. (Vers. 2) "Conheço as tuas obras, e o teu trabalho, e tua perseverança". Que isto signifique todas as coisas que querem, pensam e fazem, assim, todas as coisas do amor e da fé no espiritual e no natural do homem, vê-se pela significação de 'obras', que são as coisas da vontade e do amor (de que se tratará a seguir); pela significação de 'trabalho', que são as coisas do pensamento e da fé (de que também se tratará a seguir); e pela significação de 'tolerância', que são as coisas que daí fazem ou que são feitas. Mas ,dificilmente se pode compreender que isto seja significado por essas palavras, se não se sabe que todas as coisas que são feitas pelo homem fluem dos interiores que pertencem à sua mente, e que a mente está em tudo em todas as coisas que o homem pratica, e o corpo é somente obediência, pelo qual se apresenta numa forma aparente aos olhos aquilo que a mente quer e pensa. Assim é que as coisas externas, que aqui são as 'obras', o 'trabalho' e a 'perseverança' significam querer, pensar e, assim, fazer, ou, o que resulta no mesmo, amar, crer e, assim, mostrar-se na ação. Mas, ainda assim, estas coisas não são compreensíveis a não ser que se saiba que o homem tem duas faculdades que se chamam vontade e entendimento, e que essas duas faculdades, expressas numa só palavra, são a mente. Também, que há o homem interno e o homem externo; o interno está na luz do mundo espiritual e o externo na luz do mundo natural. Deste e daqueles tratou-se na Doutrina da Nova Jerusalém, no capítulo sobre a vontade e o entendimento, nºs 28-35, e sobre o homem interno e externo, nºs 36-52. Quando se compreende isto, pode-se saber por que pelas 'obras', no sentido espiritual, se entende tudo o que o homem quer e ama; e pelo 'trabalho', tudo o que homem pensa ou crê; e pela 'perseverança', tudo o que homem daí faz. [2] Mas, passemos adiante, porque talvez as coisas aqui sejam mais desconhecidas e, por isso, mais obscuras do que possam ser claramente percebidas, para afirmar somente que pelas 'obras' no sentido espiritual se entendem todas as coisas que pertencem à vontade ou ao amor do homem. E isto porque, na seqüência, onde se trata das sete Igrejas, em todas as referencias se diz primeiro: 'conheço as tuas obras', como nos versículos 8 e 9: "Ao anjo da Igreja de Esmirna escreve: Isto o Primeiro e o Último: Conheço as tuas obras, e aflição e pobreza" (Ap. 2:8-9); nos versículos 12 e 13: "Ao anjo da Igreja de Pérgamo escreve: Isto diz Aquele que tem a espada larga: Conheço as tuas obras e onde habitas"(Ap. 2:12-13); nos versículos 18 e 19: "Ao anjo da Igreja em Tiatira escreve: Isto diz o Filho de Deus (...) Conheço as tuas obras e tua caridade" (Ap. 2:18-19); no capítulo 3, versículo 1: "Ao anjo da Igreja em Sardes escreve: Isto diz Aquele que tem os sete espíritos de Deus (...) Conheço as tuas obras, que tu dizes viver" Ap. 3:1); nos versículos 7 e 8: "Ao anjo da Igreja em Filadélfia escreve: Isto diz o Santo e Verdadeiro: Conheço as tuas obras" (Ap. 3:7-8); e nos versículos 14 e 15: "Ao anjo da Igreja em Laodicéia escreve: Isto diz o Amém, a Testemunha fiel e verdadeira: Conheço as tuas obras" (Ap. 3:14, 15). [3] Porquanto em toda parte ali se diz 'conheço as [tuas] obras', é evidente que pelas obras são significadas em geral todas as coisas que pertencem à igreja. E como todas as coisas da igreja se referem ao amor e à fé, por isso, é o amor e a fé que se entendem pelas 'obras', no sentido espiritual. Que sejam estes que se entendem pelas 'obras' no sentido espiritual é porque toda obra ou todo feito ou toda ação que em aparência se faz pelo corpo, não é feita pelo corpo, mas pela vontade e pelo pensamento do homem por meio do corpo, pois nem uma só partícula do corpo se move senão pela vontade e pelo pensamento. Assim é que pelas 'obras' são significadas tais coisas, mas não as que aparecem na forma externa. Que seja assim, é o que sabe qualquer um que reflete. Quem é que, sendo sábio, considera