. ‘Vós [sois] espiões’; que signifique que é somente para procurar alcançar ganho, vê-se pela significação dos ‘espiões’, que aqui é procurar alcançar ganho. Que no sentido interno nenhuma outra coisa é significada pelos ‘espiões’, vê-se pela série; com efeito, trata-se, no sentido interno, dos veros da igreja, que eles devem ser apropriados ao natural e que eles não lhe podem ser apropriados senão através de um influxo procedente do celeste do espiritual por meio de um intermediário. Esses veros da igreja são os ‘filhos de Jacó’ (ou os ‘irmãos de José’), o celeste do espiritual é ‘José’, o intermediário é ‘Benjamin’. No n. 5402 foi dito o modo como tal coisa acontece, a saber, que os veros da fé da igreja, que são chamados doutrinais, quando são apreendidos na primeira idade, não são compreendidos e entregues à memória senão como os outros conhecimentos, e durante um tempo permanecem como conhecimentos, até que o homem comece a intuí-los de sua visão e ver se são veros, e quando tiver visto que são veros, que ele queira agir segundo eles; essa intuição e essa vontade fazem com que eles não sejam mais conhecimentos, mas sim preceitos da vida e, por fim, a vida, uma vez que assim eles entram na vida a que são apropriados. [2] Os que atingiram a idade adulta e, ainda mais, os que chegaram à velhice, e que não intuíram de sua visão os veros da igreja denominados doutrinais, e não viram se são veros e, depois, não quiseram viver de acordo com eles, esses não os retêm consigo senão como os outros conhecimentos, eles estão somente em sua memória natural e, daí, em sua boca; e quando eles os pronunciam, não os falam a partir de seu homem interior ou de coração, mas somente pelo seu homem exterior, e de boca. Quando o homem está nesse estado, ele não pode de modo algum crer que os veros da igreja sejam veros, ainda que se veja crendo. Que se veja crendo serem essas coisas veros, é porque ele se fiou nos outros e confirmou consigo as coisas que vêm dos outros; confirmar as coisas que vêm dos outros, quer sejam veros quer falsos, é muito fácil, isso é de fato obra unicamente da engenhosidade. [3] Esses veros da igreja, ou aqueles que estão dessa maneira nos veros da igreja, são significados pelos ‘espiões que vêm para ver a nudez da terra’. Com efeito, eles creem nos doutrinais de sua igreja não por alguma afeição do vero, mas pela afeição de alcançar honras ou obter ganho; é por isso que neles mesmos dificilmente creem em alguma coisa, a maioria deles eles negam de coração, considerando esses doutrinais como um comerciante considera suas mercadorias; e então eles se creem doutos e sábios quando veem por si que não são veros e, ainda assim, podem persuadir o vulgo de que são veros. Que a maioria dos chefes da igreja sejam tais, é o que se vê manifestamente por esses chefes na outra vida, porquanto ali eles estão na esfera de suas afeições e dos pensamentos daí provenientes seja qual for o lugar aonde forem. Essa esfera é manifestamente percebida pelos outros, de onde vem que se conhece, diante do sentido aberto, qual fora a afeição do vero deles e qual a fé. No mundo isso não se manifesta, pois aí não há tal percepção espiritual; e, porque é assim, não manifestam essas coisas, pois seriam privados de seu ganho. [4] Que sejam ‘espiões’, pode-se ver suficientemente bem a partir disso, que eles não procuram nenhuma outra coisa naqueles que estão nos veros a partir do bem, senão as falhas para censurá-los e condená-los. Tais chefes, sejam eles dos que são chamados papistas554, ou dos reformados ou dos quakers, ou dos socinianos, ou dos judeus, quando uma vez eles confirmaram consigo os doutrinais da sua igreja, são outros senão espiões? pois os mesmíssimos veros, se são ensinados em outro lugar, eles os ridicularizam e os condenam, visto queeles não compreendem que os veros sejam veros. A causa é porque eles não têm a afeição do vero por causa do vero, e menos ainda por causa da vida, mas têm por causa do ganho. Quando tais chefes leem a Palavra, eles também escrutam a Palavra com o propósito somente de confirmar os conhecimentos doutrinais por causa do ganho, e muitos dentre eles escrutam a Palavra para “verem a nudez da terra”, isto é, para que vejam que os veros da igreja não são veros, mas servem apenas para persuadir os outros, por causa do ganho, de que sejam veros. [5] Aqueles que, por sua vez, estão na afeição do vero por amor do vero e por causa da vida, por consequência, por amor do Reino do Senhor, esses de fato têm fé nos doutrinais da igreja; mas ainda assim eles escrutam a Palavra não por causa de um outro fim que não por causa do vero; daí lhes vem a sua fé e a sua consciência. Se alguém lhes diz que eles devem permanecer nos doutrinais da igreja em que nasceram, eles pensam que se tivessem nascido no judaísmo, no socinianismo, no quakerismo, no gentilismo cristão, ou mesmo fora da igreja, a mesma coisa lhes teria sido dita pelos que são dessas religiões [ab illis qui ibi], e que em toda a parte se diz: “Aqui está a Igreja, aqui está a Igreja! aqui estão os veros e não em outro lugar!” e como é assim, deve-se escrutar a Palavra com uma prece devota ao Senhor, para que conceda iluminação. Tais homens não perturbam a ninguém dentro da igreja, e nunca condenam os outros, sabendo entretanto que cada um que é igreja, vive a partir de sua fé.