Texto
. ‘E anunciareis a meu pai toda a minha glória no Egito’; que signifique a comunicação do céu espiritual no natural com o bem espiritual, vê-se pela significação de ‘anunciar’, que é comunicar; pela significação da ‘glória’, que é o céu espiritual, de que se tratará no que segue; pela significação do ‘Egito’, que são os conhecimentos no natural, assim, o natural, como acima(n. 5908); e pela representação de ‘Israel’, que é aqui o ‘pai’ com o qual a comunicação devia ser feita, que é o bem espiritual, de que se tratou acima (n. 5906). Daí, é evidente que por ‘anunciareis a meu pai toda a minha glória no Egito’ é significada a comunicação do céu espiritual no natural com o bem espiritual.
[2] Quanto a isto, que a glória seja o céu espiritual, assim se tem: Há dois reinos dos quaisprovém o céu, a saber, o reino celeste e o reino espiritual; o reino celeste é o céu íntimo, ou terceiro céu, e o reino espiritual é o céu médio, ou segundo céu; o bem em que estão os celestes chama-se bem celeste, e o bem em que estão as espirituais chama-se bem espiritual. O bem celeste é o bem do amor ao Senhor, e o bem espiritual é o bem do amor para com o próximo. Quanto a conjunção desses dois reinos, é assim:é o bem da caridade para com o próximo que os conjunge, uma vez que o internodaqueles que estão no reino celeste é o amor ao Senhor, e o externo deles é a caridade para com o próximo; mas o interno daqueles que estão no reino espiritual é a caridade para com o próximo, e o externo deles é a fé que daí procede. A partir disso se mostra que a conjunção desses dois reinos se faz por meio da caridade para com o próximo, pois nela termina o reino celeste e por ela começa o reino espiritual; assim o último de um é o primeiro do outro, assim eles se acolhem mutuamente.
[3] Agora, cumpre dizer o que é a glória: A ‘glória’, no sentido supremo, é o Senhor quanto ao Divino Vero, assim, é o Divino vero que procede do Senhor; porém, no sentido representativo, a glória é o bem do amor para com o próximo, ou caridade, que é o bem externo do reino celeste e o bem interno do reino espiritual do Senhor, pois esse bem, no sentido genuíno, é o Divino Vero no céu. E como se trata aqui de Israel, que é o bem espiritual, ou seja, a caridade, que faz o reino espiritual nos céus e a igreja espiritual nas terras, é por isso que pela glória aqui, que eles deviam anunciar a Israel, entende-se o céu espiritual. O céu espiritual é chamado ‘glória’ porque as coisas que ali estão aparecem na luz, no esplendor, no brilho.
[4] Que a ‘glória’ seja predicada do Divino Vero que procede do Divino Humano do Senhor, e que seja atribuída ao Senhor como Rei, pois a Realeza, no sentido interno, é o Divino Vero (n. 1728, 2015, 2069, 3009, 3670, 4581, 4966, 5044, 5068), vê-se em João:
“E a Palavra se fez carne, e habitou em nós, e vimos a Sua glória, glória como a do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (1:14);
a ‘Palavra’ é o Divino Vero, este, porque procede do Senhor, é o Senhor mesmo; por issodo Divino Vero é predicada a glória.
[5] Em Lucas, quando Jesus Se transfigurou na montanha:
“Eis dois varões conversavam com Ele, os quais eram Moisés e Elias, que foram vistos na glória” (9:30, 31);
ali o Senhor mostrava a Pedro, a Tiago e a João o Seu Divino Humano tal qual ele era e aparecia na luz Divina; e a forma em que Ele foi então visto apresentava a Palavra qual ela é no sentido interno, assim, tal qual é o Divino Vero no céu, pois a Palavra é o Divino Vero para o uso da igreja. Por isso também, que ao mesmo tempo se mostrava que Moisés e Elias falavam com Ele, visto que por‘Moisés’era representada a Lei, pela qual se entendem seus livros com os históricos; e por‘Elias’, os profetas ou a Palavra profética. (Que aqueles sejam representados por Moisés, vê-se no pref. ao capítulo 18 deGênesis, depois no n. 4859 no fim; e que estes o sejam por Elias, vê-se no mesmo prefácio, depois nos n. 2762, 5247 ao fim.)
[6] Em Mateus:
“Verão o Filho do homem vindo nas nuvens do céu, com virtude e glória” (24:30);
que o sentido literal da Palavra seja a ‘nuvem’, e o sentido interno, a ‘glória’, consequentemente, o Divino Vero qual ele é no céu, foi visto no prefácio ao capítulo 18 de Gênesis; e que a ‘glória’ seja a inteligência e a sabedoria que pertencem ao Divino Vero, n. 4809. A Palavra, quanto ao sentido externo, está na nuvem; a causa vem de que as mentes humanas estão nas trevas, razão pela qual, se a Palavra não estivesse na nuvem, dificilmente seria entendida por alguém; e, além disso, as coisas santas que pertencem ao sentido interno seriam profanadas no mundo pelos maus. É por isso que o Senhor diz em Isaías:
“JEHOVAH criará, sobre todo habitáculo do monte Sião e sobre as suas convocações, uma nuvem... durante o dia, e um esplendor de chama de fogo à noite; poissobre toda a glória [haverá] uma cobertura, e haveráum tabernáculona sombra durante o dia” (4:5, 6).
