do vero com o bem e do bem com o vero, é o casamento celeste. Nos primeiros tempos quando o homem está sendo regenerado, o vero é então multiplicado, mas não acontece o mesmo com o bem; e como então o vero não tem o bem com o qual ele possa ser conjungido, por isso o vero se retira para dentro e é reposto nos interiores do natural, a fim de ser retirado daí segundo os acréscimos do bem. Nesse estado o vero está necessitando do bem, e também segundo o influxo do bem no natural se faz uma conjunção do vero com o bem; mas ainda assim, dessa conjunção não resulta nenhuma frutificação; mas quando o homem foi regenerado, o bem cresce então, e conforme cresce ele está necessitando do vero, e também adquire para si o vero com o qual ele possa ser conjungido; daí a conjunção do bem com o vero. Quando isso acontece, então o vero frutifica a partir do bem e o bem a partir do vero.
[3] Que assim aconteça, é coisa muitíssimo ignorada no mundo, mas conhecidíssima no céu. Porém, se fosse conhecido no mundo, não só pela ciência, mas também pela percepção, o que é o amor celeste ou o amor ao Senhor, e o que é o amor espiritual ou a caridade para com o próximo, também se conheceria o que é o bem, pois todo bem pertence a esses amores; e, além disso, se conheceria que o bem deseja o vero, e o vero, o bem; e que eles são conjungidos segundo o desejo e a qualidade do desejo; isso se manifestaria claramente a partir disso, que quando o vero é pensado, o bem que lhe é adjunto se apresenta junto, e que quando o bem é estimulado, o vero que lhe é adjunto se apresenta junto, um e outro com a afeição, o desejo, o prazer, ou uma santa aspiração [sancto suspirio], e, daí, se conheceria a qualidade da conjunção. Como, porém, não se sabe por sensação interna alguma ou percepção o que é o bem, tais coisas também não podem chegar a cognição, visto que o que se desconhece não é entendido, mesmo que se apresente adiante.
[4] E como se ignora o que é o bem espiritual, a saber, que é a caridade para com o próximo, é por isso que no mundo, principalmente entre os eruditos, se está em controvérsia a respeito do que é o soberano bem [summum bonum]; e dificilmente haverá alguém que diga que é esse prazer, essa satisfação [faustum], essa bem-aventurança e essa felicidade ditos, que são percebidos pelo amor mútuo sem nenhum fim por causa de si nem por causa do mundo, e que fazem o céu mesmo. Sendo assim, é ainda evidente que hoje no mundo não se sabe absolutamente o que é o bem espiritual, e menos ainda que o bem e o vero formem entre si um casamento, que nisso está o céu, e que os que estão nesse casamento estão na sabedoria e na inteligência, e que eles têm satisfações e felicidades com uma variedade infinita e inefável, de que o mundo não conhece sequer uma só, o que faz com que ele não reconheça e não creia que isso existe, quando, todavia, é o céu mesmo ou o regozijo celeste mesmo de que tanto se fala na igreja.