AE 83

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. "E fui morto". Que isto signifique que Ele foi rejeitado, pode-se ver pelo fato de o Senhor ser tido como 'morto' quando não há mais fé e amor para com Ele, pois o Senhor vive naqueles que estão no amor e na fé n'Ele, mas não vive naqueles que não estão no amor e na fé. Nesses o Senhor é tido como 'morto', pois que é rejeitado. Isto é o que se entende aqui, no sentido interno, por 'fui morto', enquanto no sentido da letra se diz que foi crucificado. Coisa semelhante é significada no sentido interno, também, pelo fato de o Senhor ser crucificado, a saber, que foi rejeitado e assim tratado pelos judeus. De fato, o Senhor, quando esteve no mundo, era o Divino Vero mesmo, e como o Divino Vero foi inteiramente rejeitado pelos judeus, por isso também o Senhor, que era o Divino Vero, deixou-Se crucificar. Estas são as significações de todas as coisas que se acham relatadas nos Evangelhos sobre a paixão do Senhor. Cada uma delas, mesmo as mais singulares, envolve isso. Por esse motivo, onde o Senhor fala de Sua paixão, Ele Se chama 'Filho do homem', isto é, o Divino Vero (vê-se acima, nº 63). Que o Divino Vero tenha sido inteiramente rejeitado pelos judeus é fato conhecido, pois não reconheceram coisa alguma que fora dita pelo Senhor, nem mesmo que Ele era o Filho de Deus. Por aí se pode saber também de que modo se devem entender as coisas que o Senhor falou aos discípulos sobre a Sua rejeição. Em Lucas:
"Importa que o Filho do Homem sofra muitas coisas e seja desprezado pelos anciãos e principais dos sacerdotes e os escribas" (Lc. 9:22);
no mesmo:
"Importa que o Filho do homem sofra e seja desprezado por esta geração" (Lc. 17:25);
em Marcos:
"Está escrito sobre o Filho do homem que Ele deve sofrer muitas coisas e ser aviltado" (Mc. 9:12);
Em Lucas:
"Jesus, tendo tomado os doze, disse-lhes: Eis que subimos a Jerusalém, e serão cumpridas todas as coisas que foram preditas pelos profetas sobre o Filho do homem, que será entregue aos gentios e será escarnecido, e injuriado e cuspido; e depois de O açoitarem, O matarão, mas no terceiro dia ressurgirá" (Lc. 18:31-33).
Cada uma destas palavras significa de que maneira eles trataram o Divino Vero, que era da Palavra: 'Jerusalém' aí é a Igreja Judaica; 'entregue aos gentios, escarnecido, injuriado, cuspido, açoitado e morto' são os modos nefandos como trataram o Divino Vero; e como o Senhor era o Divino Vero mesmo, pois era a Palavra (Jo. 1:14), e foi predito nos profetas que no fim da igreja assim fariam, por isso foi dito 'para que sejam cumpridas todas as coisas que foram preditas pelos profetas sobre o Filho do homem'. De modo semelhante, em outra passagem, no mesmo livro:
"Estas são as palavras que vos falei, quando ainda estava convosco, que importava que fossem cumpridas todas as coisas que sobre Mim foram escritas na lei de Moisés e nos Profetas e nos Salmos" (Lc. 24:44).
Que todas as coisas estavam consumadas quando Jesus foi crucificado, Ele mesmo o disse quando estava na cruz:
"Como Jesus sabia que todas as coisas estavam consumadas, para que se cumprisse a Escritura, disse: Tenho sede" (Jo. 19:28);
que então tenha dito 'tenho sede' era porque desejava uma nova igreja que O reconhecesse. Que 'ter sede', no sentido espiritual, signifique desejar, e que isso se refira aos veros da igreja, vê-se nos nºs 4958, 4976 e 8568. Estas são, também, as coisas que foram preditas por Daniel a respeito da devastação e da desolação:
"Depois de setenta e duas semanas o Messias será cortado, mas não para Si; então o povo do príncipe que há de vir destruirá a cidade e o santuário, de modo que seu fim [será] com inundação; (...) finalmente sobre a ave da abominação, a desolação, e até que a consumação e a decisão seja derramada sobre a devastação" (Dn. 9:26, 27).
'Desolação' e 'devastação' significam o repúdio31 e a rejeição do Divino Vero naqueles que são da igreja (vê-se nos nºs 5300 e 5376). Que o Divino Vero, que é a Palavra, seria assim repudiado pelos judeus, também se entende por estas palavras em Mateus:
"Digo-vos, Elias já veio, e não o reconheceram, mas fizeram a ele tudo o que quiseram. Assim também há de ser que o Filho do homem sofrerá [às mãos] deles" (Mt. 17:12);
por 'Elias' é significada a Palavra (vê-se no prefácio do capítulo 18 de Gênesis e nos nºs 2762, 5247), como também por 'João Batista', pelo que este é chamado de 'Elias' (nºs. 7643 e 9372). Daí se torna evidente o que é significado por 'Elias veio' e por 'fizeram a ele tudo o que quiseram', e por 'há de ser que o Filho do homem sofrerá [às mãos] deles'. De que maneira os judeus explicaram a Palavra e assim a rejeitaram, é evidente por muitas passagens nos Evangelistas, onde o Senhor manifesta isso. Por estas explicações agora se pode ver que 'Eu sou [o que estive] morto significa que foi rejeitado. Que pela paixão da cruz o Senhor também glorificou o Seu Humano, isto é, tornou-o Divino, vê-se na Doutrina da Nova Jerusalém, nºs 294, 295, 302 e 305.

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