[7] Era também por isso, que sobre o Tabernáculo aparecia uma nuvem durante o dia e fogo durante a noite, porque o Tabernáculo representava o Divino Humano do Senhor, por conseguinte, o Divino Vero que procede d’Ele, assim, a Palavra, que é o Divino Vero da igreja (ver os n. 3210, 3439). Semelhante coisa é significada por estas palavras em Moisés:
“A nuvem cobriu a Tenda da Convenção, e a glória de JEHOVAH encheu o habitáculo” (Êx. 40:34);
no mesmo:
“A glória de JEHOVAH apareceu na Tenda da Convenção diante dos filhos de Israel” (Nm. 14:10);
e em outra:
“A nuvem cobriu a Tenda, e apareceu a glória de JEHOVAH” (17:7).
[8] Semelhantemente com a nuvem e a glória sobre a montanha de Sinai, a respeito das quais se fala assim em Moisés:
“Quando Moisés subiu a montanha, uma nuvem cobriu a montanha e a Glória de JEHOVAH habitou sobre a montanha de Sinai seis dias” (Êx. 24:15, 16).
Essas coisas eram também representadas, porque a Lei, que é o Divino Vero, era promulgada do alto dessa montanha. Que a nuvem foi vista e a glória de JEHOVAH,quando Moisés subiu a montanha, era porque ele representava em si a Lei, isto é, a Palavra histórica; daí vem que se diga algumas vezes ‘Moisés e os Profetas’, ou ‘a Lei e os Profetas, e pela ‘Lei’ se entendem seus livros com ou outros históricos, mas não os ‘Profetas’, porque a Palavra profética era representada por Elias e Eliseu. Com efeito, a Palavra é, como se sabe, histórica e profética; é por isso que quando a Palavra é chamada ‘a Lei e os Profetas’, por ‘Lei’ se entende a Palavra histórica, e por‘Profetas’ a Palavra profética.
[9] O Divino Vero era também representado por ‘um esplendor equivalente a um arco-íris na nuvem ao redor dos Querubins e acimadeles’ em Ezequiel, onde a respeito deles assim se diz:
“Vi uma aparência de fogo, como um esplendor ao redor, como a aparência de um arco-íris que está na nuvem no dia de chuva; ... esta aparência da semelhança da Glória de JEHOVAH” (1:26, 27, 28);
e também é chamado ‘glória de JEHOVAH’ e ‘glória do Deus de Israel’ (cap.8:4; 10:18, 19; 11:22, 23); ele se chama ‘glória de JEHOVAH’ relativamente ao céu íntimo, e ‘glória do Deus de Israel’ relativamente ao céu médio, ou espiritual. Que o Divino Vero nos céus apareça na glória, é porque o vero mesmo no céu espiritual aparece diante do olhos como uma nuvem de um branco brilhante — nuvem que também me foi concedido ver algumas vezes —, e o bem nesse vero aparece ali como ígneo. Daí, a nuvem variegada pelo fogo dá aparências admiráveis, que são a ‘glória’ no sentido externo; mas a ‘glória’ no sentido interno é a inteligência e a sabedoria; e são também a inteligência e a sabedoria que são representadas por essa nuvem e por esse fogo.
[10] Que o Divino Vero do qual provêm toda a sabedoria e a inteligência, depois, a aparência da nuvem variegada perante a vista externa, seja a ‘glória’, também se vê por estas passagens: Em Moisés:
“Disse JEHOVAH: Vivo Eu [sou] e será cheia da glória de JEHOVAH toda a terra” (Nm. 14:21);
isso foi dito por JEHOVAH quando o povo israelita era repudiado, e quando foi dito quesomenteas crianças deles chegariam à terra de Canaã. Então por isso,que “toda a terra será cheia da glória de JEHOVAH”, era significado que nos representativos da igreja com eles e na Palavra que, quanto a maior parte, trata deles havia a glória de JEHOVAH de que todo o céu era cheio e, daí, as coisassantas para a igreja.
[11] Em Isaías:
“Os serafins clamavam: Santo, Santo, Santo, JEHOVAH Zebaoth; plenitude de toda a terra [é] a Glória d’Ele” (6:3).
No mesmo:
“Será revelada a glória de JEHOVAH, e [a] verão toda carne juntamente” (Is. 40:5).
