. "E dar-te-ei a coroa da vida". Que isto signifique a sabedoria e, daí, a felicidade eterna vê-se pela significação de 'coroa', quando se trata daqueles que estão na afeição espiritual do vero e do bem, que é a sabedoria, de que se tratará a seguir; e pela significação de 'vida', que é a felicidade eterna que também se chama vida eterna. Que aqueles que estão na afeição espiritual do vero e do bem tenham a felicidade eterna é porque o céu é implantado no homem por meio das cognições do vero e do bem provenientes da Palavra. Quem crê que o céu é implantado por outros meios está muito enganado, pois o homem nasce somente natural com a faculdade de poder se tornar espiritual, mas torna-se espiritual pelos veros da Palavra e por uma vida segundo os veros. Quem jamais pode se tornar espiritual, a menos que saiba alguma coisa a respeito do Senhor, do céu, da vida após a morte, da fé e do amor, e das demais coisas que são os meios de salvação? Se o homem os ignorasse, permaneceria natural, e o homem meramente natural não pode ter coisa algum em comum com os anjos do céu, que são espirituais. Há duas mentes no homem, uma exterior e outra interior. A mente exterior se chama mente natural, mas a mente interior se chama mente espiritual. A primeira, ou mente natural, é aberta pelas cognições das coisas que estão no mundo, mas a segunda, ou mente espiritual, é aberta pelas cognições das coisas que estão no céu, as quais a Palavra ensina e, pela Palavra, a igreja. Por elas o homem se torna espiritual, quando as conhece e vive segundo elas. [2] Isto é o que se entende pelas palavras do Senhor em João: "Se alguém não for gerado da água e do espírito, não pode entrar no reino de Deus" (Jo. 3:15); pela 'água' são significados os veros da fé, e pelo 'espírito' a vida segundo os veros (vê-se acima, nº 71, e na Doutrina da Nova Jerusalém, nºs 202-209). Muitos hoje crêem que virão ao céu somente pela santidade do culto nos templos e pelas adorações e preces, mas, dentre esses, os que não se importam com as cognições do vero e do bem provenientes da Palavra nem imbuem com elas a memória, e também a vida, esse permanecem naturais como eram antes; não se tornam espirituais, pois a santidade de seu culto, as adorações e as preces não procedem de qualquer origem espiritual. A sua mente não é aberta pelas cognições das coisas espirituais e por uma vida segundo as cognições, mas está vazia, e o culto procedente do vazio é somente um gesto natural em que não existe espiritual algum. Se esses tais forem insinceros e injustos quanto à vida moral e civil, então a santidade de seu culto, as adorações e as preces têm em si algo que repele de si o céu, ao invés de proporcionarem a recepção do céu, conforme eles acreditam, porque a santidade de seu culto é como um vaso em que se acham coisas repugnantes e impuras que se exalam, ou como uma vestimenta esplêndida num corpo cheio de úlceras. Desses eu vi muitos milhares serem lançados no inferno. Mas é diferente a santidade do culto, as adorações e as preces naqueles que estão nas cognições do vero e do bem e na vida segundo eles, pois neles esses atos agradam ao Senhor, porquanto são efeitos de seu espírito no corpo, ou efeitos de sua fé e seu amor; assim, não são apenas gestos naturais, mas atos espirituais. Por aí se pode ver que é somente as cognições do vero e do bem provenientes da Palavra e a vida segundo as cognições que fazem o homem espiritual, e naquele que se torna espiritual por esse meio a sabedoria angélica pode ser introduzia pelo Senhor e, com ela, a felicidade eterna. Os anjos não têm felicidade de outra parte senão da sabedoria. [3] Que a 'coroa' signifique a sabedoria é porque todas as coisas que servem para vestir e ornamentar o homem tiram sua significação da parte do homem que elas vestem ou ornamentam (vê-se no nº 9827), e a 'coroa' significa a sabedoria porque ornamenta a cabeça, pela qual é significada a sabedoria na Palavra, porquanto ela reside ali. Por exemplo, em Ezequiel: "Ornei-te de enfeite, e pus braceletes em tuas mãos e um colar em teu pescoço. Também pus uma argola em teu nariz e brincos em tuas orelhas, e uma coroa ornamentada em tua cabeça" (Ez. 16:11, 12); trata-se aí de Jerusalém, pela qual é significada a igreja, como era ela ao ser instaurada pelo Senhor. No sentido espiritual, por cada um desses ornamentos é significado algo que pertence à igreja, e a significação vem da parte em que o ornamento é aplicado. Pela 'coroa ornamentada' aí se entende a sabedoria. (Mas, o que é significado pelo 'ornamento' vê-se nos nºs 10536 e 10540; pelos 'braceletes', nº 4551; pelos 'brincos', nºs 4551 e 10402). A sabedoria que vem das cognições do vero e do bem provenientes da Palavra e da vida segundo as cognições é igualmente significada pela 'coroa' em muitas outras passagens na Palavra, tais como Is. 28:5; Jr. 13:18; Lm. 5:15, 16; Ez. 21:25, 26; 23:42; Zc. 6:11-14; Sl. 89:38, 39;132:17, 18; Jó 19:9; Ap. 3:11; 4:4. O hábito de os reis serem coroados vem dos tempos antigos, quando se conheciam as coisas representativas e significativas, pois se conhecia que os reis representavam o Senhor quanto ao Divino Vero e que a 'coroa' era para significar a sabedoria. (Que os reis tenham representado o Senhor quanto ao Divino Vero, vê-se nos nºs 1672, 2015, 2069, 3009, 4581, 4966, 5068 e 6148). Aqueles que estão nos veros são referidos como 'reis' e os 'filhos do rei', vê-se acima, nº 31; e como esses são chamados 'reis' na Palavra e os reis têm uma coroa, por isso, aqui, onde se trata deles, diz-se que 'receberão a coroa da vida'.