AE 131

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. "Isto diz Aquele que tem a espada larga, afiada, de dois gumes". Que isto signifique o Senhor, que combate sozinho nas tentações vê-se pela significação de 'espada larga' ou 'espada', que é o vero que combate contra o falso e, no sentido oposto, o falso que combate contra o vero; diz-se 'de dois gumes, afiada' porque penetra de ambos os gumes; como isto é significado pela 'espada larga', por isso ela significa a dispersão dos falsos e, também a tentação. Que signifique a dispersão dos falsos, vê-se acima (nº 73); e que signifique a tentação é porque nos escritos ao anjo dessa Igreja se trata das tentações. Que a tentação seja também significada pela 'espada larga' é porque a tentação é o combate do vero contra o falso e do falso contra o vero. (Que a tentação espiritual seja esse combate, vê-se na Doutrina da Nova Jerusalém, nºs 187-201). Que 'Isto diz Aquele que tem a espada larga, afiada, de dois gumes' signifique o Senhor que combate sozinho nas tentações é porque no capítulo precedente se disse que foi vista sair uma espada larga, afiada, de dois gumes, da boca do Filho do homem que anda entre os sete castiçais (cap. 1, vers. 16), e pelo 'Filho do homem' se entende o Senhor quanto ao Divino Vero (vê-se acima, nº 63). Que o Senhor combata sozinho nas tentações e não o homem, vê-se na Doutrina da Nova Jerusalém (nºs. 195-200). Que pela 'espada larga' ou 'espada' seja significado o combate do vero contra o falso e do falso contra o vero é porque as 'guerras', na Palavra, significam as guerras espirituais, e as guerras espirituais são dos veros contra os falsos e dos falsos contra os veros. E como as 'guerras' significam isso na Palavra, assim também todas as armas de guerra, tais como a espada, a lança, o arco, as flechas, o escudo e muitas outras significam alguma espécie de combate espiritual, especialmente as espadas, porque nas guerras se combatia com espadas. (Que as 'guerras' signifique os combates espirituais, vê-se nºs 1659, 1664, 8295 e 10455; e que, daí, cada arma de guerra signifique algum combate espiritual, nºs 1788 e 2686).
[2] Que a 'espada' signifique na Palavra o vero que combate contra o falso e o falso que combate contra o vero, e, assim a dispersão dos falsos e, também, a tentação espiritual, pode-se ver principalmente por muitas passagens ali, das quais quero referir algumas para confirmação. Por exemplo, em Mateus:
Jesus disse que não veio trazer paz à terra, mas a espada (Mt. 10:34);
pela 'espada' aí se entende o combate de tentação. A razão por que foi dito assim é que os homens naquele tempo estavam nos falsos e o Senhor revelou veros interiores, e os falsos não podem ser expulsos senão por combates por esses veros.
[3] Em Lucas:
Jesus disse aos discípulos: "Agora, quem tiver a bolsa, tome-a, igualmente o alforje; mas, quem não tem, venda a sua vestimenta e compre uma espada" (Lc. 22:35-38);
pela 'bolsa' e pelo 'alforje' são significadas as cognições espirituais, assim, os veros; pela 'vestimenta' são significadas as coisas próprias, e pela 'espada', o combate.
[4] Em Jeremias:
"Ó espada, contra os caldeus (...) e contra os habitantes de Babel, e contra os seus príncipes e contra os seus sábios; ó espada contra os mentirosos, para que fiquem insanos; ó espada contra os fortes, para que desfaleçam; ó espada contra os seus cavalos e contra seus carros; ó espada contra os seus tesouros, para que sejam saqueados; secas [haverá] sobre as sua águas, para que sequem" (Jr. 50:35-38);
pela 'espada', aí, é significada a dispersão e a vastação do vero; por cada um daqueles sobre os quais acontecerá isso, como os 'caldeus' os 'habitantes de Babel', os 'príncipes e seus sábios', os 'mentirosos', os 'fortes', os 'cavalos', os 'carros' e os 'tesouros' são significadas as coisas tais que eram vastadas, ou seja, pelos 'cavalos' as coisas do entendimento, pelos 'carros', as doutrinais e pelos 'tesouros' as cognições. Daí se diz 'seca [haverá] sobre as águas, para que sequem', pois as 'águas' são os veros da igreja, e as 'secas para que elas sequem' é a vastação. (Que 'seca' e a 'sequidão' seja onde não há vero, vê-se no nº 8185; que as 'águas' sejam os veros da igreja, acima, nº 71; que os 'tesouros' sejam as cognições, nºs 1694, 4508 e 10227; e que os 'cavalos' sejam as coisas do entendimento e os 'carros' as doutrinais, vê-se no opúsculo Do Cavalo Branco, nºs 2 a 5).
