. ‘Porque a fome [era] muito grave’; que signifique a desolação, vê-se pela significação da ‘fome’, que é falta de bem e de cognições (n. 1460, 3364, 5277, 5279, 5281, 5300, 5579, 5893); assim, a ‘fome muito grave’ é a desolação (n. 5360, 5376, 5415, 5576). Quanto ao que diz respeito à desolação, deve-se saber que os veros e os bens, e as cognições do vero e do bem, fazem a vida espiritual daqueles que estão no céu; são eles as comidas celestes e espirituais de que se nutrem, essas comidas lhes são dadas cotidianamente pelo Senhor: quando é para eles de manhã, os bens lhe são fornecidos, quando chega o meio dia, os veros, mas quando chega a tarde então eles lhes faltam, e isso até o amanhecer; e até a manhã novamente; então eles têm um apetite que é tal, e eles desejam mais do que os famintos desejam a comida na terra. Este estado é significado pela ‘fome’ e é uma espécie de desolação, mas não semelhante a em que estão aqueles que estão na terra inferior (n. 698, 699, 1106 ao 1113). [2] Que tanto apeteça ao céu angélico os veros e os bens e as cognições deles, dificilmente alguém no mundo pode crer; com efeito, aqueles que a nenhuma outra coisa se aplicam senão ao ganho e à glória, e que se entregam às volúpias devem se admirar de que haja tais coisas para a vida dos anjos e devem dizer: “O que são as cognições do bem e do vero? O que de vida provém daí? O que faz a vida e o prazer da vida são as riquezas, as honras e as volúpias.” Mas saibam que a vida proveniente dessas coisas é a vida do corpo, não a vida da alma, e que a vida do corpo perece com o corpo, mas a da alma permanece pela eternidade, e quese aconselham mal os que no mundo nada pensam a respeito da vida espiritual. [3] Continuando, quanto ao quediz respeito à desolação, ela existe por causa do apetite622, porquanto os bens e os veros são recebidos segundo ele, e os desejos que provêm do apetite, quando são obtidos, fazem a satisfação e a felicidade. É por isso que, na outra vida, aqueles que estão na desolação são logo em seguida reconfortados e recebem os desejos; todos são aperfeiçoados por meio de tais alternâncias. O que é digno de ser observado é que as alternâncias do dia no mundo natural, a saber, a manhã, o meio-dia, a tarde, a noite e novamente a manhã, representam absolutamente as alternâncias no mundo espiritual, somente com esta diferença, que as alternâncias do mundo espiritual influem no entendimento e na vontade, e apresentam as coisas que pertencem à vida, mas as alternâncias no mundo natural influem nas coisas pertencentes ao corpo e as sustentam. [4] O que é ainda digno de ser observado é que as sombras da tarde e as trevas da noite não vêm do Senhor, mas do proprium dos anjos, dos espíritos e dos homens. Com efeito, o Senhor, como sol, resplandece e influi continuamente, mas os males e os falsos provenientes do proprium, porque estão nos homens, espíritos e anjos, os voltam e convertem em sentido contrário ao Senhor e, assim, os induz nas sombras da tarde, e aos maus, nas trevas da noite. Acontece coisa semelhante com o sol de nosso mundo: este resplandece e influi continuamente, mas a terra, por sua rotação, desvia dele a sua face e induz-se nas sombras e nas trevas. [5] Que existam essas coisas no mundo natural, a causa éporque o mundo natural existe a partir do mundo espiritual e, portanto, também subsiste; daí vem que toda a natureza seja o teatro representativo do Reino do Senhor (n. 3483, 4939). Que essas alternâncias existam no mundo espiritual, é a fim de que todos que estão no céu sejam continuamente aperfeiçoados; por isso também tais alternâncias existem no mundo natural, pois de outro modo todas as coisas ali pereceriam de sequidão. [6] No entanto, deve-se saber que no céu não há noite, mas somente a tarde, que é sucedida pelo romper do dia, que precede a manhã; mas no inferno há a noite; ali também há alternâncias, mas contrárias às alternâncias no céu. Lá a manhã é o ardor das cobiças, o meio-dia é o prurido das falsidades, a tarde é a ansiedade, e a noite é a tortura. Mas,ainda que passem por todas essas alternâncias,a noite domina; são apenas as variações da sombra e das trevas da noite que apresentam essas alternâncias. [7] Além disso, é necessário saber que no mundo espiritual as alternâncias em um não são semelhantes às alternâncias em um outro; depois, que ali elas foram discriminadas em tempos fixos, pois são as variações de estado que as apresentam, pois em lugar dos tempos que existem no mundo natural, há estados que existem no mundo espiritual (n. 1274, 1382, 2625, 2788, 2837, 3254, 3356, 4814, 4916, 4882, 4901).