ac 5798

Emanuel Swedenborg
Obra: Arcanos Celestes – Gênesis Explicado

Texto

. ‘E não se acenda a tua ira contra o teu servo’; que signifique que ele não se averta, vê-se pela significação da ‘ira’, que é a aversão (n. 5034), porquanto aquele que se ira se averte, pois não pensa como o outro, mas, nesse estado, está contra ele. Que a ‘ira’ seja a aversão, é evidente por um grande número de passagens na Palavra, principalmente por aquelas em que a ira e inflamação são atribuídas a JEHOVAH, ou Senhor, pelo que é significada a aversão; não que JEHOVAH, ou o Senhor, Se torne averso a alguém, mas sim que o homem; e quando o homem se torna averso, parece-lhe como se fosse o Senhor, pois ele não é ouvido. A Palavra fala assim segundo a aparência. E como a ira é a aversão, ela é também, da parte daqueles que se averteram, a agressão contra o bem e o vero; mas da parte daqueles que não se averteram, não é uma agressão, é uma repugnância, porque é a aversão em relação ao mal e ao falso.
[2] Que a ‘ira’ seja uma agressão, foi mostrado (n. 3614); que também seja a aversão e também a pena quando se agride o bem e o vero, é evidente por estas passagens: Em Isaías:
“Ai dos que estabelecem estatutos de iniquidade; ... sob o cativo e sob os mortos cairão; em tudo isto, todavia, não será revertida a ira d’Ele. ... Ai de Asshur, vara da minha ira, ... contra a nação hipócrita enviá-la-ei, e contra o povo da inflamação mandá-lo-ei; ... ele pensa o não reto, e o seu coração medita o não reto” (10:1, 4, 5, 6, 7);
a ‘ira’ e a ‘inflamação’ estão em lugar da aversão e da agressão da parte do homem; a punição, então, e a não audição, aparecem como uma ira; e como é da parte do homem, se diz: “Ai dos que estabelecem estatutos de iniquidade; ... ele pensa o reto, e o seu coração medita o não reto”.
[3] No mesmo:
“JEHOVAH com os vasos da Sua ira, para destruir toda a terra; ... eis, [o dia] de JEHOVAHvem cruel, com indignação, com inflamação e ira, para pôr a terra em vastação, para que destrua os pecadores dela de sobre ela. ... Abalarei o céu, e será movida a terra de seu lugar, na indignação de JEHOVAH Zebaoth e no dia da incandescência da ira d’Ele” (Is. 13:5, 9, 13);
aí ‘céu e terra’ estão em lugarda igreja, e, porque ela se averteu do vero e do bem, a sua vastação e a sua destruição são descritas por meio da ‘indignação’, da ‘ira’ e da ‘incandescência’ de JEHOVAH, quando, todavia, é absolutamente o contrário, a saber, que é o homem que, no mal, se indigna, se ira e se inflama, então ele se opõe ao bem e ao vero. A pena que provém do mal é atribuída a JEHOVAH, por causa da aparência, aqui e ali na Palavra em outras passagens; o último tempo é a destruição da igreja e seu fim é chamado ‘dia da ira de JEHOVAH’.
[4] No mesmo:
“Quebrou JEHOVAH o cajado dos ímpios, a vara dos que dominavam, ferirá os povos com furor, com praga não curável, dominando com ira as nações” (Is. 14:5, 6);
semelhantemente por esta; isto acontece como com um criminoso que, punido, em razão da lei, atribui ao rei ou ao juiz, e não a si, o mal da pena. No mesmo:
“Jacó e Israel, porque não quiseram andar nos caminhos de JEHOVAH, nem ouviram a lei d’Ele, derramou sobre ele a inflamação da ira, e a violência da guerra” (Is. 42:24, 25).
Em Jeremias:
“Pelejarei Eu contra vós, com mão estendida e braço forte, e com ira, e com inflamação, e com fervor grande. Não saia como um fogo o meu furor, e arda e não se extinga por causa da malícia das vossas obras” (21:5, 12);
aqui o ‘furor’, a ‘ira’, o ‘fervor grande’, não são outra coisa senão os males da pena por causa da aversão e da agressão contra o bem e o vero.
[5] Em virtude da Lei Divina todo o mal tem consigo a sua pena, e o que é extraordinário, na outra vida o mal e a pena são coerentes, pois desde que um espírito infernal faz o mal acima do habitual, espíritos punidores se fazem presentes e punem, e isso sem consideração; que seja o mal da pena por causa da aversão, é evidente, pois se diz: “por causa da malícia das vossas obras”. Em Davi:
“Enviou contra eles a incandescência da sua ira, a indignação e o furor, e angústia e envio de anjos maus. Preparou o caminho à sua ira, não preservou da morte a alma deles” (Salmo 78:49, 50).
(Ver também Is. 30:27, 30; 34:2; 43:3, 6; 54:8; 57:17; 63:6; 66:15; Jr. 4:8; 7:20; 15:14; 33:5; Ez. 5:13, 17; Dt. 9:11–19; 29:19, 20, 22, 23 [Em JFA, 29:20–24]; Ap. 14:9, 10; 15:7.)
[6] A incandescência [ou inflamação], a ira, a indignação, o furor, nessas passagens, estão em lugar da aversão, da agressão e, portanto, da pena. Que a pena da aversão e da agressão seja atribuída a JEHOVAH, ou seja, ao Senhor, e se diga ‘ira’, ‘incandescência’ e ‘furor’ n’Ele, é porque a nação oriunda de Jacó devia ser mantida nos representativos da igreja somente externos, nos quais ela só podia ser mantida por meio do temor e terror em relação a JEHOVAH, e só crendo que Ele lhes fazia o mal por ira ou por furor. Aqueles que estão nos externos sem o interno nunca podem ser levados de outro modo a fazer os externos, pois nada há interiormente que obrigue; também os simples dentro da igreja não compreendem de forma diferente a partir da aparência, senão que Deus se ira quando alguém faz o mal. Contudo, mesmo assim qualquer um pode ver, se refletir, que nada da ira, e menos ainda do furor esteja em JEHOVAH, ou o Senhor, pois Ele é a Misericórdia mesma, e é o Bem mesmo, e está infinitamente acima de querer mal a quem quer que seja. O homem que está na caridade em relaçãoao próximo também não faz mal a pessoa alguma. Todos os anjos no céu são tais. O que não deve ser o Senhor mesmo?
[7] Mas a coisa acontece assim na outra vida: Quando o Senhor repõe em ordem o céu e as sociedades que ali estão, o que acontece continuamente, por causa dos recém-vindos, e que lhes dá a bem-aventurança e a felicidade, quando isso influi nas sociedades que estão no oposto ? porquanto na outra vida todas as sociedades do céu têm sociedades opostas a elas no inferno, de onde resulta o equilíbrio ?, e essas sociedades sentem a mudança oriunda da presença do céu, então elas se iram e se inflamam, e irrompem no mal, e incorrem então, ao mesmo tempo, no mal da pena. Além disso, também, quando os maus espíritos ou gênios se aproximam da luz do céu, eles começam a experimentar angústia e tormentos (n. 4225, 4226). Eles atribuem isso ao céu, consequentemente, ao Senhor, quando de fato são eles mesmos que se induzem a esse tormento, uma vez que o mau é atormentado quando ele se aproxima do bom. Daí se pode ver que do Senhor não procede senão o bem, e que todo mal procede daqueles mesmos que se avertem e que estão no oposto, mas os que agridem. A partir deste arcano, fica claro o modo como a coisa acontece.

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