[5] Em Isaías:
"JEHOVAH disputará, e por Sua espada, com toda carne, e serão multiplicados os traspassados de JEHOVAH " (Is. 66:16);
em Jeremias:
"Sobre todas as colinas no deserto vieram os devastadores, porque a espada de JEHOVAH devora desde uma extremidade da terra até a outra extremidade da terra" (Jr. 12:12);
em Ezequiel:
"Profetiza e diz: (...) A espada afiada e também polida, para matar na matança foi afiada, para que tenha brilho foi polida (...) Repita a espada pela terceira vez, a espada dos traspassados, a espada do grande traspasse, que penetra as entranhas, para que derreta o coração e se multipliquem os tropeços; contra todas as suas portas porei a ponta da espada; ah!, tornou-se um relâmpago" (Ez. 21:9, 10, 14, 15, 28);
em Isaías:
"Saí com água ao encontro dos sedentos (...) com pão vem ao encontro do errante, pois diante da espada errarão, diante da espada estendida e diante do arco teso, e por causa da gravidade da guerra" (Is. 21:14, 15);
em Ezequiel:
"Tremerão (...) quando Eu fizer voar a Minha espada diante de suas faces, para que estremeça cada momento o varão por causa de sua alma (...) pela espada dos poderosos que expulsa a multidão deles" (Ez. 32:10-12);
em David:
"Os santos exultarão na glória, cantarão nos seus leitos; as exaltações de Deus em suas gargantas, e a espada de dois fios em suas mãos" (Sl. 149:5, 6);
no mesmo:
"Cinge a Tua espada na Tua coxa, ó Poderoso (...) em tua honra sobe ao carro, cavalga sobre a palavra da verdade (...) a Tua direita ensinará maravilhas; Tua flechas são agudas" (Sl. 45:3-5);
No Apocalipse:
Foi dada uma grande espada [machaera] ao que estava montado no cavalo vermelho (Ap. 6:4);
e, em outra passagem:
Da boca do que estava montado no cavalo branco saía "uma espada larga, afiada, para ferir com ela as nações; (...) os demais foram mortos pela espada do que estava sentado no cavalo" (Ap. 19:15, 21).
Nessas passagens, pela 'espada' é significado o que vero que combate e destrói. Essa destruição aparece principalmente no mundo espiritual; ali, os que estão nos falsos não suportam o vero; afligem-se como os que lutam com a morte quando vêm à esfera da luz, isto é, onde está o Divino Vero, e são, assim, também privados dos veros e vastados.
[6] Assim como a maioria das coisas na Palavra, que têm um sentido oposto, também a 'espada' o tem e, nesse sentido, significa o falso que combate contra o vero e o destrói. As vastações da igreja, que acontecem quando não há mais veros nela, mas somente falsos, são descritas na Palavra pela 'espada', como nas seguintes passagens:
"Cairão pelo fio34 da espada e serão levados cativos entre todas as nações; finalmente Jerusalém será pisada por todas as nações, até que se completem os tempos das nações" (Lc. 21:24);
a consumação do século, de que se trata aí, é o último tempo da igreja, quando os falsos hão de reinar; 'cair pelo fio da espada' é que o vero seria destruído pelo falso; as 'nações', aí, são os males; 'Jerusalém' é a igreja.
[7] Em Isaías:
"Farei o homem mais raro que o ouro puro; (...) O que for achado será traspassado, e todo aquele que for congregado cairá pela espada" (Is. 13:12, 15);
o 'homem' que é raro está em lugar daqueles que estão nos veros; 'traspassados' e 'cair pela espada' é ser consumido pelo falso.
