Texto
. ‘Não sobrou diante do senhor senão o nosso corpo e o nosso húmus’;que signifique que os receptáculos do bem e do vero tinham sido inteiramente desolados, vê-se pela significação do ‘corpo’, que é o receptáculo do bem, do que se tratará no que segue; e pela significação do ‘húmus’, que é o receptáculo do vero. Que o ‘húmus’ seja o receptáculo, é porque ele recebe as sementes; e pelas ‘sementes que são semeadas’são significadas especialmente as coisas que pertencem à fé proveniente da caridade, assim, as que pertencem ao vero proveniente do bem (n. 1025, 1447, 1610, 1940, 2848, 3038, 3310, 3373). Por isso o ‘húmus’ é o receptáculo do vero(vejam-se também as coisas que anteriormente foram ditas e mostradas a respeito do ‘húmus’, n. 566, 1068, 3671). Que esses receptáculos tenham sido desolados, é significado por isso, que ‘não sobrou diante do senhor nada além’.
[2] O ‘corpo’, no sentido genuíno, significa o bem que pertence ao amor, e o ‘húmus’, o vero que pertence à fé, quando os veros e os bens que pertencem ao vero, que são significados pela prata e o gado, não são mais visíveis por causa da desolação, então pelo ‘corpo’ é significado apenas o receptáculo do bem, e pelo ‘húmus’, o receptáculo do vero. Que o ‘corpo’, no sentido genuíno, signifique o bem que pertence ao amor, vem isso de que o corpo (ou todo o homem, que se entende pelo corpo) é o receptáculo da vida procedente do Senhor, assim, o receptáculo do bem, pois o bem do amor faz a vida mesma do homem. Com efeito, o calor vital, que é o amor, é o calor vital mesmo; e a não ser que esse calor esteja no homem, o homem é uma coisa morta. Daí vemqueagora, no sentido interno, pelo corpo se estende o bem do amor; e embora não haja no homem o amor celeste, mas sim o amor infernal, ainda assim o íntimo da vida dele procede do amor celeste, porquanto esse amor influi continuamente do Senhor e faz no homem o calor vital em seu princípio, mas em sua progressão ele é pervertido pelo homem; daí o amor infernal, do qual vem o calor imundo.
[3] Que o ‘corpo’, no sentido genuíno, seja o bem do amor, é o que pude ver de modo manifesto pelos anjos; deles, quando estão presentes, dimana o amor a tal ponto que se creria serem eles não outra coisa senão o amor, e isto a partir de todo o corpo deles, e também o corpo aparece resplandecente e luminoso por causa da luz que dele provém, porquanto o bem do amor é equivalente a uma chama, que emite de si uma luz, que é o vero da fé procedente desse bem. Como são, portanto, tais os anjos no céu, o que não é o Senhor, de Quem procede o todo do amor que há nos anjos, e cujo Divino Amor aparece como Sol, do qual todo o céu tem sua luz, e de Quem todos os que ali habitam têm o seu calor celeste, isto é, o seu amor, assim, a vida? É o Divino Humano do Senhor que aparece e do qual provêm todas essas coisas. Daí se pode ver o que se entende pelo ‘Corpo’ do Senhor, a saber, que é o Divino Amor; semelhantemente pela ‘Carne’, de que se tratou (n. 3813). O Corpo mesmo do Senhor, quando foi glorificado, isto é, quando foi feito Divino, não é outra coisa. Que outra coisa se deve sentir a respeito do Divino, que é infinito?
[4] A partir disso se pode saber que pelo ‘corpo’, na Santa Ceia, não se entende nenhuma outra coisa senão o Divino Amor do Senhor para com todo o gênero humano, do qual assim se fala nos Evangelistas:
“Jesus, tomando o pão e abençoando, partiu e deu aos discípulos e disse: Tomai, comei, isto é o Meu corpo” (Mt. 26:26; Mc. 14:22; Lc. 22:19);
Ele disse do pão: “Isto é o Meu Corpo”, porque o ‘pão’ significa também o Divino Amor (n. 276, 680, 2165, 2177, 3464, 3478, 4735, 5915).
[5] O Divino Amor tambémé significado pelo Corpo do Senhor em João:
“Disse Jesus: Destruí o Templo, e em três dias o reerguerei; ... mas Ele falava do Templo do Seu Corpo” (2:19, 21);
o ‘Templo de Seu corpo’ é o Divino Vero oriundo do Divino Bem. Que o ‘Templo’ seja o Senhor quanto ao Divino Vero, foi visto (n. 3720); e como o ‘Corpo’, no sentido supremo, é o Divino Bem do Divino Amor do Senhor, daí todos que estão no céudizem estar no Corpo do Senhor.
[6] Que o ‘corpo’ do Senhor seja o Divino Bem, vê-se também por estas palavras em Daniel:
“Ergui os meus olhos e vi: eis um único varão vestido de linho, cujos lombos [estavam] cingidos de ouro de Ufaz, e o seu Corpo [era] como uma turquesa [thashish], e as faces dele [eram] como a aparência do relâmpago, e os seus olhos como tochas de fogo, e os seus braços e os seus pés como o esplendor do cobre polido, e a voz das suas palavras como a voz de uma multidão” (10:5, 6);
pelo ‘ouro de Ufaz’, de que os seus lombos estavam cingidos, pela ‘aparência de relâmpago’, que a sua face apresentava, pelas ‘tochas de fogo’, de que brilhavam seus olhos, pelo ‘esplendor do cobre’, que tinham seus braços e seus pés, são significados os bens do amor; que o ‘ouro’ seja o bem do amor, foi visto(n. 113, 1551, 1552, 5658); que também o ‘fogo’, n. 934, 4906, 5215, e porque o fogo, também o ‘relâmpago’; que o ‘cobre’ seja o bem do amor e da caridade no natural, n. 425, 1551; pela ‘turquesa’ conforme a qual apareceu o restante do corpo, a saber, o meio do corpo entre a cabeça e os lombos, é significado o bem da caridade e da fé, porquanto a ‘turquesa’ é uma pedra preciosa fulgurante.