Texto
. ‘Porque a fome prevaleceu em toda a terra’; que signifique que em toda a parte, exceto ali onde havia desolação no natural, vê-se pela significação da ‘fome’, que é a desolação, de que já se tratou; e pela significação da ‘terra’, que é o natural, de que também já se tratou. Que seja ‘em toda a parte, exceto ali’, a saber, nos conhecimentos onde está o celeste do espiritual, é uma consequência das coisas que precedem. O modo como acontece com a desolação do natural ou com a privação do vero ali, foi dito anteriormente; mas como ainda se trata desse assunto nas coisas que seguem, deve-se dizer de novo. O homem que nasceu dentro da igreja, desde a primeira meninice, aprende a partir da Palavra e dos doutrinais da igreja, o que é o vero da fé e também o que é o bem da caridade; mas quando cresce em idade, ele começa ou a confirmar consigo ou a negar consigo os veros da fé que aprendera, pois então ele os intui por sua própria visão, pelo que fez com que esses veros ou lhe sejam apropriados ou sejam rejeitados. Com efeito, nada pode ser apropriado a alguém se não for reconhecido a partir da sua própria intuição, isto é, só aquilo que alguém sabe ser assim por si próprio, e não por outrem. Portanto, os veros que haurira desde a meninice não puderam entrar mais interiormente em sua vida, senão até a primeira entrada, da qual podem ser admitidos mais interiormente, ou também ser lançados fora.
[2] Naqueles que estão sendo regenerados, isto é, nos que o Senhor prevê que se deixarão regenerar, esses veros são consideravelmente multiplicados, pois esses indivíduos estão na afeição de saber os veros; quando, porém, eles se aproximam do ato mesmo da regeneração, eles são, por assim dizer, privados desses veros, pois esses veros se retiram para o interior, e então o homem aparece em desolação; mas esses veros, entretanto, são sucessivamente reenviados ao natural, e ali são conjungidos ao bem quando o homem foi regenerado. Mas naqueles que não são regenerados, isto é, que o Senhor prevê que não se deixarão regenerar, os veros na realidade têm por costume serem multiplicados, pois esses estão na afeição de sabê-lo para a fama, a honra e o ganho, mas quando progridem em idade, e submetem esses veros a sua própria visão, ou eles não os creem, ou os negam, ou eles os convertem nesses falsos. Assim, com eles os veros não são tirados interiormente, mas são lançados fora; mas ainda assim permanecem em sua memória por causa dos fins no mundo, sem aplicá-los à vida. Esse estado é também dito, na Palavra, desolação ou vastação, mas difere do anterior, porque a desolação do estado anterior é aparente, enquanto a desolação deste estado é absoluta. Com efeito, no estado anterior o homem não é privado dos veros, porém, neste ele é absolutamente privado deles. No sentido interno deste capítulo, tratou-se da desolação do estado anterior [dos que se deixam regenerar], e ainda se trata disso no capítulo seguinte; e é essa desolação que é significada pela fome de sete anos.
[3] Trata-se também dessa mesma desolação em muitas outras passagens na Palavra, como em Isaías:
“Desperta, desperta, [levanta-te], ó Jerusalém, que bebeste da mão de JEHOVAH o cálice da ira d’Ele; ... duas coisas te aconteceram; quem se apiedará de ti? A vastação e o quebrantamento, a fome e a espada. Como alguém te consolará? Os teus filhos desfaleceram, jazem na cabeça de todas as praças; ... Por isso, ouve agora isto, ó aflita e embriagada, mas não de vinho: ... Eis, tomei da tua mão o cálice do tremor, as faces do cálice da Minha incandescência, não continuarás a bebê-lo mais; porém, pô-lo-ei na mão dos que te contristaram” (51:17 ao fim);
aqui se descreve o estado de desolação em que está o homem da igreja que se torna igreja, ou que é regenerado. Essa desolação é denominada ‘vastação’, ‘quebrantamento’, ‘fome’, ‘espada’, depois ‘cálice da ira e da incandescência de JEHOVAH’, ‘cálice do tremor546’; os veros de que então se é privado são os ‘filhos que desfalecem e jazem na cabeça de todas as praças’. Que os ‘filhos’ sejam os veros, foi visto (n. 481, 491, 533, 1147, 2623, 2803, 2813, 3373); que as ‘praças’ sejam onde estão os veros, n. 2336; daí, ‘jazer na cabeça de todas as praças’ é que os veros aparecem dispersos; que a desolação seja aparente, e por ela, como pelas tentações, haja regeneração, é evidente, pois se diz que ela ‘não beberá mais’, mas que se porá o cálice na mão dos contristados.