[8] No mesmo:
"Naquele dia lançarão fora, cada varão os seus ídolos de prata e os seus ídolos de ouro, que as vossas mãos fizeram (...) Então a Assíria cairá pela espada não do varão; e a espada, não do homem, o consumirá; mas o que foge diante da espada, seus jovens serão por tributo" (Is. 31:7, 8);
os 'ídolos que as mãos fizeram' são os falsos vindo da inteligência própria; 'Assíria' é o racional pelo qual se faz isso; 'cair pela espada não do varão' e 'não do homem' é não ser destruído por algum combate do vero contra o falso; o 'que foge diante da espada, seus jovens serão por tributo' é o vero que não for destruído servindo aos falsos. No sentido da letra não parece que este seja o sentido dessas palavras; daí é evidente quão distante é o sentido espiritual do sentido da letra.
[9] Em Jeremias:
"Em vão feri os vossos filhos, e a disciplina não aceitaram; a espada devorou os vossos profetas" (Jr. 2:30);
no mesmo:
"Eis que os profetas dizem: Não vereis a espada, e fome não tereis (...) pela espada e pela fome os profetas serão consumidos; (...) se eu saio ao campo, eis os mortos à espada; e se entro na cidade, eis as sequidões da fome" (Jr. 14:13-18),
onde se trata, em ambas as passagens, da vastação da igreja quanto ao vero. 'Profetas' são os que ensinam os veros, e a 'espada' que os consome é o falso que combate e destrói; o 'campo' é a igreja, a 'cidade' é a doutrina, os 'feridos à espada no campo' são aqueles na igreja em quem veros foram destruídos e a 'fome' que há na cidade é falta de todo vero na doutrina.
[10] No mesmo:
"Negaram a JEHOVAH quando disseram: Não é Ele; o mal não virá sobre nós, e não veremos espada nem fome" (Jr. 5:12);
no mesmo:
"Os jovens morrerão à espada, e seus filhos e filhas morrerão de fome" (Jr. 11:22);
os 'jovens' são os que estão nos veros e, abstratamente, os veros mesmos; 'morrer à espada' é ser destruído pelos falsos; 'filhos e filhas' são as cognições do vero e do bem; 'fome' é a falta destes.
[11] Nas Lamentações:
"Com perigo de nossas almas obtemos nosso pão, por causa da espada no deserto" (Lm. 5:9);
'deserto' é onde não há bem, por não haver vero; sua 'espada' é a destruição do vero; 'pão' é o bem que é obtido 'com perigo das almas', porque todo bem é implantado no homem pelo vero.
[12] Em Ezequiel:
"A espada de fora, e a peste a fome de dentro; quem estiver no campo morrerá à espada, e quem estiver na cidade a peste e a fome devorá-lo-ão" (Ez. 7:15);
a 'espada' é a destruição do vero; a 'peste' é consumação daí; a 'fome' é falta completa, igualmente a outras passagens, como Jr. 21:7; 29:17, 18; 34:17.
[13] Em Zacarias:
"Ai do pastor inútil que abandona o rebanho; a espada sobre o seu braço e sobre o seu olho direito; seu braço, secando-se, mirrará, e seu olho direito, escurecendo-se, escurecerá" (Zc. 11:17);
a 'espada sobre o braço' é a destruição das coisas da vontade quanto ao bem, a 'espada sobre o olho direito' é a destruição das coisas do entendimento quanto ao vero; que perecerão todo bem e todo vero é significado por 'o braço, secando-se, mirrará, e o olho direito, escurecendo-se, escurecerá'.
[14] Em Isaías:
"Assim direis a vosso senhor: (...) Não temas por causa das palavras que ouviste, com as quais os meninos do rei da Assíria blasfemaram JEHOVAH (...) eis que farei cair a espada em sua terra. E Senaqueribe, rei da Assíria, voltou. E aconteceu que, como ele se curvasse na casa de Nisroque, seu Deus" (...) dois "filhos o feriram à espada" (Is. 37:6, 7, 37, 38).
Visto que é o racional que reconhece e que nega o Divino e, quando nega, toma todo falso em lugar do vero e, assim, perece, por isso aconteceu esse representativo, a saber, que o rei da Assíria, por ter blasfemado contra JEHOVAH, foi ferido à espada pelos filhos na casa de Nisroque, seu deus. A 'Assíria' significa o racional em um e outro sentidos (nºs. 119 e 1186); os 'filhos' desse rei significam os falsos; e a 'espada' significa a destruição por eles.
