Texto
. ‘Até ao desejo das colinas do século’; que signifique até o amor mútuo celeste, vê-se pela significação das ‘colinas do século’, que são as coisas que pertencem ao amor mútuo, de que se tratará no que segue; ‘até ao desejo das colinas do século’ significa para que a igreja espiritual venha a esse amor. Antes de demonstrar por outras passagens da Palavra que as ‘colinas do século’ significam o amor mútuo,deve-se primeiro dizer o que se entende pelo amor mútuo, ao qual o homem da Igreja espiritual, que é representado por ‘José’, deve muito se ocupar em chegar. Pelas coisas que anteriormente foram muitíssimas vezes ditas e demonstradas, pode se ver que há dois Reinos que constituem o céu, a saber, o Reino celeste e o Reino espiritual; a diferença entre esses dois Reinos éque o bem interno do Reino celeste é o bem do amor ao Senhor, e que o seu externo é o bem do amor mútuo. Aqueles que são desse Reino estão no bem do amor, mas não no vero que se chama o vero da fé, porquanto este vero estáde tal modo no bem desse Reino, que ele não pode ser visto separadamente do bem; é por isso que aqueles que são desse Reino não podem sequer mencionar a fé (n. 202, 203, 4448), pois neles em lugar do vero da fé há o bem do amor mútuo. Quanto, porém, ao que diz respeito ao Reino espiritual, o seu interno é o bem da caridade para com próximo, por sua vez, seu externo é o vero da fé.
[2] A partir dessas explicações, pode-se ver que diferença há entre esses dois Reinos, depois também, que eles concordem nisto, que o externo do Reino celeste coincide com o interno do Reino espiritual por meio do intermediário que se chama celeste do espiritual. Com efeito, o externo do Reino celeste é, como dito acima, o bem do amor mútuo; e o interno do Reino espiritual é o bem da caridade para com o próximo; mas o bem do amor mútuo é mais interior do que o bem da caridade para com o próximo; aquele, com efeito,provém do racional, este,porém, provém do natural; mas ainda assim o bem do amor mútuo, que é o externo da Igreja celeste, é mais interior; e o bem da caridade para com o próximo é mais exterior. O fato é que, apesar disso, o Senhor conjunge esses bens pelo intermediário, como acaba de ser dito, e assim conjunge esses dois Reinos.
[3] Para distinguir entre o bem externo da Igreja celeste e o bem interno da Igreja espiritual, é conveniente chamar, na sequência, aquele de ‘bem do amor mútuo’, e este ‘bem da caridade para com próximo’, diferença que não foi observada nas explicações que precedem. Com estas coisas sendo previamente conhecidas, pode-se dizer o que é significado por ‘até ao desejo das colinas do século’, o que está entre as bênçãos de Israel a respeitodessa Igreja espiritual, a saber, que é a fim de que o Reino espiritual venha acima do bem da caridade até o bem do amor mútuo que pertence ao Reino celeste, e que assim esses dois Reinos fiquem intimamente conjungidos.São estas as coisas que são significadas por essas palavras.
[4] Na Palavra profética as montanhas e as colinas são mencionadas em um grande número de passagens, e por elas, no sentido interno, são significados os bens do amor: pelas ‘montanhas’ [ou montes], o bem do amor ao Senhor, que é o interno do Reino celeste, e pelas ‘colinas’, o bem do amor mútuo, que é o externo desse mesmo Reino. Onde, porém, se trata do Reino espiritual, ali as ‘montanhas’ significam o bem da caridade para com o próximo, que é o interno desse Reino, e as ‘colinas’, o vero da fé, que é o seu externo. Deve-se saber que toda igreja do Senhor é interna e externa, assim também um e outro Reinos d’Ele.
[5] Que sejamessas as coisas significadas pelas ‘colinas’, pode-se ver por estas passagens: Em Isaías:
“Na posteridade dos dias acontecerá que a montanha de JEHOVAH [estará] por cabeça das montanhas, e será elevadaacima das colinas” (2:2, Mq. 4:1).
A ‘montanha de JEHOVAH’, que é Sião, está em lugardo Reino celeste do Senhor, assim, em lugar do bem desse Reino, bem que pertence ao amor ao Senhor, assim, no sentido supremo, é o Senhor mesmo, pois todo amor, e todo bem no Reino celeste pertencem ao Senhor.
