. ‘Quais [são] as vossas obras?’ Que signifique a respeito dos ofíciose usos, vê-se pela significação das ‘obras’, que são os bens (n. 6048), assim, os usos e ofícios[ou funções], porque esses são os bens. Todos os bens que são chamados bem da caridade não são nada senão usos, e os usos não são nada senão obras para com o próximo, a pátria, a igreja, o Reino do Senhor; a caridade mesma, considerada em si, não é caridade antes de vir em ato e tornar-se obra. Com efeito, amar alguém e não lhe fazer bem quando se pode é não amar, mas fazer-lhe bem quando se pode, e isso de coração, é amá-lo. E então interiormente no feito mesmo, ou obra, estão contidas todas as coisas que pertencem à caridade para com ele, já que as obras são o complexo de todas as coisas da caridade e da fé no homem, e são elas que se chamam bens espirituais e também se tornam bens pelos exercícios, isto é, pelos usos. [2] Os anjos, que estão no céu, como estão no bem proveniente do Senhor, nada desejam mais do que prestar usos, os usos são os prazeres mesmos davida deles, e também é segundo os usos que eles fruem da bem-aventurança e da felicidade (n. 453, 454, 696, 997, 3645); é também o que o Senhor ensina em Mateus: “Virá o filho do homem na glória do seu Pai com os seus anjos, e então retribuirá a cada um segundo as suas obras” (16:27); pelas ‘obras’ aqui não se entendem as obras tais quais aparecem na forma externa, mas tais quais elas são na forma interna, a saber, segundo a qualidade da caridade que elas têm em si; os anjos não veem as obras de um outro modo. [3] E como as obras são o complexo de todas as coisas que pertencem à caridade e à fé no homem, e a vida faz com que a caridade seja a caridade e com que a fé seja a fé, portanto, o bem, por isso o Senhor amou João mais do que os outros discípulos, e, por isso, durante a ceia, João se recostou sobre o peito do Senhor (João, 21:20), pois por este discípulo eram representados os bens da caridade ou as obras (ver os prefácios ao Gênesis: cap. 18 e 22); por isso também o Senhor lhe disse ‘segue-me’, e não a Pedro, por quem era representada fé (vejam-se os mesmos prefácios); razão por que a fé indignada, que é Pedro, disse: “Senhor, mas este o que [será]? Disse-lhe Jesus: Se ele quero que permaneça até que [Eu] venha, que [importa] a ti? Tu [João] segue-Me” (João, 21:19, 21, 22, 23). Palavras por meio das quais foi também predito que a fé desprezaria as obras, e que, apesar disso, as obras estão juntoao Senhor, como também se pode ver claramente pelas palavras do Senhor às ovelhas e aos bodes (Mt. 25), onde nada a não ser as obras são recenseadas (vers. 34 a 46). Mas que a fé rejeitaria o Senhor, é evidente pela representação por ‘Pedro, que O renegou três vezes’; que‘tenha feito isto de noite’ significa o último tempo da igreja, quando não há mais caridade (n. 6000). Que ‘ele tenha feito isso três vezes’ significa que então está completo (n. 1825, 2788, 4495, 5159); que‘antes que o galo cantasse’ significa antes que o novo da igreja existisse, pois o ‘despontar do dia’ e a ‘manhã’, que seguem depois da noite, significam o primeiro da igreja (n. 2405, 2962).