Texto
. ‘Nem as nossas crianças’; que signifique as coisas que são ainda mais interiores, vê-se pela representação das ‘crianças’, que são as coisas que são mais interiores (n. 5604). Que as coisas mais interiores sejam significadas pelas ‘crianças’ e, também, pelos ‘meninos’, é porque por uns e outros é significada a inocência, e a inocência é o íntimo. Nos céus acontece assim: o céu íntimo, ou terceiro céu, se compõe dos que estão na inocência, porquanto estão no amor ao Senhor, e como o Senhor é a Inocência mesma, é por isso que aqueles que estão no céu, estando no amor a Ele, estão na inocência. Estes, ainda que sejam os mais sábios de todos que estão nos céus, ainda assim aparecem aos outros como crianças; daí vem, e também disso, que as crianças estão na inocência, que pelas ‘crianças’, na Palavra, seja significada a inocência.
[2] Como o íntimo dos céus é a inocência, por isso a inocência deve estar interiormente em todos que estão nos céus. Tem-se isto, do mesmo modo como com os sucessivos em relação aos coexistentes, ou como com as coisas que foram distinguidas entre si por graus em relação às que existem a partir delas, pois tudo que existe simultaneamente tira a sua origem dos sucessivos. Quando essas coisas existem umas pelas outras, elas se colocam na mesma ordem em que estiveram antes distinguidas pelos graus. Como ilustração do assunto, são sucessivos e são distintos entre si o fim, a causa e o efeito; estes, quando existem simultaneamente, se colocam na mesma ordem, a saber, intimamente o fim, em seguida a causa, e por último o efeito. O efeito é o coexistente em que se não houver uma causa, e na causa o fim, não é um efeito, pois se do efeito se remove a causa, destrói-se o efeito, e com mais forte razão, se da causa se remove o fim, pois a causa tira do fim o que faz com que ela seja causa, e o efeito tira da causa o que faz com que ele seja efeito.
[3] É também assim no mundo espiritual; assim como o fim, a causa e o efeito são coisas distintas entre si, do mesmo modo, no mundo espiritual, são distintos o amor ao Senhor, a caridade para com o próximo e as obras da caridade. Essas três coisas, quando fazem um ou existem simultaneamente, a primeira deve estar na segunda e a segunda na terceira. Por exemplo, nas obras da caridade, a não ser que haja interiormente a caridade oriunda da afeição ou do coração, não são obras da caridade; e a não ser que na caridade haja interiormente o amor a Deus, não é a caridade. Por essa razão, caso se retire aquilo que está interiormente, o exterior cai, pois o exterior existe e subsiste pelos seus interiores em ordem. Assim acontece com a inocência, ela faz um com o amor ao Senhor, a não ser que ela esteja interiormente na caridade, não há caridade; conseguintemente, a não ser que a caridade em que está a inocência esteja interiormente nas obras de caridade, não são obras da caridade. Daí vem que em todos que estão nos céus deve estar interiormente a inocência.
[4] Que seja assim, e que pelas ‘crianças’ seja significada a inocência, vê-se em Marcos:
“Jesus disse aos discípulos: Deixai vir a Mim as crianças, e não as proibais, pois das tais é o Reino de Deus. Amém vos digo, qualquer um que não tiver recebido o reino de Deus como uma criança, não entrará nele. Tomando-as, pois, nos braços, impôs a mão sobre elas e as abençoou” (10:14, 15, 16; Lc. 18:15, 16, 17; Mt. 18:3);
que pelas ‘crianças’ aqui seja significada a inocência, pode-se ver, porque nas crianças há a inocência, e porque as inocências no céu aparecem como crianças.
[5] Que ninguém possa entrar no céu exceto se tiver alguma coisa da inocência, foi visto (n. 4797); e, além disso, as crianças se permitem governar pelos anjos, que são inocências, e ainda não pelo proprium como os adultos, que se governam por si mesmos a partir de seu juízo e de sua vontade. Que as crianças se permitam governar pelos anjos, vê-se pelas palavras do Senhor em Mateus:
“Vede, não desprezeis nenhum destes pequeninos; pois vos digo que os anjos deles nos céus sempre veem a face do Meu Pai” (18:10);
ninguém pode ver a face de Deus, a não ser pela inocência.
[6] Nas passagens seguintes a inocência é também significada pelas ‘crianças’: Em Mateus:
“Da boca das crianças e das lactentes aperfeiçoaste o louvor” (21:16; Sl. 8:3 [Em JFA, Sl. 8:2]).
No mesmo:
“Ocultastes isso aos sábios e aos inteligentes, e as revelaste às crianças” (11:25; Lc. 10:21).
Com efeito, a inocência, que é significada pelas ‘crianças’, é a sabedoria mesma, pois a inocência genuína habita na sabedoria (n. 2305, 2306, 4797); por isso se diz que “da boca das crianças e das lactentes aperfeiçoastes o louvor”; depois que “tais coisas foram reveladas às crianças”.
[7] Em Isaías:
“A novilha e o urso pastarão, juntos se deitarão os filhos deles, e brincará a que mama sobre o buraco da víbora” (11:7, 8);
nesta passagem se trata do Reino do Senhor e, em especial, do estado de paz e de inocência ali; a ‘[criança] que mama’ está em lugar da inocência; que nada de mal possa suceder aos que estão na inocência, é significado por ‘brincará sobre o buraco da víbora’; as ‘víboras’ são aqueles que são muitíssimo dolosos; neste capítulo se trata abertamente do Senhor. Em Joel:
“Tocai buzina em Sião,... Congregai o povo, santificai a congregação, reuni os velhos, congregai as crianças e os que sujam as tetas” (2:15, 16);
os ‘velhos’ estão pelos sábios; as ‘crianças e os que sujam as tetas’ estão em lugar dos inocentes.
[8] Nas passagens seguintes, pelas crianças também se entende a inocência, mas que ela foi destruída neles: Em Jeremias:
“Por que motivo vós fazeis [esse] grande mal contra vossas almas, ao cortar de vós o varão e a mulher, a criança e a que mama, do meio de Judá, para que não deixe para vós restos ... ?” (44:7).
No mesmo:
“Levanta para Ele as tuas mãos sobre a alma das tuas crianças, que desfalecem pela fome na cabeça de todas as ruas” (Lm. 2:19).
Em Ezequiel:
“Passai por Jerusalém, e feri; o vosso olhonão poupe, nem usai de clemência;o velho, o jovem e a virgem, e a criança, ...” (9:5, 6).
Em Miqueias:
“Expulsais as mulheres do meu povo da casa de delícias de cada um;de junto das suas crianças, arrebatam a Minha honra para sempre” (2:9).
[9] Quanto ao que diz respeito à inocência das crianças, ela é somente externa, mas não interna, e porque não é interna, não pode ser conjunta com sabedoria alguma; a inocência dos anjos, porém, principalmente dos anjos do terceiro céu, é a inocência interna e, portanto, conjunta com a sabedoria (n. 2305, 2306, 3494, 4563, 4797). O homem também foi criado assim, de modo que, quando envelhece e se torna como criança, então a inocência da sabedoria se conjunge com a inocência da ignorância, a qual ele tivera na infância, e assim ele passa à outra vida como uma verdadeira criança.