[4] Em Ezequiel:
“Assim disse o Senhor JEHOVIH: Por isso que vos devastam e vos absorvem ao redor, para serdes vós uma herança para os restos das nações547, ... por isso, ó montanhas de Israel, ouvi a palavra do Senhor JEHOVIH; assim disse o Senhor JEHOVIH às montanhas e colinas, aos riachos e vales, e às vastações desoladas, e às cidades desertas, que foram feitas presa e zombaria para os restos das nações que [estão] ao redor. ... Eu, no Meu zelo e na Minha incandescência, falei, por causa da ignomínia das nações [que] suportastes; ... as nações que vos cercam não levarão essa sua ignomínia? Vós, porém, ó montanhas de Israel, dareis o vosso ramo, e o vosso fruto produzireis para o meu povo de Israel; pois ... eis Eu [estou] convosco e [Me] voltarei para vós para que sejais lavrados e semeados; depois multiplicarei sobre vós o homem, toda a casa de Israel, e serão habitadas as cidades, e as vastidões serão edificadas. ... far-vos-ei habitar como nas vossas antiguidades, e farei bem mais do que nos vossos começos” (36:3, 4 ao 12);
aqui também se trata da desolação que precede a regeneração; a desolação é significada pelas ‘vastações desoladas’ e as ‘cidades desertas, que foram feitas presa e zombaria’; mas a regeneração é significada por ‘dar ramos e produzir o fruto’, ‘voltar-se para eles para que sejam lavrados e semeados, para que o homem se multiplique, as cidades sejam habitadas e as vastidões sejam edificadas, e para fazer habitar como nas antiguidades’ é fazer mais bem do que nos começos.
[5] O modo como acontece com a desolação, é evidente pelos que estão na desolação na outra vida: Os que ali estão na desolação são atormentados pelos maus espíritos e os maus gênios, pois estes infundem persuasões do male do falso a tal ponto que ficam quase que inundados; daí os veros não se mostram, mas a proporção que o tempo da desolação se aproxima do fim, são de tal modo iluminados pela luz proveniente do céu, e assim os maus espíritos e os maus gênios são expulsos, cada um para o seu inferno, onde sofrem as penas. São essas coisas que são significadas pelas ‘cidades que foram feitas presa e zombaria para os restos das nações que estão em redor’, e pelas ‘nações ao redor que levarão a sua ignomínia’; e do que está acima, em Isaías, pelo ‘cálice posto na mão dos que contristam’; e também em outra passagem em Isaías, quando se diz que ‘quem vasta será vastado’ (cap. 33:1); e em Jeremias:
“Visitarei sobre os vastadores, e pô-lo-eis na desolação do século” (cap. 25:12).
Em Isaías:
“Os teus destruidores apressarão os teus filhos, e os teus vastadoressairão de ti; levanta em redor os teus olhos, e vê, todos se reuniram, e vêm a ti, ... pois quanto às tuas vastações e [tuas desolações], e a terra da tua destruição, muito estreita serás para o habitante, para longe irão os teus devoradores” (49:17, 18, 19);
[6] aí também, e em todo esse capítulo, trata-se da desolação dos que estão sendo regenerados, e também da regeneração e da frutificação depois da desolação, e, por fim, da punição daqueles que oprimiram (vers. 26 ali). No mesmo:
“Ai de quem devasta quando [não foste] devastado, quando acabares de devastar, serás devastado” (Is. 33:1);
ali, como acima, é significado que os que devastam são punidos. No mesmo:
“Permaneçam em ti os Meus expulsos; Moab! Sê o retiro deles diante do vastador, pois cessou o opressor, terminada está vastação” (Is. 16:13).