[6] Coisa semelhante é significada pela ‘montanha de Sião’ em outra passagem, na Palavra, e pela sua ‘colina’ é significado o bem do amor mútuo; como em Isaías:
“Descerá JEHOVAH Zebaoth para pelejar sobre a montanha de Sião, e sobre a sua colina” (31:4);
aí a ‘colina’ está em lugardo bem do amor mútuo; e como pela ‘colina’ é significado o bem do amor mútuo, e pela ‘montanha’, o bem do amor celeste, que pertence ao amor ao Senhor, diz-se que “JEHOVAH desce para pelejar sobre essa montanha”; JEHOVAH não peleja sobre a montanha de Sião, nem sobre a sua colina; mas, onde está o bem do amor. O Senhor, Que ali é ‘JEHOVAH’, peleja por esse bem, isto é, pelos que estão nesse bem. Se Ele tinha pelejado por Sião e por Jerusalém, é porque elas representavam a Igreja celeste; é também por isso que a montanha de Sião é chamada santa e que Jerusalém é dita santa, quando, todavia, ela era em si mesma corrompida, como se vê claramente nos Profetas, onde se trata de suas abominações.
[7] Em Davi:
“Trarão às montanhas a paz, ... e as colinas [estarão] na justiça” (Sl. 72:3).
No mesmo:
“Louvai JEHOVAH ..., ó montanhas e todas as colinas” (Sl. 148:9).
No mesmo:
“As montanhas saltaram como carneiros, as colinas como os filhos do rebanho” (Sl. 114:4, 6).
No mesmo:
“Monte de Deus, monte de Bashan;um monte das colinas, o monte de Bashan, ... porque saltavas, ómontes, colinas dos montes? deseja Deus habitá-lo; também JEHOVAHhabitará [ali] perpetuamente” (Sl. 68:16, 17 [Em JFA, 68:15, 16]);
nessas passagens as ‘montanhas’ [ou montes] estão em lugardo amor celeste, e as ‘colinas’ em lugar do amor espiritual. Que não sejam montanhas nem colinas que se entendem, nem aqueles que estavam sobreas montanhas e colinas, é manifestamente claro.
[8] Em Isaías:
“Haverá sobre toda montanha alta, e sobre toda colina elevada, ribeiros e cursos d’águas” (30:25);
os ‘cursos d’águas’ estão em lugardas cognições do bem e do vero, que estejam ‘sobre toda montanha alta e sobre toda colina elevada’, é porque essas cognições fluem do bem do amor celeste e espiritual.
[9] Em Habacuque:
“JEHOVAH parou e foi medida a terra, viu e dissipou as nações, porque dispersadas foram as montanhas de eternidade, e humilharam-se as colinas do século” (3:6);
as ‘montanhas de eternidade’ estão em lugardo bem do amor que existiu na Igreja Antiquíssima, que era celeste; as ‘colinas do século’ estão em lugardo bem do amor mútuo, que existiunessa igreja; aquele bem era o seu interno, e este o seu externo. Quando se entendeessa igreja na Palavra, como era a Antiquíssima, acrescenta-se, algumas vezes, a eternidade, como aqui ‘montanhas da eternidade’, mas em outro lugar,‘dias de eternidade’ (n. 6239); e também às vezes se acrescenta o século, como aqui ‘colinas do século’, como também no [discurso] profético de Israel: “até o desejo das colinas do século”. Ali se pode ver que as ‘colinas do século’ significam os bens do amor mútuo que estão na Igreja celeste, ou no Reino celeste do Senhor.
[10] Semelhantemente em Moisés, no seu profético a respeito de José:
“De primíciasdas montanhas do oriente, e de coisas preciosas das colinas de eternidade, ... venham à cabeça de José”(Dt. 33:15, 16).
Em Isaías:
“As montanhas e as colinas ressoarão em canto, e todas as árvores do campo aplaudirão com a palma [da mão]” (55:12).
Em Joel:
“Nesse dia, os montesdestilarão mosto, e as colinas fluirão leite, e todos os ribeiros de Judá fluirão águas” (4:18 [Em JFA, 3:18];Amós, 9:13).
Em Ezequiel:
“Erram as minhas ovelhas em todas as montanhas, e sobre toda colina alta, sobre todas as faces da terra foram dispersas; ... dar-lhes-ei,nos circuitos da minha colina, a bênção, e enviarei a chuva no seu tempo” (34:6, 26).
Em Jeremias:
“Sobre todas as colinas no deserto vieram osvastadores, porque a espada de JEHOVAHque devora, ...” (12:12);
nessas passagens os bens do amor celeste são significados pelas ‘montanhas’, e semelhantemente pelas ‘colinas’, mas em um grau inferior.
