ac 6148

Emanuel Swedenborg
Obra: Arcanos Celestes – Gênesis Explicado

Texto

. ‘Somente o húmus dos sacerdotes não comprou’;que signifique que o interno proveniente do natural adquiriu as faculdades de receber o bem, porque essas faculdades procedem dele mesmo, vê-se pela representação de ‘José’, de quem essas coisas são ditas, que é o interno; pela significação do ‘húmus’, que é o receptáculo do vero (n. 6135, 6136, 6137), aqui, a faculdade de receber o bem, porquanto a faculdade é a receptibilidade que aí estará para que o receptáculo seja receptáculo. Essa faculdade vem do bem, isto é, do Senhor por meio do bem. Com efeito, a não ser que do Senhor influísse o bem do amor, nunca homem algum teria a faculdade de receber o vero nem o bem; o influxo do bem do amor procedente do Senhor faz com que todas as coisas interiormente no homem sejam dispostas para a recepção. Que seja a faculdade de receber o bem “proveniente do natural”, é isso significado por isso, que o ‘húmus estava no Egito’, visto que o Egito significa o natural quanto aos conhecimentos (n. 6142). É também o que se vê pela significação dos ‘sacerdotes’, que são o bem, do que se tratará no que segue; e pela significação de ‘não comprar’, que é não se apropriar dessas faculdades, do mesmo modo comose apropriou dos veros e dos bens que pertencem ao vero com os receptáculos deles, o que foi feito por meio das desolações e sustentações;a causa vem de que essas faculdades vinham dele mesmo, isto é, do interno. Vem daí que por ‘somente ao húmus dos sacerdotes não comprou’ é significado que o interno proveniente do natural tinha adquirido as faculdades de receber o bem, porque essas faculdades procedem dele mesmo.
[2] Com isso acontece assim: As faculdades de receber o vero e o bem estão imediatamente no homem pelo Senhor, nenhum auxílio para que elas sejam adquiridas vem do homem; uma vez que o homem é sempre mantido na faculdade de receber o bem e o vero, a partir dessa faculdade ele tem o entendimento e a vontade; mas que não receba, acontece quando o homem se converte ao mal; então na realidade a faculdade permanece, mas lhe é fechada a entrada para o cogitativo e para o sensitivo. É por isso que a faculdade de ver o vero e de sentir o bem tanto mais perece, quanto mais o homem se converte o mal e nele se confirma pela vida e fé. Que o homem em nada absolutamente contribua para faculdade de receber o vero e o bem, é sabido na igreja a partir do doutrinal: que nada do vero pertencente à fé, nem nada do bem que pertence à caridade venha do homem, mas sim do Senhor. Contudo, o homem pode destruir em si essa faculdade. Daí agora se pode ver como se deve entender que o interno proveniente do natural tinha adquirido as faculdades de receber o bem, porque essas faculdades vêm dele mesmo. Que se diga “proveniente do natural” é porque o influxo do bem procedente do Senhor se faz do Senhor, por meio do interno, no natural; ali, quando a faculdade de receber foi adquirida, então se faz o influxo, pois então há recepção (ver n. 5828).
[3] Que pelos ‘sacerdotes’ sejam significados os bens, deve-se saber que há duas coisas que procedem do Senhor, a saber, o bem e o vero; o Divino Bem foi representado pelos ‘sacerdotes’, e o Divino Vero pelos ‘reis’; vem daí que pelos ‘sacerdotes’ são significados os bens, e pelos ‘reis’, os veros. (A respeito do sacerdócio e da realeza, que são predicados do Senhor, ver os n. 1728, 2015 no fim, 3670). Essas duas coisas, a saber, o sacerdócio e a realeza, na Igreja Representativa Antiga, foram conjuntas em uma só pessoa, a causa vem de que o bem e o vero que procedem do Senhor são unidos; e elas também foram conjuntas no céu nos anjos.
[4] A pessoa em que essas duas coisas foram conjuntas na Antiga Igreja, chamava-se Melquisedeque, ou rei de justiça; coisa que se pode ver por Melquisedeque, que veio a Abrahão, e de quem se fala assim:
“Melquisedeque,rei de Salém trouxe para fora pão e vinho, e ele [era] sacerdote ao Deus Altíssimo; e abençoou Abrahão” (Gn. 14:18, 19).
Que ele tenha representado o Senhor quanto a uma e outra coisa, vê-se claramente a partir disso, que ele foi rei e, ao mesmo tempo, sacerdote, eque lhe foi permitido abençoar Abrahão, e lhe oferecer o pão e o vinho, que eram também, naquele tempo, os símbolos do bem do amor e do vero da fé. Que ele tenha representado o Senhor quanto a uma e outra coisa, é ainda evidente em Davi:
“JEHOVAHjurou, e Ele não se arrependerá: Tu [és] sacerdote pela eternidade, segundo o modo de Melquisedeque” (Sl. 110:4);
estas palavras foram ditas do Senhor; ‘segundo o modo de Melquisedeque’ é que Ele é rei e sacerdote, isto é, no sentido supremo, que d’Ele procede o Divino Bem e Divino Vero juntos.