[15] Em Moisés:
A cidade que adorasse outro deus seria ferida à espada e queimada no fogo (Dt. 13:12, 13, 15, 16).
Isso foi ordenado porque naquele tempo todas as coisas eram representativas. 'Adorar outro deus' é adorar pelos falsos; 'ser ferido à espada' é perecer pelo falso; e 'ser queimada no fogo' é perecer pelo mal do falso.
[16] No mesmo:
Todo aquele que, no campo, tocasse num ferido à espada seria imundo" (Nm. 19:16, 18, 19);
'tocar no campo um ferido à espada' representava aqueles que, na igreja, destruíram em si os veros; o 'campo' aí é a igreja.
[17] Que a 'espada' signifique o falso que destrói o vero, é evidente em David:
"Estão inflamados os filhos dos homens, seus dentes são lanças e flechas, e sua língua uma espada afiada" (Sl. 57:4);
"Eis que arrotam com sua boca, espadas em seus lábios" (Sl. 59:7);
Os que obram iniqüidade "afiam sua língua como uma espada, retesam sua flecha com palavra amarga" (Sl. 64:3).
Por aí é evidente o que é significado pelas palavras do Senhor a Pedro:
"Todos os que tomarem a espada, à espada perecerão" (Mt. 26:51, 52);
a saber, os que crêem nos falsos perecerão pelos falsos.
[18] Por estas explicações pode-se ver agora o que é significado na Palavra pela 'espada larga' [romphaea], pela 'espada' [machaera] e pela 'espada' [gladium] em ambos os sentidos. Que essas coisas sejam significadas pela espada é, também, por causa da aparência no mundo espiritual. Quando há ali combates espirituais, que são combates do vero contra o falso e do falso contra o vero, então aparecem várias armas de guerra, tais como espadas [enses], lanças, escudos e coisas semelhantes. Não que os combates sejam feitos com essas armas, mas são somente aparências representativas dos combates espirituais. Quando os falsos combatem violentamente contra os veros, então às vezes aparece do céu um esplendor ou brilho de espada vibrando duma e doutra parte que causa grande terror, pelo que são dispersos os que combatem pelos falsos.
[19] Daí é evidente o que se entende por estas palavras em Ezequiel:
"Ficarão horrorizados quando Eu fizer voar Minha espada diante de suas faces, para que tremam a todo momento por causa de sua alma" (Ez. 32:10, 11, 12);
e, no mesmo:
"Profetiza e diz: (...) A espada foi afiada e também polida (...) para que tenha brilho, para derreter o coração; ah! tornou-se um relâmpago" (Ez. 21:9, 10, 15).
Que haja tanto terror por causa dela é porque o ferro, de que a espada é feita, significa o vero nos últimos, e o esplendor e brilho vem da luz do céu e sua vibração nela. A luz do céu é o Divino Vero procedente do Senhor. O Divino Vero que assim cai nos que estão nos falsos incute o terror.
[20] Por aí, também, é evidente o que é o significado pelo fato de, após Adão ser expulso,
"Do oriente do Eden fez habitar querubins, e uma chama de espada voltando-se para todo lado e vibrando, para guardar o caminho da árvore da vida" (Gn. 3:24);
pela 'árvore da vida' é significado o amor celeste, que é o amor ao Senhor; pelos 'querubins', a guarda; pela 'chama da espada voltando-se para todo lado' a terrífica expulsão e rejeição de todos os que estão nos falsos; o 'oriente do Eden' é onde a presença do Senhor está nesse amor. Assim, essas palavras significam que todos os meios para se reconhecer somente o Senhor foram fechados àquele que não vive a vida do amor. Que a 'espada' signifique o falso, é claramente evidente em Ezequiel, onde se diz a respeito do príncipe de Tiro:
"Desembainharão as espadas sobre a beleza de tua sabedoria" (Ez. 28:7);
pelo 'príncipe de Tiro' é significada a inteligência que procede das cognições do vero. Como ela é extinta pelos falsos, por isso se diz sobre a 'sabedoria', o que não se poderia dizer a menos que pelas 'espadas' se entendessem os falsos.

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