Texto
. Acima de minha cabeça estava presente um espírito que era invisível, mas se me permitiu perceber a sua presença por um forte cheiro de chifre ou de osso queimado e por um fedor de dentes. Veio depois uma grande turba, como um nevoeiro, do interior para os superiores por detrás, invisíveis também, e pararam acima de minha cabeça. Eu os supunha invisíveis porque eram sutis, mas disseram-me que ali onde houvesse uma esfera espiritual eles eram invisíveis, mas onde houvesse uma esfera natural eles são visíveis, e que eles são chamados naturais invisíveis. O que me foi primeiro descoberto em relação a esses espíritos, é que eles punham todo o cuidado, toda a finura e toda a arte possíveis, para que nada do que lhes dizia respeito fosse propagado; para tal fim eles se avantajaram também em arrebatar aos outros as suas ideias e em introduzir outras, pelas quais eles impediam que eles mesmos fossem descobertos. Durou isso muito tempo, por isso foi-me dado conhecer que na vida do corpo eles tinham sido tais que não queriam que nada fosse manifestado do que faziam e pensavam, apresentando para isso uma outra face e uma outra linguagem, mas sem, entretanto, pôr na frente outras coisas para enganarem por mentiras.
[2] Percebi que os que se achavam presentes tinham sido, na vida do corpo, negociantes, mas tais que tinham posto o prazer da vida na negociação mesma, não nas riquezas, e que assim a negociação tinha sido como a sua alma. Conversei, pois, com eles sobre esse assunto, e foi-me dado dizer que a negociação em nada impedia que se possa vir ao céu, e que no céu há igualmente ricos e pobres. Mas objetavam que a sua opinião foi que, para que fossem salvos era necessário que eles abdicassem das negociações, dessem aos pobres tudo que eles tinham e se tornassem míseros. Foi-me lhes responder que a coisa não acontece assim, e que muito diferente disso pensaram aqueles entre eles que estão no céu, porque foram bons cristãos e, contudo, muitíssimo opulentos, e alguns deles entre os mais opulentos; estes tiveram como fim o bem comum e o amor para com o próximo, e exerceram o comércio apenas para desempenhar uma função no mundo, sem que por isso pusessem nele o seu coração. Mas aqueles que estão embaixo, por esta razão que eles foram meramente naturais, e por isso não creram que houvesse uma vida depois da morte, nem um inferno, nem um céu, nem mesmo espírito algum, os que não tiveram escrúpulo de despojar a outrem de seus bens por toda a sorte de artifício, e que puderam ver sem dó perecer em seu proveito casas florescentes, e que é por isso que eles zombaram dos que falaram da vida espiritual.
[3] Também me mostraram que crença eles tiveram a respeito da vida depois da morte e a respeito do céu e do inferno. Apareceu um espírito que foi arrebatado da esquerda para a direita, e se lhe disse que alguém acabava de morrer, e que tinha sido imediatamente conduzido pelos anjos ao céu. Essa circunstância tornou-se assunto da conversação; eles, porém, embora tivessem também visto, tinham entretanto uma fortíssima esfera de incredulidade e a estendiam em torno deles, a tal ponto que eles quiseram se persuadir e persuadir aos outros do contrário do que eles tinham visto, e porque tinham uma tão grande incredulidade, permitiu-se-me dizer-lhes: “Que aconteceria se por acaso tivésseis visto no mundo ressuscitar um morto estendido em seu esquife?” Eles responderam que primeiramente eles não teriam dado crédito, exceto se tivessem visto muitos mortos ressuscitados, e que se tivessem visto isso, eles teriam atribuído isso a causas naturais. Depois que foram deixados algum tempo em seus pensamentos, eles disseram que primeiro eles teriam crido que era fraude; e que, se ficassem convencidos de que não havia fraude, teriam crido que a alma de um morto tinha tido secreta comunicação com o que ressuscitava; e enfim, que havia algum segredo que eles não compreendiam, porque na natureza existia um grande número de coisas incompreensíveis, e que, portanto, eles nunca teriam pedido crer que uma tal coisa tivesse existido por alguma força acima da natureza. Por esse modo se descobriu qual tinha sido a sua fé, isto é, que eles nunca teriam podido ser levados a crer que houvesse uma vida depois da morte, nem que houvesse um inferno, nem um céu; e que assim eles eram inteiramente naturais. Quando tais espíritos aparecem na luz do céu, eles se apresentam também sem face, e em vez desta há um acervo de cabelos.
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