[5] Como a Igreja Representativa devia também ser instituída entre os pósteros de Jacó, do mesmo modo também em uma só pessoa devia ser conjuntamente representado o Divino Bem e Divino Vero, que procedem unidos do Senhor; mas por causa das guerras, e por causa da idolatria desse povo, essas duas coisas no começo foram divididas, e aqueles que reinavam sobre o povo foram chamados chefes[duces], e depois juízes; e os que desempenhavam as funções santas foram chamados sacerdotes, e eles eram da semente de Aharão, e Levitas; mas depois essas duas coisas foram conjuntas em uma só pessoa, por exemplo, em Eli e em Samuel. Mas como esse povo era tal, que nele não se podia instituir uma Igreja Representativa, mas somente um representativo de igreja, por causa da idolatria que reinava nele, por isso fora permitido que fossem separadas [as duas funções], e que o Senhor fosse representado quanto ao Divino Vero pelos reis, e quanto ao Divino Bem pelos sacerdotes. Que isso tenha sido feito a partirdo ardente desejo do povo, e não tenha vindo do beneplácito do Senhor, vê-se pela Palavra de JEHOVAH a Samuel:
“Obedece a voz do povo em tudo que disserem a ti, porquanto não te repudiaram, mas Me repudiaram, para que [Eu] não reine sobre eles; e declararás a eles o direito do rei” (1Sm. 8:7 até o fim; 12:19, 20).
[6] Que essas duas funções não deviam ser separadas, era porque o Divino Vero separado do Divino Bem dana a cada um, mas o Divino Vero unido ao Divino Bem salva. Com efeito, em razão do Divino Vero o homem é danado ao inferno, mas pelo Divino Bem ele é retirado dali e elevado ao céu; a salvação pertence à misericórdia, assim, ela procede do Divino Bem; mas há danação quando o homem recusa a misericórdia, e assim rejeita de si o Divino Bem; daí ele é deixado ao juízo proveniente do Vero. Que os ‘reis’ tenham representado o Divino Vero, foi visto(n. 1672, 1728, 2015, 2069, 3009, 3670, 4575, 4581, 4966, 5044, 5068).
[7] Que os ‘sacerdotes’ tenham representado o Senhor quanto ao Divino Bem e, por isso, por elesseja significado o Bem, pode-se ver no sentido interno por todas as coisas que foram instituídas a respeitodo sacerdócio, quando foi escolhido Aharão, e depois os levitas; por exemplo, que “o sumo sacerdote entraria só no Santo dos santos e aliministraria [ou faria o serviço]; que as coisas santas a JEHOVAH seriam para o sacerdote” (Lv. 23:20; 27:21); que “na terra eles não teriam porção nem herança, mas que JEHOVAH seria a porção e a herança deles” (Nm. 18:20; Dt. 10:9; 18:1); que os levitas tinham sido dados a JEHOVAH em lugar dos primogênitos, e que eles foram dados por JEHOVAH a Aharão (Nm. 3:9, 12, 13, 40 ao fim; 8:16 ao 19); que o sacerdote máximo com os levitas estavam no meio do acampamento, quando se demarcava o acampamento e quando partiam (Nm. 1:50 ao 54; 2:17; 3:23 ao 38; 41 ao fim); que nenhum da semente de Aharão, em quem houvesse alguma mancha, se aproximasse para oferecer os holocaustos e os sacrifícios (Lv. 21:17 ao 20); além de muitas outras coisas, como as que estão em Lv. 21:9, 10, 11, 12, 13, e outras passagens.
[8] Todas essas coisas representavam, no sentido supremo, o Divino Bem do Senhor, e, daí, no sentido representativo, o bem que pertence ao amor e à caridade. Quanto às vestimentas de Aharão, que foram chamadas ‘vestes de santidade’, elas representavam o Divino Vero procedente do Divino Bem; a respeito dessas coisas se tratará,pela Divina Misericórdia do Senhor, nas explicações sobre as coisas que estão emÊxodo.
[9] Como o vero é significado pelos ‘reis’, e o bem pelos ‘sacerdotes’, por isso os reis e os sacerdotes são muitas vezes mencionados juntamente na Palavra, como em João:
“Jesus Cristo fez-nos reis e sacerdotes a Deus e Seu Pai” (Ap. 1:6; 5:10);
diz-se que eles foram feitos reis por causa do vero que pertence à fé, e sacerdotes por causa do bem que pertence à caridade, assim, o vero e o bem naqueles que estão no Senhor foram conjuntos, como eles estão conjuntos no céu, como acima foi dito; isso se entende por ‘terem sido feitos reis e sacerdotes’.
[10] Em Jeremias:
“Acontecerá, nesse dia, ... perecerá o coração do rei e dos príncipes, e espantar-se-ão os sacerdotes, e os profetas ficarãoadmirados” (4:9).
No mesmo:
“Envergonhados foram [os da] casa de Israel, eles, os reis deles, e os príncipes deles, e os sacerdotes deles, e os profetas deles” (Jr. 2:26).
No mesmo:
“Os reis de Judá, os príncipes, ossacerdotes e os profetas, e os habitantes de Jerusalém” (Jr. 8:1);
nessas passagens os ‘reis’ estão em lugardos veros, os ‘príncipes’, em lugar dos principais veros (n. 1486, 2089, 5044); os ‘sacerdotes’ estãopelos bens, e os ‘profetas’, pelos que ensinam (n. 2534).
[11] Além disso, deve-se saber que por ‘José não comprando o húmus dos sacerdotes’ havia este representativo, que do Senhor procede toda faculdade de receber o vero e o bem, isso é evidente por uma lei semelhante a respeitodos campos dos levitas em Moisés:
“O campo do subúrbio das cidades dos levitas não será vendido, porque posse eterna para eles ele [é]” (Lv. 25:34);
por esse modo se entende, no sentido interno, que nenhum homem deve reivindicar para si o bem da igreja, que é o bem do amor e da caridade, porque esse bem procede do Senhor só.

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