. (Vers. 2) "O qual testificou da Palavra de Deus e do testemunho de Jesus Cristo". Que isto signifique aqueles que de coração reconhecem o Divino Vero e o Divino do Senhor em Seu Humano vê-se pela significação de 'testificar', que é reconhecer de coração (de que se falará a seguir); pela significação de 'Palavra' ou fala de Deus, que é o Divino Vero (de que se tratou nos nºs 4692, 5075 e 9987); e pela significação de "[testemunho] de Jesus Cristo", que é o reconhecimento do Divino do Senhor em Seu Humano. Que isto seja significado pelo 'testemunho de Jesus Cristo' é porque 'testificar' significa reconhecer de coração, e reconhecer Jesus Cristo de coração é reconhecer o Divino em Seu Humano, pois quem reconhece o Senhor e não ao mesmo tempo o Divino em Seu Humano não reconhece o Senhor, porque o Seu Divino está em Seu Humano e não fora dele. Com efeito, o Divino no Seu Humano é como a alma no corpo. Por isso, pensar no Humano do Senhor e não ao mesmo tempo em Seu Divino é como pensar num homem abstratamente de sua alma ou de sua vida, o que é pensar não no homem. [2] Que o Divino do Senhor esteja em Seu Humano e que estes, juntos, sejam uma só Pessoa, é o que ensina a doutrina aceita em todo o mundo cristão, pois ela ensina assim: "Embora Cristo seja Deus e Homem, não há, todavia, dois, mas um só Cristo. É um só; não, porém, que o Divino se mude em Humano, mas o Divino recebeu em Si o Humano. É inteiramente um; não, porém, que as duas naturezas sejam mescladas, mas é uma única Pessoa. Porque assim como a alma e o corpo fazem um só homem, também Deus e Homem é um só Cristo" (Do Credo de Atanásio). Daí é evidente, também, que aqueles que separam o Divino em três Pessoas, quando pensam no Senhor como outra Pessoa, devem pensar em um e outro ao mesmo tempo, tanto o Humano quanto o Divino, pois foi dito que são uma única Pessoa e que são como a alma e o corpo. Por conseguinte, os que pensam de outra maneira não pensam no Senhor, e os que não pensam assim sobre o Senhor não podem pensar no Divino que é chamado Pai, porque o Senhor diz: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai a não ser por Mim" (Jo. 14:6). Como esse reconhecimento é significado pelo 'testemunho de Jesus Cristo', por isso foi dito que: "O testemunho de Jesus é o espírito da profecia" (Ap. 19:10); o 'espírito da profecia' é a vida e a alma da doutrina. (Que o 'espírito', no sentido interno da Palavra, signifique a vida ou a alma, vê-se nos nºs 5222, 9281 e 9818. Que a 'profecia' signifique a doutrina, nºs 2534 e 7269; e o reconhecimento do Senhor é a vida mesma ou a alma de toda doutrina na igreja. Mas, a este respeito, dir-se-ão muitas coisas na seqüência). [3] Que 'testificar' seja reconhecer de coração é porque se trata de coisas espirituais, e ninguém pode testificar sobre elas senão de coração, pois de outra maneira não se percebe que sejam assim. Mas testificar sobre as coisas tais que existem no mundo é testificar pela ciência ou pela memória e pelo pensamento, porque assim se viu ou ouviu; nas coisas espirituais, porém, é diferente, porque estas enchem toda a vida e a constituem. O espírito do homem, no qual a vida do homem reside em primeiro lugar, não é outra coisa senão sua vontade ou seu amor, e, por conseguinte, seu entendimento e sua fé. E o 'coração' na Palavra significa a vontade e o amor e, por conseguinte, o entendimento e a fé. Daí se torna evidente de onde procede que por 'testificar', no sentido espiritual, se entende reconhecer de coração. Como o 'coração' significa o bem do amor, e é somente este que reconhece o Divino Vero e o Divino do Senhor em Seu Humano, e esse bem é significado por 'João', por isso, também, João diz que 'testifica da Palavra de Deus e do testemunho de Jesus Cristo', como também em outra passagem: "E aquele que vê testificou, e seu testemunho é verdadeiro, e ele sabe que é verdadeiro o que diz, para que vós creiais" (Jo. 19:35), e em outra passagem: "Este é o discípulo que testifica dessas coisas e as escreve, e sabemos que seu testemunho é verdadeiro" (Jo. 21:24).