AE 114

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. "Que foi morto, e vive". Que isto signifique que foi rejeitado e, todavia, d'Ele vem a vida eterna vê-se pela significação de 'ser morto' quando se refere ao Senhor, que é ser rejeitado (de que se tratou acima, nº 83); e pela significação de 'viver', que é vir d'Ele a vida eterna (de que também se tratou acima, nº 84). Diz-se que o Senhor é rejeitado quando não é buscado e adorado, e também quando é buscado e adorado somente quanto ao Seu Humano e não ao mesmo tempo quanto ao Divino. Por isso é rejeitado hoje nas igrejas por aqueles que não O buscam nem adoram, mas oram ao Pai para que tenha misericórdia por causa do Filho, quando, todavia, nenhum homem nem anjo pode se dirigir ao Pai e adorá-Lo diretamente, pois o Divino é invisível, com o qual ninguém pode ser conjunto pela fé e pelo amor, porque o que é invisível não entra na idéia do pensamento e, por isso, tampouco na afeição da vontade. E o que não entra na idéia do pensamento tampouco entra na fé, pois as coisas que devem ser da fé devem ser matérias do pensamento. E, também, o que não entra na afeição da vontade também não entra no amor, pois as coisas que devem ser do amor afetam a vontade do homem, pois neles reside todo o amor que é do homem (vide a Doutrina da Nova Jerusalém, nºs 28-35).
[2] Mas o Divino Humano do Senhor entra na idéia do pensamento, daí na fé e, daí, na afeição da vontade ou amor. Assim, é evidente que nenhuma conjunção há com o Pai senão pelo Senhor e no Senhor. Isto o Senhor mesmo ensina bem claramente nos Evangelhos. Em João:
"Ninguém jamais viu a Deus; o Filho Unigênito que está no seio do Pai, esse O deu a conhecer" (Jo. 1:18);
no mesmo:
"Vós nunca ouvistes a voz do Pai, nem viste o Seu parecer" (Jo. 5:37);
em Mateus:
"Ninguém conhece o Pai a não ser o Filho, e a quem o Filho quiser revelar" (Mt. 11:27);
em João:
"Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai a não ser por Mim" (Jo. 14:6);
no mesmo:
"Se me conhecêsseis a Mim, também conheceríeis a Meu Pai (...) quem me vê, vê o Pai". Filipe, "Não crês que Eu estou no Pai e o Pai em Mim? (...) Crede em Mim, que Eu estou no Pai, e o Pai em Mim" (Jo. 14:7-11);
e que
O Pai e o Senhor são um (Jo. 10:30, 38);
no mesmo:
"Eu sou a videira, vós os ramos (...) sem Mim nada podeis fazer" (Jo. 15:5).
[3] Daí se pode ver que o Senhor é rejeitado na igreja por aqueles que buscam diretamente o Pai e oram a Ele para que tenha misericórdia por causa do Filho, porque esses não podem deixar de pensar no Divino Humano como o humano de outro homem, portanto, não pensam no Divino no Seu Humano ao mesmo tempo, ainda menos no Seu Divino conjunto ao Seu Humano assim como a alma é conjunta ao corpo, segundo a doutrina aceita em todo o mundo cristão (vide acima, nºs 10 e 26). No mundo cristão, quem é que, reconhecendo o Divino do Senhor, jamais quer ser tal que ponha Seu Divino fora do Seu Humano? E, todavia, pensar no Humano somente e não ao mesmo tempo no Seu Divino no Humano é contemplar esses dois separados, o que é não pensar no Senhor nem em ambos como uma só Pessoa, quando, porém, a doutrina aceita no cristianismo também afirma que o Divino e o Humano do Senhor não são duas, mas uma única Pessoa.
[4] Os homens da igreja de hoje até pensam no Divino do Senhor em Seu Humano quando falam pela doutrina da igreja, mas pensam completamente diferente quando pensam e falam consigo fora da doutrina. Mas é sabido que um é o estado do homem quando pensa e fala pela doutrina, e outro quando o faz fora da doutrina. Quando pensa e fala pela doutrina, então pensa e fala pela memória de seu homem natural, mas quando o faz fora da doutrina é pelo seu espírito, pois pensar e falar pelo espírito é fazê-lo pelos interiores de sua mente, de onde vem a sua fé mesma. Também, o estado do homem após a morte se torna tal como foi o pensamento e a fala consigo mesmo fora da doutrina e não tal como foi seu pensamento e fala pela doutrina, se a estes a doutrina não fui unida.
