. ‘E como furtaríamos da casa do teu senhor prata ou ouro?’ Que signifique: ‘Por que então reivindicaríamos a nós o vero e o bem que procedem do celeste Divino?’ vê-se pela significação de ‘furtar’, que no sentido espiritual é reivindicar a si o que pertence ao Senhor, do que se tratou acima (n. 5749); pela significação da ‘prata’, que é o vero (n. 1551, 2954, 5658); e pela significação do ‘ouro’, que é o bem (n. 113, 1551, 1552, 5658). Em todo este capítulo se trata do furto espiritual, o qual consiste reivindicar para si o bem e o vero que procedem do Senhor; é isso de uma tão grande importância, que o homem depois da morte não pode ser admitido no céu antes que reconheça de coração que nada do bem e do vero procede de si, mas sim do Senhor, e que tudo que procede de si não é senão o mal. Que assim seja mostra-se ao homem depois da morte por meio de muitas experiências. Que todo bem e vero procedem do Senhor, os anjos no céu percebem manifestamente, e, além disso, que pelo Senhor eles são desviados do mal e mantidos no bem e, daí, no vero, e isso por uma força poderosa. [2] Isto também me foi dado perceber de modo claro, agora por vários anos, e também quanto mais me entreguei ao proprium ou a mim mesmo, tanto mais eu era inundado de males, e quanto mais eu era desviado daí pelo Senhor, tanto mais eu era elevado do mal ao bem; é por isso que reivindicar a si o vero e o bem é contra o universal reinante no céu, então contra o reconhecimento de que toda salvação provém da Misericórdia, isto é, que o homem, por si, está no inferno, mas é tirado de lá pelo Senhor pela Misericórdia. O homem não pode também estar na humilhação nem, por consequência, receber a Misericórdia do Senhor, pois esta influi somente na humilhação ou no coração humilde, a não ser que reconheça que por si nada há senão o mal, e que todo o bem procede do Senhor. Além do que, de outro modo atribui a si por mérito as coisas que faz, e por fim, como justiça, pois reivindicar para si o vero e o bem que procede do Senhor é justificar a si mesmo; por isso a fonte de vários males visa então a si mesmo em cada uma das coisas que faz ao próximo, e quando faz isto, ama a si mais do que todos os outros, os quais assim despreza, se não de boca, ainda assim de coração.