. ‘E anunciavam-lhe todas as coisas que lhes sobrevieram’; que signifique a reflexão proveniente do bem desse vero sobre as coisas que até então foram providas, vê-se pela significação de ‘anunciar’ [ou declarar], que é pensar e refletir (n. 2862), pois o que é anunciado a alguém, isto é pensado a partir de uma reflexão; e pela significação de ‘todas as coisas que sobrevieram’, que são as coisas que vêm da Providência, ou que foram providas, de que se tratará no que segue. Que essa reflexão provenha do bem que pertence ao vero, é porque anunciavam a Jacó, o pai, por quem é representado o bem que pertence ao vero (n. 5506). Que a reflexão não provenha dos veros que são representados pelos filhos de Jacó como o sentido da letra o envolve, é porque toda reflexão e, daí, todo o pensamento no inferior, ou no exterior, vem do superior, ou do interior, embora pareça vir do inferior, ou exterior; e como o bem do vero que Jacó representa é interior, por isso é significada a reflexão proveniente do bem que pertence ao vero. [2] Que as ‘coisas que sobrevêm’ sejam as que vêm da Providência ou as que foram providas, é porque tudo que sobrevém ou que é contingente, que além disso é chamadoacontecimento fortuito, e é atribuído ao acaso ou à sorte, provém da Providência. A Providência Divina opera assim, invisível e incompreensivelmente, por um motivo: para que o homem possa, a partir do livre, atribuir a causa à Providência ou ao acaso; com efeito, se a Providência agisse de um modo visível e compreensível haveria grave perigo de que o homem, a partir do que é visível e compreensível, cresse que isso pertence à Providência e, depois, fosse em direção contrária. Desse modo o vero e o falso seriam conjungidos no homem interior e o vero seria profanado, o que tem consigo a danação eterna. É por isso que é preferível tal homem ser mantido na incredulidade do que estar uma vez na fé, e daí se retirar. [3] Tal coisa é o que se entende em Isaías: “Dize a este povo: Ouvi ouvindo, mas não entendeis; e vede vendo, e não conheceis. Engorda o coração deste povo, e os ouvidos deles agrava, e os olhos deles fecha, para que não veja com os seus olhos e com os seus ouvidos não ouça, e o seu coração entenda, e se converta e se sare561” (6:9, 10; João 12:40); É também por isso que hoje não se fazem também milagres, uma vez que os milagres, assim como todas as coisas visíveis e compreensíveis, constrangeriam o homem a crer, e o que constrange tira o livre, quando, todavia, toda reforma e toda regeneração do homem acontecem em seu livre; aquilo que não for implantado no livre, isto não fica fixo; implanta-se no livre quando o homem está na afeição do bem e do vero (n. 1937, 1947, 2744, 2870 ao 2893, 3145, 3146, 3158, 4013). [4] Que entre os descendentes de Jacó tenha havido tantos milagres, a causa era para os constranger a observar os estatutos na forma externa, pois isso era suficiente para eles, que estavam somente nos representativos da igreja. Eles estavam nos externos separados dos internos, razão por que não puderam ser reformados quanto aos interiores. Com efeito, eles rejeitavam inteiramente os interiores, por isso não puderam profanar os veros (n. 3147, 3398, 3399, 3480, 4680). Tais homens puderam ser constrangidos sem correrem o risco da profanação do que é o santo. [5] Que o homem hoje deva crer nas coisas que não vê, consta também nas palavras do Senhor a Tomé, em João: “Porque me viste, Tomé, creste? Bem-aventurados os que não veem, e creem” (20:29). Que as coisas contingentes, que são aliás atribuídas ao acaso ou à sorte venham da Providência Divina, a igreja de fato o reconhece, mas mesmo assim não crê. Com efeito, quem é que não diz, quando emerge de algum grande perigo, aparentemente fortuito, que foi salvo por Deus? e não dá também graças a Deus? Quando se é elevado a honras e quando se chega à opulência, chama-se também a isso uma bênção de Deus; assim, o homem da igreja reconhece que a contingência vem da Providência; mas ainda assim ele não crê. Porém, a respeito desse assunto se dirá várias coisas, pela Divina Misericórdia do Senhor, em outro lugar562.