No mesmo:
“Próximo está o dia de JEHOVAH, como uma vastação de Shaddai virá” (Is. 13:6);
‘uma vastação de Shaddai’ está pela vastação nas tentações; que Deus, quanto às tentações, foi chamado ‘Shaddai’ pelos antigos, foi visto (n. 1992, 3667, 4572).
[7] No mesmo:
“Então não terão sede nos [lugares] devastados [onde] conduzi-los-á, fará fluir águas da rocha para eles, e fenderá a rocha para que fluam águas” (Is. 48:21);
ali se trata do estado depois da desolação. No mesmo:
“JEHOVAH consolará Sião, consolará toda a vastação dela, de tal modo que fará o seu deserto como o Éden, e a sua solidão como o jardim de JEHOVAH; alegria e regozijo se encontrarão nela, confissão e voz de canto” (51:3);
a mesma significação, pois, como dito acima, a desolação tem por fim que o homem se regenere, isto é, que os veros, depois que os males e os falsos foram separados, sejam conjungidos aos bens e os bens aos veros; o homem regenerado quanto ao bem é o que é comparado ao ‘Éden’, e quanto aos veros, ao ‘jardim de JEHOVAH’. Em Davi:
“JEHOVAH me fez subir da cova da devastação, da lama do lodo, e estabeleceu os meus pés sobre a rocha” (Sl. 40:3 [Em JFA, 40:2]).
[8] A vastação e a desolação do homem da igreja, ou da igreja no homem, foram representados pelo cativeiro do povo judeu na Babilônia [in Babele], e a ressuscitação da igreja [ecclesiae exsuscitatio] pela volta desse cativeiro; a este respeito se fala aqui e ali em Jeremias, principalmente no capítulo 32, do vers. 37 até o fim. Com efeito, a desolação é um cativeiro, uma vez que então o homem está por assim dizer acorrentado; é também por isso que aqueles que estão na desolação são significados pelos que estão presos por correntes, no cárcere, na cova (ver os n. 4728, 4744, 5037, 5038, 5085, 5096).
[9] A respeito do estado de desolação e de vastação naqueles que não são regenerados, também se trata deles aqui e ali na Palavra; nesse estado estão aqueles que negam absolutamente os veros, ou que os convertem em falso; é esse o estado da igreja perto do fim, quando não há mais fé nem caridade. Em Isaías:
“Tornarei conhecido de vós aquilo que Eu hei de fazer à Minha vinha, removendo a sua sebe para que seja para apascentar, despedaçando a sua parede, para que seja pisada; [e a] tornarei em seguida em desolação, não será podada nem mondada, para que subam espinheiros e arbustos espinhosos; mesmo as nuvens mandarei para que não façam chover sobre ela a chuva” (5:5, 6, 7).
No mesmo:
“Diz a este povo: Ouvi ouvindo, mas não entendeis, e vede vendo, mas não conheçais; engorda o coração deste povo; e as suas orelhas agrava, e os seus olhos fecha, para que não veja com os seus olhos, e com as suas orelhas não ouça, e seu coração entenda, e se converta, para que se cure. Então disse: Até quando, Senhor? Ele disse: Até que sejam devastadas as cidades, que não tinham habitantes, e as casas que não tinham nelas [homem], e que a terra seja reduzida a solidão, afastará o homem; e se multiplicará os desertos no meio da terra, e dificilmente [haverá] ainda nela uma décima parte e, contudo, será para a exterminar” (Is. 6:9 ao fim).