[5] O homem ignora que existem dois estados do homem quanto à fé e ao amor, um quando está na doutrina e outro quando está fora da doutrina, e que o estado de sua fé e seu amor fora da doutrina o salva e não o estado de sua fala e amor pela doutrina, a não ser que este faça um com aquele. No entanto, falar e pensar pela doutrina sobre a fé e o amor é falar pelo homem natural e sua memória, como se pode ver pelo simples fato de que os maus, quando estão com os outros, podem pensar e falar igualmente aos bons. Por causa disso, também, igualmente aos bons, os pregadores maus podem pregar o Evangelho com semelhante aparência de zelo e afeição, ou pregadores que não têm fé alguma, igualmente aos que a têm. A razão disso é, como foi dito, que então o homem pensa e fala pelo seu homem natural e sua memória, mas pensar e falar por seu espírito é fazê-lo não pelo homem natural e sua memória, mas pelo homem espiritual e sua fé e afeição. Por isto, apenas, pode-se ver que o homem tem dois estados, e que o estado anterior não o salva, mas o posterior, pois o homem é um espírito após a morte; portanto, qual foi o homem no mundo quanto ao espírito, tal permanece após ter saído do mundo.
[6] Além disso, foi concedido saber por muitas experiências que o homem da igreja tem esses dois estados, porque, após a morte, o homem pode ser posto em um e outro estados, e, também, realmente é posto em um e outro estados. Quando posto no estado anterior, os homens falam como cristãos e, por essa fala, são tidos pelos outros como cristãos; mas, tão logo são postos no estado posterior, que é o estado próprio de seu espírito, então falam como espíritos diabólicos e inteiramente contra as coisas que falaram antes (vide, na obra O Céu e o Inferno, os nºs 491-498 e 499-511).
[7] Por aí se pode ver de maneira se deve entender que o Senhor é rejeitado hoje por aqueles que estão na igreja, a saber, que ainda que a doutrina ensine que se deve reconhecer e crer no Divino do Senhor no mesmo grau que o Divino do Pai, pois a doutrina ensina que
Assim como o Pai, também o Filho é incriado, infinito, eterno, onipotente, Deus, Senhor, e nenhum deles é maior ou menor, primeiro ou último (vide o Credo Atanasiano),
não obstante não se dirigem ao Senhor e ao Seu Divino nem O adoram, mas o Pai. Isto acontece quando oram ao Pai para que tenha misericórdia por causa do Filho; e, quando dizem isso, não pensam absolutamente no Divino do Senhor, mas em Seu Humano separado do Divino, assim, em Seu Humano semelhante ao humano de outro homem; e, também e ao mesmo tempo, não em um Deus, mas em dois ou três. Pensar assim no Senhor é rejeitá-Lo, pois não pensar ao mesmo tempo em Seu Divino quando se pensa em Seu Humano é excluir o Divino pela separação, quando, todavia, não são duas, mas uma só Pessoa, e fazem um só, como a alma e o corpo.
[8] Falei uma vez com uns espíritos que, quando viveram no mundo, foram da religião católica, e perguntei-lhes se tinham jamais pensado no mundo sobre o Divino do Senhor. Disseram que tinham pensado na doutrina todas as vezes em que estavam nela, e então tinham reconhecido o Seu Divino igual ao Divino do Pai; mas, quando estavam fora da doutrina, somente no Seu Humano e não no Divino. Ao serem indagados por que diziam que o poder do Seu Humano Lhe foi dado pelo Pai e não por Si mesmo, já que tinham reconhecido o Seu Divino igual ao Divino do Pai, afastaram-se sem nada responderem. Mas foi-lhes dito que a razão foi porque tinham transferido para si mesmos todo o Seu poder Divino, o que não poderiam fazer a não ser que tivessem feito a separação. Qualquer um pode concluir por isso que o Senhor é rejeitado por aqueles que em lugar do Senhor adoram o papa, e que esles não atribuem mais poder algum ao Senhor.
[9] Quero mencionar aqui também um grande escândalo ouvido do papa que foi chamado Bento XIV. Ele disse abertamente que, quando viveu no mundo, tinha acredito que o Senhor não tem poder algum, porque o transferiu todo a Pedro e, daí, aos sucessores deste, acrescentando que os santos deles tinham mais poder do que o Senhor, porque eles o retinham do Deus Pai, enquanto o Senhor Se tinha abdicado de todo o poder, dando-o aos pontífices, mas que, ainda assim, devia ser adorado, pois sem isso o papa não é adorado com santidade. Mas, visto que mesmo após a morte arrogava para si o Divino, depois de alguns dias foi lançado no inferno.

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