um homem pelos seus feitos somente e não por sua vontade? Se quer o bem, ama os seus feitos, mas se quer o mal, não ama os seus feitos, mas também os vê e os explica segundo a intenção da vontade do homem. Quem é espiritual presta ainda menos atenção aos feitos, e examina a vontade. A razão disso, como foi dito, é porque os feitos nada são em si mesmos, mas tudo o que é dos feitos procede da vontade, pois os feitos são a vontade no ato. Diz-se vontade, mas no sentido espiritual se entende o amor, porque o homem quer aquilo que ama, e ama aquilo que quer. A vontade do homem é somente o receptáculo do seu amor. [4] Visto que as 'obras' ou os feitos significam em particular na Palavra as coisas que procedem da vontade ou amor do homem, por isso muitas vezes se diz na Palavra que o homem será julgado e retribuído 'segundo as suas obras', e se entendem as obras não na forma externa, mas interna. Por exemplo, nas seguintes passagens: "Virá o Filho do homem na glória do Pai com os Seus anjos e então dará a cada um segundo as suas obras" (Mt. 16:27); "Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, para que descansem de seus trabalhos; as suas obras os seguem" (Ap. 14:13); "Eu vos darei a cada um segundo a sua obra" (Ap. 2:23); "Vi os mortos pequenos e grandes de pé diante de Deus, e foram abertos uns livros (...) e os mortos foram julgados conforme as coisas que foram escritas nos livros, segundo as suas obras; deu o mar aqueles que nele foram mortos, e a morte e o inferno deram os que neles estavam, e foram julgados cada um segundo as suas obras" (Ap. 20:12, 13); "Eis que venho, e Minha recompensa comigo, para dar a cada um segundo as suas obras" Ap. 22:12); em Jeremias: "Retribuir-lhe-ei conforme as suas obras, e conforme o feito de suas mãos" (Jr. 25:14); JEHOVAH, "cujos olhos estão abertos sobre todos os caminhos dos [filhos] dos homens, para dar a cada um segundo os seus caminhos e segundo o fruto de suas obras" (Jr. 32:19); "Visitarei os seus caminhos, e as suas obras retribuirei" (Os. 4:9); "JEHOVAH faz conosco conforme nossos caminhos e conforme nossas obras" (Zc. 1:6). Onde o Senhor prediz o juízo final, não menciona outra coisa senão as obras, e diz que Entrarão na vida eterna os que fizeram boas obras, e na condenação os que fizeram obras más (Mt. 25:32-46). [5] Que as 'obras' signifiquem as coisas que pertencem ao amor e à fé, o Senhor também demonstra nestas palavras: "Disseram a Jesus: O que faremos para praticar as obras de Deus? Respondeu: Esta é a obra de Deus, que creiais n'Aquele que [o Pai] enviou" (Jo. 6:28, 29); e em outra passagem: "A noite virá, quando ninguém pode trabalhar" (Jo. 9:4); a 'noite' significa o último tempo da igreja, quando não há fé, por não haver caridade. Que a 'noite' signifique esse tempo, vide nos nºs 2353 e 6000. Que as 'obras' sejam mencionadas tantas vezes é porque o sentido da letra da Palavra consiste unicamente de externos que estão na natureza e aparecem diante dos olhos. Isto é assim a fim de que o sentido espiritual esteja ali como a alma no corpo, pois de outro modo a Palavra não seria comunicativa com os anjos, porque então seria como uma casa sem fundação (vide acima, nºs 8 e 16). Assim é que, também, quando se nomeiam 'obras', os anjos, por serem espirituais, não entendem obras, mas as coisas de que as obras procedem, que são, como se disse, a vontade ou o amor e, daí, o pensamento que pertence à fé. (Mas, que tu vejas este assunto numa luz mais clara na obra O Céu e o Inferno, nºs 470-483, onde se mostrou que o homem é após a morte tal qual foi sua vida no mundo). Que pelo 'trabalho', no sentido espiritual, se entendam todas as coisas que o homem pensa é porque espiritualmente 'trabalhar' é pensar; e que pela 'perseverança' sejam significadas todas as coisas que o homem faz é porque 'perseverar' é, aqui, ser constante e remover no homem natural as coisas que impedem, as quais continuamente se levantam e servem de empecilho.