No mesmo:
“Por isso, no Urim, dai glória a JEHOVAH, nas ilhas do mar, ao Nome de JEHOVAH, Deus de Israel” (Is. 24:15);
o ‘Urim’ está em lugarda luz que provém do Divino Vero procedente do Senhor; as ‘ilhas do mar’está em lugar daqueles que estão mais afastados do vero (n. 1158).
[12] No mesmo:
“A glória do Líbanolhe foi dada, a honra do Carmelo e de Sharon; eles verão a glória de JEHOVAH, a honra do nosso Deus” (Is. 35:2);
o ‘Líbano’ está pela igreja espiritual, ‘Carmelo e Sharon’ pela igreja celeste; desta se predica a ‘Glória de JEHOVAH’ quando se entende o celeste vero, que é a caridade; daquela se predica‘honra do Deus de Israel’ quando se entende o espiritual bem, que é também a caridade.
[13] No mesmo:
“Levanta-te, sê iluminada, porque vem a tua luz, e a Glória de JEHOVAH se elevou sobre Ti; pois eis [que] trevas cobrem a terra, e a escuridão,aos povos, mas sobre Ti se elevará JEHOVAH, e a Glória d’Ele sobre Ti será vista” (Is. 60:1, 2);
aí se trata do Senhor, que é chamado ‘Luz’, como em João 1 (vers. 4, 9); e se diz que ‘sobre Ele se elevará a Glória de JEHOVAH’, isto é, qued’Eleserá o Divino Vero. Semelhantemente, no mesmo:
“Por causa de Mim, por causa de Mim farei, pois como seria profanada?Minha glória não dou a outro” (Is. 48:11);
aí também se trata do Senhor; a ‘glória’, no sentido supremo, está em lugardo Divino Humano, assim, também em lugar do Divino Vero, porque este procede daquele; ‘não dar a um outro a glória’ é dá-la somente ao Divino Humano, que é um com Ele.
[14] Em João:
“A Cidade Santa, Jerusalém, descendo do céu,tendo a glória de Deus; e seu luminar semelhante a uma pedra preciosíssima” (Ap. 21:10, 11);
a ‘Cidade Santa, Jerusalém’ é o Reino espiritual do Senhor nos céus e a Sua igreja espiritual nas terras, dos quais se predica a ‘glória’; o ‘luminar’ é o vero procedente do Divino.
[15] Como é o Divino Vero que é representado pela realeza na Palavra, desde que o Senhor, quanto ao Divino Vero, era representado pelos reis — vejam-se as passagens citadas logo acima —, por isso a ‘glória’ Lhe é atribuída como a um rei, por exemplo, em Davi:
“Elevai, portões, as vossas cabeças; alçai-vos, ó entradas do mundo, para que entre o Rei de glória. Quem [é] este Rei de glória?JEHOVAH forte e herói, JEHOVAH,o herói de guerra. Elevai, ó portões, as vossas cabeças, e elevai-as, ó entradas do mundo, para que entre o Rei da glória, JEHOVAH Zebaoth, este é o Rei da glória” (Sl. 24:7, 8, 9, 10).
Em Isaías:
“JEHOVAH Zebaoth reinará na montanha de Sião e em Jerusalém, e diante dos anciãos d’Ele [haverá] glória” (24:23);
a glória está em lugar do Divino Vero; JEHOVAH é dito ‘JEHOVAH Zebaoth’, ou seja, JEHOVAH dos exércitos, onde se trata do Divino Vero, poispelos ‘Exércitos’ são significados os veros (n. 3448).
[16] E como pela ‘realeza’ era representado o Divino Vero, por isso o ‘trono’, sobre o qual se assentavam os reis quando eles julgavam, era chamado o ‘trono de glória’ (Is. 22:23; Jr. 14:21; 17:12); e em Mateus:
“O Filho do homem se assentará no trono da sua glória” (19:28).
No mesmo:
“Quando vier o Filho do homem em sua glória, e todos os santos anjos com Ele, então se assentará sobre o trono da sua glória;... e dirá o Rei a eles” (Mt. 25:31, 34, 40);
Que o trono é chamado ‘trono da glória’, a causa era também porque os juízos se faziam a partir do vero. No mesmo:
“Virá o Filho do homem na glória do seu Pai, com os seus anjos, e então restituirá a cada um conforme os seus feitos” (Mt. 16:27).
[17] A partir dessas coisas também se torna evidente o que se entende pela glória na Oração Dominical:
“Teu é o Reino, o Poder e a Glória, pelos séculos” (Mt. 6:13).
O Reino espiritual do Senhor nos céus e a igreja espiritual nas terras são também chamados ‘Honra’ [Decus] (Is. 60:7; 63:15; 64:10; Dn. 8:9, 10, 11; 11:16, 41, 45). É também por isso que José falou de glória, porque José mesmo representa, no sentido supremo, o Senhor quanto ao Divino Espiritual ou Divino Vero, e, no sentido interno, o Reino espiritual do Senhor, depois, o bem da fé (ver n. 3969, 4669, 4723, 4727).