. ‘Deu-vos um dom escondido nos vossos alforjes’; que signifique que procede d’Ele sem nenhuma prudência da parte deles, vê-se pela significação do ‘dom escondido’, que é o vero e o bem, que são dados pelo Senhor sem que o homem o saiba; e pela significação da ‘prata restituída nos sacos ou nos alforjes’, que é sem nenhum poder da parte deles (n. 5488, 5496, 5499); daí é evidente o que é significado por “deu-vos um dom escondido nos vossos alforjes”, que o vero e o bem no natural procedem d’Ele, a saber, do Divino Humano do Senhor, sem nenhum poder da parte deles; e como é sem nenhum poder da parte deles, é sem a prudência da parte deles. Diz-se prudência porque a prudência corresponde à Providência, e o que provém da Divina Providência não provém da prudência do homem. *5664a. ‘A vossa prata chegou a mim’; que signifique que ele será visto como um vero adquirido por eles, vê-se pela significação da ‘prata’, que é o vero (n. 1554, 2954); que a prata deles tenha chegado a ele é que tinham comprado, assim, que tinham adquirido o mesmo para si, visto que ‘comprar’ é adquirir (n. 5655); daí vem que por ‘vossa prata chegou a mim’ é significado o vero adquirido por eles. No entanto, como o vero, que pertence à fé, nunca é adquirido por homem algum, mas é insinuado e dado pelo Senhor, e, todavia, é visto como se procedesse do homem, se diz que ‘seria visto como se fosse um vero adquirido por eles’. [2] Que o vero seja insinuado e dado pelo Senhor, é conhecido na igreja; com efeito, ensina-se que a fé não procede do homem, mas de Deus, assim não somente a confiança, mas também os veros, que pertencem à fé. No entanto, mesmo assim parece que os veros que pertencem à fé são adquiridos pelo homem; que esses veros influam, ele ignora profundamente, porque não percebe. A causa de que não perceba, é porque os seus interiores foram fechados a tal ponto que não pode ter comunicação perceptível com os espíritos e os anjos; os seus interiores, quando foram fechados, o homem não pode saber absolutamente coisa alguma do influxo. [3] Contudo, é necessário saber que uma coisa é conhecer os veros da fé, e outra coisa é crer nos veros da fé. Aqueles que apenas conhecem os veros da fé, esses os põem na memória como se fossem as outras coisas que pertencem a algum conhecimento; um homem pode adquiri-los sem um tal influxo, mas esses veros não têm vida, como claramente se vê por isto, que o homem mal, e mesmo o pior, pode igualmente conhecer os veros da fé tão bem como o homem probo e pio; mas nos maus, como foi dito, eles não têm vida, uma vez que, quando o mau os produz, ele visa em cada coisa, ou a sua glória, ou o ganho. Daí vem que é o amor de si e do mundo que insuflam e fazem uma quase vida, mas essa vida é tal qual é no inferno, a qual se chama morte espiritual. Daí vem que, quando os produz, ele os produz de memória, mas não de coração. Aquele, porém, que crê os veros da fé, esse os produz de coração quando os pronuncia de boca, visto que nele os veros da fé estão de tal modo enraizados, que eles têm uma raiz na memória externa, e dali crescem para os interiores ou superiores, do mesmo modo que as árvores frutíferas, e também como árvores se ornam de folhas e, enfim, de flores, por causa do fim, que é que produzam frutos. [4] O mesmo acontece com um tal homem; ele também pelos veros da fé não tem outro intuito senão os usos, que são os exercícios da caridade, os quais são para ele os frutos. São essas as coisas que o homem não pode adquirir para si nem sequer na mínima parte, mas lhe são dadas gratuitamente pelo Senhor, e isso a cada momento de sua vida; e mesmo, se quiser crer, a cada momento lhe são dadas inumeráveis coisas; mas como o homem é tal que carece da percepção de que essas coisas influem, afinal se tivesse a percepção ele se rebelaria, como acima foi dito, porque creria que então ele perderia o seu proprium, e com o proprium o seu livre, e com o livre o seu prazer, e que assim ele se tornaria como coisa nenhuma, por isso acontece que o homem não sabe outra coisa senão que tudo procede dele. É isso que se entende agora por “ele ‘será visto’ como um vero adquirido por eles”. E, além disso, para que o homem seja dotado do proprium celeste e do livre celeste, ele deve fazer o bem como por si, e pensar o vero como por si, mas quando refletir, deve reconhecer que é pelo Senhor (ver os n. 2882, 2883, 2891).