[10] No mesmo:
“Os remanescentes voltarão, os remanescentes de Jacó, para o Deus poderoso, pois a consumação está definida, inundada a justiça, ... pois a consumação e a definição o Senhor JEHOVIH Zebaoth está fazendo em toda a terra” (Is. 10:21, 22, 23).
No mesmo:
“JEHOVAH, que esvazia a terra, e que a exinane, e volta as faces dela; ... esvaziando esvaziará a terra; ... pranteará, será confusa a terra habitável, definhará e ficará confuso o globo; ... a maldição devorará a terra, ... pranteará o mosto, definhará a vide; ... o resto na cidade [será] vastação, o portão será abatido até a devastação, quebrantando será quebrantada a terra, agitando será agitada a terra, despedaçando será despedaçada a terra, abalando será abalada a terra como um ébrio” (Is. 24:1 ao fim).
No mesmo:
“Devastadas foram as veredas, cessou o transeunte no caminho, ... pranteia, definha a terra; envergonhou-se o Líbano, e se murchou, tornou-se Sharon como um deserto” (Is. 23:8, 9).
No mesmo:
“Desolarei e devorarei ao mesmo tempo, vastarei montanhas e colinas, e toda a sua erva secarei” (Is. 42:14, 15).
[11] Em Jeremias:
“À condenação entregarei todas as nações em redor, e pô-las-ei em desolação e em derrisão, e em vastações seculares, e farei cessar delas a voz de regozijo e a voz de alegria, e a voz de noivo e a voz de noiva, a voz das mós e a luz da lâmpada, para que esteja toda a terra em desolação e devastação. ... E acontecerá [que], quando forem cumpridos os setenta anos, visitarei sobre o rei de Babel e sobre essa nação ... a iniquidade deles, e sobre a terra dos caldeus, e reduzi-lo-ei em desolação do século” (25:9, 10, 11, 12, e seguintes).
No mesmo:
“Em desolação, em opróbrio, em vastação, e em maldição estará Bozra e todas as suas cidades estarão em vastações do século. Estará Edom em desolação, todo aquele que passar perto dela, se espantará e assobiará sobre todas as suas pragas” (Jr. 49:13 ao 18).
Em Ezequiel:
“Assim disse o Senhor aos habitantes de Jerusalém sobre a terra de Israel, comerão o seu pão com solicitude, e beberão as suas águas com estupor, para que seja devastada a sua terra da sua plenitude, por causa da violência de todos os habitantes nela; as cidades habitadas serão devastadas e a terra será desolada” (12:19, 20).
[12] No mesmo:
“Quando te tiver dado uma cidade desolada, assim como as cidades que se não habitam, quando fizer subir contra ti o abismo, que te cobrirem muitas águas e te fizer descer com os que descem à cova, ao povo do século, e te fizer habitar na terra dos inferiores, na desolação pela eternidade com os que descem [à] cova” (Ez. 26:18 ao 22);
onde se trata de Tiro. Em Joel:
“Dia de trevas e de escuridão, dia de nuvem e de obscuridade, ... diante dele um fogo devora, e após ele uma chamainflama, como o jardim do Éden [é] a terra diante dele, mas após ele um deserto de vastação” (2:2, 3).
Em Sofonias:
“Próximo está o dia de JEHOVAH, ... dia de incandescência esse dia, dia de angústia e de aperto, dia de vastação e de devastação, dia de trevas e de escuridão, dia de nuvem e de nevoeiro; ... pelo fogo do zelo de JEHOVAH será devorada toda a terra, porque [farei] consumação e, certamente, às pressas farei com todos os habitantes da terra” (1:15 ao fim).
Em Mateus:
“Quando virdes a abominação da desolação predita por Daniel, o profeta, estabelecida no lugar santo, então os que [estiverem] na Judéia fujam para as montanhas” (24:15; Mc. 13:14; Dn. 9:27; 12:10, 11, 12).
Por essas passagens, vê-se que a ‘desolação’ é uma privação aparente do vero naqueles que são regenerados, mas absoluta nos que não são regenerados.