[11] Como as ‘montanhas’ e as ‘colinas’ significavam tais bens, o culto Divino na Antiga Igreja foi feito sobre as montanhas e colinas, e mais tarde a nação hebreia punha os altares nas montanhas e nas colinas, e lá faziam sacrifícios e fumigações, e onde não havia colinas eles construíam lugares altos. Este culto,porque se tornou idolátrico por causa disso, que eles adoraram como santas as montanhas mesmas e as colinas, e não pensavam absolutamente nada das coisas santas que elas significavam, por isso é que foi proibido ao povo israelita e judeu de ter esse culto, porquanto esse povo, mais do que todos os outros, era propenso ao culto idolátrico. Contudo, para que esse representativo, que tinha existido nos antigos tempos, fosse conservado, a montanha de Sião foi escolhida, e por ela, no sentido supremo, foi representado o Divino Bem do Divino Amor do Senhor, e no sentido relativo, o Divino Celeste e o Divino Espiritual em Seu Reino.
[12] Como tais coisas eram significadas, Abrahão recebeu ordens de sacrificar seu filho sobre uma das montanhas na terra de Moriah, depois também o Senhor foi visto por Moisés sobre uma montanha, e a Lei foi promulgada de sobre uma montanha, porquanto Ele foi visto por Moisés sobre a montanha de Horebe, e a Lei foi promulgada sobre a montanha de Sinai; e, além disso, o Templo de Jerusalém foi edificado sobre uma montanha.
[13] Que em razão de um antigo rito se tenha feito o santo culto sobre montanhas e sobre colinas, e que depois as nações e também os israelitas e os judeus idólatras tenham feito sobre elas os seus sacrifícios e as suas fumigações, é evidente em Jeremias:
“Os teus adúlteros e os teus rinchos, o crime das tuas escortações, sobre as colinas no campo, vi as tuas abominações” (13:27);
aí se trata de Jerusalém. Em Ezequiel:
“Quando estiverem os trespassados deles no meio dos ídolos deles, ao redor dos altares deles, sobre toda colina alta, em todas as cabeças das montanhas, e debaixo de toda árvore verde, e debaixo de todo carvalho frondoso [implexa]” (6:13).
Em Jeremias:
“Sobre toda colina alta e debaixo de toda árvore verde, tu prevaricaste, meretriz” (2:20; cap. 3:6);
E, além disso, 1Rs. 14:23; 2Rs. 16:4; 17:10.
[14] Como o culto idolátrico se fazia sobre as montanhas e as colinas, por elas, no sentido oposto, são significados os males que pertencem ao amor de si, como em Jeremias:
“As montanhas, e eis estão abaladas, e todas as colinas estão derrubadas; vi, e eis, nenhum homem, e todas as aves de céu voaram” (4:24, 25).
Em Isaías:
“Todo vale será levantado, e toda montanha e colina serão humilhadas” (40:4).
No mesmo:
“Eis que te pus como grade nova gradada,guarnecida de pontas, e triturarás as montanhas, e as colinas como a casca porás” (Is. 41:15).
No mesmo:
“Vastarei os montes e as colinas, e toda erva deles secarei” (Is. 42:15).
Em Miqueias:
“Ouvi, peço[-te], o que JEHOVAHestá falando: Levanta-te, contende com as montanhas, e ouçam as colinas a tua voz” (6:1).
Em Jeremias:
“Ovelhas perdidas foram o Meu povo, os seus pastores os seduziram, montanhas refratárias, partiram do monte sobre a colina, esquecidas estão as suas camas” (50:6).
E, além disso, em outras passagens, como em Jr. 16:16; Na. 1:5, 6.
[15] Que as ‘montanhas’ e as ‘colinas’ significavam os bens do amor celeste e do amor espiritual, era porque elas são elevadas acima da terra, epelas coisas altas e elevadas eram significadas as que pertenciam ao céu e, no sentido supremo, as que pertenciam ao Senhor. A‘terra de Canaã’, com efeito, significava o Reino celeste do Senhor (n. 1607, 3038, 3481, 3705, 4240, 4447), daí todas as coisas que ali eram significativas; as ‘montanhas’ e as ‘colinas’ significativas de tais coisas que são elevadas. De fato, quando os antiquíssimos, que foram da Igreja celeste, subiam uma montanha sobrevinha [à sua ideia] a altura, e pela altura o [estado] santo; isso vinha de que JEHOVAH, ou o Senhor, era tido como habitando nos lugares altíssimos, e porque, no sentido espiritual, a altura era o bem do amor (n. 650).